sábado, 30 de agosto de 2008

simbólico e ritual: um a b c


Simbólico
é o nome que convencionalmente damos ao "universo" em que o ser humano vive mergulhado. Não tem pois sentido estar a distinguir entre um locus simbólico, e um locus funcional: nada é estritamente funcional neste mundo que habitamos, desde comer a defecar. Mais ou menos público ou privado, todo o acto humano é impregnado de simbolismo, que a maior parte das vezes se não apresenta como tal, mas é fantasiado como "natural", isto é, como anterior ou exterior ao simbólico (por ex., actos fisiológicos, o que às vezes se chama instintos, mesmo até certo ponto as pulsões, etc).
Nenhum acto humano tem um significado único e os múltiplos sentidos possíveis (na verdade infinitos, tantos quantos os "intérpretes", sendo que cada ser se desdobra em muitos) não se podem nunca reduzir à unidade. As ciências elaboram tipologias, categorizações, mas são sempre assumidamente convenções. Reduz-se, simplifica-se, para se tentar encontrar invariantes, numa realidade que jamais se deixa abraçar pela interpretação. Mas as invariantes estão sempre em mutação. Não há estabilidade, apesar do nosso desejo.
Não havendo sentidos estáveis, não vale a pena andar à procura deles, seja na realidade a acontecer à nossa volta, seja na passada, senão como entidades heurísticas, construções nossas para ajudar ao entendimento, assumidamente precário.
Há pessoas que confundem grosseiramente esse simbólico, essa envolvente, com o ritual, que pode processar-se também de múltiplas formas, mais ou menos formais, mas é já um domínio mais específico, uma sequência de acções que seguem, se orientam por, ou procuram alguma estabilidade, como seja a da capacidade de previsão. O ritual inculca no mundo o arbitrário como não arbitrário, tenta implementar na realidade comunitária (mesmo o ritual de um indivíduo isolado pressupõe a existência de outros) um sentido de ordem, e portanto é um elemento securizante. Não admira que as religiões - como sistemas de crenças e de práticas securizantes, baseadas na grande ilusão projectiva que é termos criado um Deus (ou um princípio único qualquer, a questão é sempre a da unidade, a de uma realidade transcendental que pode até ser povoada por milhares de seres) que nos teria criado a nós - não possam existir sem o rito, sem o ritual. O ritual corporiza a própria fantasia como verdade: ele acontece, e por isso con-funde-se com a prova da crença, que por definição não tem prova possível.

Naturalmente que tudo o que acabei de afirmar é contestável porque enquanto discurso de um ente humano, ainda por cima utilizando um "filtro" (ou écrã, se se quiser) como a escrita, tomba dentro do domínio da actividade simbólica, e mais especificamente como ritual "bloguista" destina-se a endereçar a mensagem subliminar de que o que escreve esta nota pensa alguma coisa, e como tal, a aumentar o seu "capital" ("parcela" de atenção suspensa) junto de eventuais leitores.
O discurso do blogue, instantâneo como a passerelle de moda, visa (deseja) o "gaze" do outro: esse o seu efeito essencialmente (in)estético... e o seu radical desencontro, porque esse "gaze" do outro não passa de uma fantasia do locutor, do emissor do discurso, que é evidentemente por ele, discurso, também e simultaneamente "feito" como sujeito de desejo.


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