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sexta-feira, 29 de agosto de 2008

Algumas breves citações ...ligeiramente simplificadas por mim

... do livro de Carlos Amaral Dias, "Modelos de Interpretação em Psicanálise", Coimbra, Almedina, 2003:

" (...) a procura de uma causa primeira é imprópria para a Psicanálise (...)" (p. 12)

"(...) ideia radicalmente freudiana - (...) aquilo que o sujeito diz é outra coisa." (p. 15)

"Aquilo que é mais aprisionante (...) é a convicção de que os factos existem e que eles justificam qualquer coisa." (p. 17)

"(...) a transferência é sempre um equívoco." (p. 18)

"(...) se o paciente disse isto, logo disse outra coisa." (p. 19)

"Os psicanalistas não estão interessados em saber o que sucedeu." (pp. 22-23)

"(...) o que digo hoje gera o passado, [é] o que lhe dá outro sentido." (p. 27)

"A interpretação (...) espatifa o modelo cronológico." (p. 28)

"O sujeito é (...) ultrapassado pelo seu discurso." (p. 30)

"A interpretação é o lugar da geração de um outro senso comum." (p. 31)


Parece-me este livro, bem como outros do autor, bastante sugestivo (além de simples de ler), apesar de eu não passar de um leigo interessado nestas matérias.
Como não podia deixar de ser, o livro interessa também bastante a todos os que tratam do tempo, embora o tempo como tudo em psicanálise seja antes do mais encarado a nível individual. O autor - como já Freud - refere-se à arqueologia. A psicanálise é uma terapia, e isso é um assunto imenso, uma profissão, de que não sei nada (eu que nem nunca me submeti a uma análise). Mas a psicanálise é também obviamente uma inspiração filosófica, ou seja, abre para uma pluralidade de problemas que a filosofia e todos os outros saberes convocam também.
A psicanálise é subversiva do senso comum, da convicção em que os indivíduos estão de que sabem, de que dizem o que sabem e o que são. Eles sabem, mas não sabem aquilo que sabem. Toda a identidade é discursiva, e como tal equivocada, descentrada: é apenas um imenso enunciado sujeito a análise.
Há um equívoco em qualquer formação discursiva, e é por isso e nisso que Freud foi grande mas, ao mesmo tempo, partindo ele de uma posição realista (desocultar a "verdade última"), a sua inspiração vale como tal, não para se seguir à letra, mas pela esquina que nos fez virar, nessa consciência fragmentada do eu que nos caracteriza desde os inícios do séc. XX.
Muitos arqueólogos julgam que andam a desocultar a verdade última. É o passado da humanidade! Deviam ler Freud, é um autor já com barbas... não para o seguir, mas para o pensar. E pensar um autor é sempre querermos encontrar nele o ponto de discordância, que nos faz prosseguir, e não o ponto de concordância, que nos faz (as)sentar.
Pesquisar não é desvelar qualquer realidade última, nem que seja uma estátua gigante de um imperador romano, que há dias fez o frenesim de muitos jornais e notícias. O palpável é o que engana mais, pois se cola uma epistemologia realista ingénua (palpo, tateio, vejo, logo conheço e sei) a uma filosofia espontânea do senso comum, que ignora o carácter semiótico da realidade, ou seja, de que a realidade é de certo modo uma ficção.
Aliás, é esse carácter de ficção da realidade que nos permite a arte e a ciência. Ficcionando pedaços de realidade, vamos manipulá-los e manufacturá-los. Mas a apreensão dos materiais nunca deixa, no ser humano, de passar pelo filtro simbólico em que estamos mergulhados, lançados. Ser no mundo é ser-aí, quer dizer, ser situado, contingente, e iludido: e aqui, se não digo disparate, a inspiração heideggeriana e freudiana enlaçam-se.
Se digo disparate, agradeço ser corrigido. É para isso que há um blogue, coisa diferente de um livro. Num blogue podem-se e devem-se pôr apontamentos. Num livro as afirmações têm outra responsabilidade e visam uma "autoridade".





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