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domingo, 10 de janeiro de 2010

OS ARDIS DA IMAGEM


OS ARDIS DA IMAGEM

Poemas

por

Vítor Oliveira Jorge


Colecção
Os Olhos e a Memória/48

Direcção da Colecção
Egito Gonçalves

1ª Edição (esgotada)
Novembro 1989

Editora
Porto/LIMIAR


______________________________________________________
ÍNDICE

1. que esperais ver
2. fala-vos
3. a palavra. quando avança
4. sobre estas colinas nuas
5. aproximo-me insensivelmente de uma folha solitária
6. deito-me sobre a tem
7. eu sei que me esperas há muito tempo
8. quando o verão sobe pelos canais da seiva
9. entre a desordem dos pássaros
10. as aves da memória são estáticas
11.os arcos do tempo
12.litorais de Inverno
13.que fazer da alegria
14.nós somos do sul
15.conheces a estação
16.estará o verão
17.caminhar demoradamente
18.distância
19.sobes à minha frente
20.despes-te lentamente
21.olhas-me em primeiro plano
22.alta noite
23.a casa. vista do interior
24.as janelas, para quem vem de dentro
25.as ruas cabo cheias de figurantes
26.os meus amigos estão talvez mortos
27.quando todas as vozes que alguma vez
28.este verão Mo chegou ninguém
29.nunca me encontrei
30.entre mim e v6s houve sempre
31.naquele dia, naquele momento, o professor calou-se
32.por que hei de ser sempre eu



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1

que esperais ver, se ante vós abrir
estas cortinas vermelhas?
o número do autor, e suas obras adestradas?
sabei que quando o cansaço me raiar de escarlate
o brilho das lentes
uma grande asa negra sairá voltejando de dentro do negro
e enquanto muitas bocas falarem por mim
todas as cortinas se abrirão com um riso acrobático
para uma paisagem de cortinas sérias.






2

falo-vos
de lugar nenhum.
apenas dois lábios
demasiado tempo colados
têm um dia a tentação
de se abrir.
e irremediavelmente
libertam palavras
que se levantam no ar
como bolas de sabão.
talvez em algumas delas viajem
as cores do arco-íris.
mas quem vos fala
não é ninguém.
apenas uma boca
seca de silêncio
abrindo-se a custo
para deixar irromper
a fluidez fresca do discurso.
é assim: a vós, que não existis,
preciso cedo ou tarde de falar
estabelecer esta cumplicidade que só pode acontecer
de ninguém para ninguém








3

a palavra, quando avança
pela extensão seca da página
é como vaga ou veia
de sangue negro.
e, sob a luz a prumo,
logo coagula em pedra, de onde sai,
silenciosa,
uma língua de sombra.
mas a palavra voltará
uma e outra vez
tentando inundar o deserto
jorro de água que a cal da garganta exige
nesta ardência do branco










4

sobre estas colinas nuas
em pleno dia
estou absorto há muito tempo
sentindo a queda das estrelas cadentes
queimar-me as têmporas.
que crateras de silêncio se abrem
dentro de mim?
que naves viajam há séculos
nesses espaços interiores,
caminhando inexoravelmente
para a sua explosão?
que rosto simétrico aproxima da minha boca
os seus lábios frios?
que palavra dizer a esta multidão
que agora me fita
por momentos distraída
dos seus jogos espalhados no campo






5

aproximo-me insensivelmente de uma folha solitária
é um campo de neve numa manhã de domingo
cheio de lâmpadas lácteas e de brancas patinadoras
no coração da terra conhecerei o segredo das raízes
o silêncio do outro lado do papel









6

deito-me sobre a terra
entre borboletas mortais esvoaçando.
as raízes do húmus
ligam-se pouco a pouco às minhas veias.
em vagas sucessivas, o seu silêncio
caminha-me pelo corpo.
das têmporas irrompem fontes
veios de água que serpenteiam pelo chão
e se fazem rios.
as mãos esquecem-se de mim
e tornam-se aves que se largam
generosamente no ar.
a palavra, cerrada na boca,
está pronta para se transformar em pedra.






7

eu sei que me esperas há muito tempo
dentro de uma concha ou de uma casa
com o teu olhar sereno
aguardas a minha exaustão
ou tão só um momento de distracção
em que a música pare
em que uma sombra atravesse o meu caminho
ou em que eu fique só
enquanto todos os carros se perdem nos asfaltos
é para ti que eu me preparo
esporeando furiosamente o meu cavalo de palavras
a boca comprimida
entre dentes e sangue










8

quando o verão sobe pelos canais da seiva
e concentra pequenas ampolas de luz
na extremidade das folhas
as copas redondas pousam
na respiração do dia
a morte aqui deve ser como uma evaporação
que lenta dilui a memória
uma espécie de secular cansaço
da limpidez do olhar










9

entre a desordem dos pássaros,
as estátuas, com as suas pupilas de calcário,
obstinam-se em ver.
dir-se-ia um olhar em estado puro,
que o tempo,
ou o nosso próprio fascínio,
mancham lentamente de um choro de líquenes.










10

as aves da memória são estáticas
sobre os pianos incendiados distendem as asas
cortando desmesuradamente
os arames do cérebro
e quando o sangue do olhar
aflora aos lábios frios do sorriso
as mãos passam em voo rasante sobre o papel
as palavras gotejam como estalagtites
no tecto da boca







11

os arcos do tempo
erguem-se até às altas arestas
e as pessoas passam sob as abóbadas
com um gesto rápido
fugazes rostos
deslizando para o movimento da sombra








12

litorais de inverno
rochas frias
cobertas de líquenes azuis.
anémonas de gelo
cristalizando ao ar.
espuma que se depmita nos vidros
enquanto as aves partem
e o olhar se dilui
nos rolos das vagas.
inverno, suculcnfa carne
que no interior da concha se abre
aos lábios da nastalgia








13

que fazer à alegria
destas palavras
corolas que se abrem
inesperadamente
olhares que se acendem
ao longo das paredes
passos descalços
que entram no texto
com tal desenvoltura
lábios que se desnudam
para esmagar um morango
lentamente
percussões que se ouvem
altas como o dia
que voz me chama
tão particularmente
que presença sem rosto
me visita para me prometer
uma exaltação sem nome





14

nós somos do sul
longa falésia ardente
correndo ao longo do mar.
terra
onde as cigarras vivem
no coração das laranjas
onde o corpo se espreguiça
sobre as ondulações do trigo
onde o som da flauta
acompanha o veio do vinho
até à secura do pão
onde a água brota
do silêncio tombado
das estátuas
onde as colunas brancas assistem
à limpidez do ar.
somos do sul
de onde partem barcos
velas que se erguem acima das casas
entre sugestões de aves
e a brisa de áfrica
onde o azul começa enorme
das esquinas da sombra
e o barro dos rostos aflora
contra a cal dos muros.
sul, grande cintilação parada
no horizonte da nossa memória








15

conheces a estação
dos frutos escarlates, de pele aveludada,
que é preciso abrir com os dentes
deixando escorrer pela boca
o seu sumo vermelho e abundante?
podem colher-se em clareiras
quando a noite já funde os corpos
no seu borrão negro, mas os rostos, lá no alto,
se iluminam do último fulgor do dia,
brilhando nas ondas espessas, lentas, dos cabelos.
e os mantos de relva macia, junto à água,
onde uma suave irritação percorre a pele,
quando os amantes se perseguem, inebriados
pdo odor da hortelã?
só então a noite se põe de vez,
e com ela a importância do silêncio,
crepitando nas solenes fogueiras do olhar







16

estará o verão
suficientemente maduro
as ervas imgadas
de luz
as copas das árvores
desdobradas em torno do seu eixo
cabeleiras solares
estará o olhar
suficientemente atento
para que o movimento do teu corpo
possa surgir
simples ondulação
de um ser que apenas
começa a ser
entre minúsculos
estilhaços de luz
brilhante aparição
congestão do silêncio







17

caminhas demoradameate
para a água
sentindo no corpo todo
o tacto do ar.
a manhã pára, nos seus estáticos flamingos
cor de rosa.
plantas carnívoras abrem as suas ventosas
para a luz táctil.
tocas a superfície líquida
com a ponta do pé, vendo os círculos concêntricos
que se desenvolvem.
tucanos, de grandes bicos vermelhos,
silenciam-se nas árvores.
o único movimento é o dos reflexos aquáticos
na tua pele.
o próprio olhar do texto se contém
para reter a tua imagem antes de entrares na água.







18

distância
sugestão de um corpo
terra deitada
em gradações
de calor e água

um odor de algas
à tona
da gordura da noite

a boca começa
uma longa viagem
através do ar
enquanto nas costas
me pousam atentas
gaivotas de pedra

descubro duas mãos
em que os teus ombros
se condensam
e nos dois bicos
dos teus seios
a dispersão dos dedos
encontra
a crispação do tempo

ampolas de sangue
dilatam-se e pulsam
túlipas vivas
nos teus joelhos brilham
duas luas cheias
e eu reclino-me
fechamo-nos os dois
na rotação da esfera

na orla do mar
passam cavalos
impetuosa força de suor e brilhos
excremento e espuma









19

sobes à minha frente
a nudez dos pés tacteando os ruídos
do soalho antigo
no sótão o sol está a pôr-se
e tu vais estender-te longamente na colcha
com uma pequena chama ardendo sobre a púbis
mas agora sobes ainda
e os meus olhos de insecto seguem-te
enquanto nos seus milhares de lâminas
a luz dos teus joelhos se repercute
será que quando chegar junto de ti
já tudo se consumou?
durará o dia mais uns instantes,
ou voarão as asas do desejo
para além das janelas, livres na noite?
tu sobes sempre, e atrás de ti
os meus dois olhos assassinos.








20

despes-te lentamente
como se tivesses combinado
uma brincadeira comigo.
estás debruçada sobre ti, absorta
na tua pele.
pelas frinchas das janelas,
escoa-se o tempo.
lá fora os insectos correm
ávidos de pólen
para as flores abertas.
no claro-escuro o teu corpo surge
inteiro.
caminhas, sentindo a atmosfera
rodar em tomo do teu volume.
disterides-te na electricidade da colcha,
e nunca me olhas.
eu vejo-me reclinar sobre ti,
obediente,
sigo o meu percurso por um corredor negro
em cujo fundo me fitam atentas
as serenas pupilas da morte.
por detrás de mim
o meu verdadeiro movimento
só agora vai começar.







21

olhas-me em primeiro plano
enquanto ao fundo da sala,
muito ao longe,
brincas distraída na tua infância.
uma vaga de mercúrio caminha silenciosa
pelo chão.
uma longínqua porta se abre
e uma figura muito alta, num foco de luz,
vem buscar-te pela mão.
junto a mim, uma lágrima sai dos teus olhos,
escorre lentamente ao longo do texto.
um liquido denso invade o compartimento,
entorpece-me os gestos,
dilui pouco a pouco a tua imagem.
As teclas, premidas pelos dedos em fúria,
cortam-te violentamente o rosto.







22

alta noite
quando andam navios perdidos no mar
e na casa, sobre os terraços.
ondulam cortinas de nevoeiro
caminho para o sítio em que dormes
enquanto um silvo se ouve por dentro do sono.
nas salas, as grandes marés ocultam-se atrás dos reposteiros.
a obscuridade dos corredores é iluminada
por cardumes que procuram os meus olhos:
neste ritmo de respiração de anémonas
a consciência luta para se concentrar
enquanto aos meus ouvidos certas palavras chegam
dentro de bolhas de ar.
alguém está de costas, à porta do teu quarto,
não lhe vejo o rosto, mas apenas o manto de gaze.
e a luva sobre o fecho, uma luva de onde saem
cinco unhas afiadas, vermelhas.
uma estranha embriaguês começa a apossar-se de mim
como se os meus braços e pernas fossem algas
que a maré tenta arrastar para o alto mar.






23

a casa, vista do interior,
a esta hora é enorme.
os nós da madeira correm
pela parede acima.
entre os móveis altos
o chão enche-se dos restos
dos dias anteriores,
e o olhar rasteja, procurando o sentido
dos passos esquecidos.
aos pés de cada cadeira, estão os sapatos ausentes
de figuras familiares









24

as janelas, para quem vem de dentro
do suor da casa
são o lugar da aparição do verão
com os seus banhistas sanguinários
e as aves súbitas, feridas pela maresia,
anunciadoras de naufrágios.
mas também das noites serenas, em que a lua se ergue
à distância
sobre a cabeça do mareante mítico.
as janelas acesas, para quem chega
de uma longa viagem
são o prenúncio da família desde sempre reunida para
o jantar,
de um rosto de mulher desfigurado,
dos filhos irreconhecíveis.
mas também do sabor íntimo da carne
longamente repartida sob fotos de casamento,
sorrisos amarelecidos pelo decorrer das gerações,
e a porta das traseiras abrindo-se de súbito sobre a noite
- uma noite calma, com a lua pousando suavemente
sobre os cabelos da mãe.







25

as ruas estão cheias de figurantes
que circulam incessantemente
entre as placas de um cenário sem espessura.
dizem que o artista, julgando-se herói do filme
cavalga sempre em sentido contrário;
porém, desprovido de argumento,
todo o seu prazer é o da comida,
aproximação constante e constantemente adiada
das falésias do olhar.
eu prefiro vê-lo fixado numa única imagem
aquela em que ele esporeia a montada
para, no momento seguinte,
a largar impetuosamente para a frente
quando toda a estética do seu gesto
se acha ainda prenhe de sentido.








26

os meus amigos estão talvez mortos,
ou adormecidos num sono letárgico,
estátuas alinhadas num jardim barroco
fogachos lentos de granito.
mas às vezes a sua recordação cresce
ao longo das tardes,
como a luz que entra nas casas
e no fim do dia ilumina intensamente as fotos,
chapas brilhantes, espelhos,
onde só aparece o meu olhar.
é então que, solitário, o meu trabalho recomeça,
numa teimosa reconquista
dos pedaços de sombra que a noite deposita sobre a mesa.
entre as canetas, o papel, os riscos hesitantes
dos dias passados






27

quase todas as vozes que alguma vez
se ouviram junto de n6s
se silenciaram.
insensivelmente, fomos ficando
como candeeiros acesos
em grades varandas, abertas
a escuridão da planície.
olhamo-nos todo o dia
com ternura,
guardámos centenas de fotografias
que podem traçar a nossa história,
e por vezes amamo-nos com uma força antiga, a
mas sempre que adormecemos
dentro da casa
não deixo de ter esta sensação
de como a noite é vasta e funda nossa volta.
onde está a violência
dos rostos carentes?
onde param as musculosas trutas
que na ponta do nosso arpão se contorciam,
surpreendidas?
saboreamos todas as coisas
sob uma luz outonal,
conscientes da elegância do gesto,
rodeados de objectos que discretamente denunciam
as viagens, o trabalho do gosto.
mas quando passo pelas janelas e vejo as árvores,
ao entardecer,
pergunto-me se não se aproximarão da casa
um pouco todas as noites,
e quando tarde vou pelos terraços
apagar as lâmpadas,
e fico no escuro entre os insectos,
penso se eles não virão das estreias
como um eco de tantas vozes
que já por aqui passaram.







28

este verão não chegou ninguém.
apenas o som latente
dos aparelhos de ar condicionado
e a navegação das nuvens
dentro das janelas.
Lembrei me
de caminhar muitas vezes
desde o fundo da casa,
com um ruído ensurdecedor
de pássaros aprisionados
no interior do cérebro.
junto A porta aberta, a luz,
a ondulação das dunas,
uma certa dor nas têmporas crescendo
à aproximação do mar.
mas mesmo o oceano, de tão alto,
se uniu ao céu e foi l i t e ,
grande espelho de cobre, intransponível.
tantas vezes
regressei então a casa
enquanto uma voz aguda
uma canção ou grito memo
parecia perfilar longamente
o rebordo das falésias.
o tempo passou sobre os livros,
as cadeiras sentaram-se umas
em frente das outras,
as gaivotas pousaram hirtas
sobre a secretária, esquecida
do meu corpo.
e de novo, uma e outra vez,
sobre o horizonte,
os teus olhos se abriram enormes
deixando as nuvens transcorrerem
na interminável doçura
das pupilas.
a maré subiu e desceu nos sapais,
pequenas correntes de água infiltraram-se
entre as plantas negras,
as cintilantes rosadas da lama.
fiquei no meio
dos mosaicos da casa, os pés imóveis
sobre uma infinda geometria.
abri as veias do verão,
deixei a memória esvair-se
como um canto pertinaz que seguisse
sobre as dunas
as desemontradas direcções do vento.







29

nunca me encontrei
face a face
com os escritores.
é possível que alguma vez
tenha estado na sua proximidade
ao olhar o mar,
julgando encostar-me a uma coluna
ou a uma parede.
apenas percorri os litorais
em busca de um destroço,
talvez um signo da escrita.
e um dia urinei na areia quente
vendo as espirais assim desenhadas
serem lentamente desfeitas pelas ondas.
ri então com imensa vontade
enchendo a boca com flocos de maresia
enquanto, como gaivotas anunciando a noite,
chapéus de coco me iam silenciosamente rodeando.








30

entre mim e vós houve sempre
uma secretária enorme, de faces polidas,
cheia de botões e de telefones.
e do lado de .lá um rosto vago
preso por fios à gravata, ao discurso certo,
ao fato todo, à parede, aos corredores longínquos e
brilhantes.
oh homens do poder, cúmplices
da mais radical usurpação







31

naquele dia, naquele momento, o professor calou-se.
passou entre as fotografias dos seus alunos, que o fitavam.
atravessou os corredores desertos,
entre os simétricos quadros dos seus colegas.
cá fora mergulhou na bola do sol,
que o absorveu desde então inteiramente.
o seu chapéu, caído sobre o pátio,
deu longas entrevistas à imprensa.







32

por que hei-de ser sempre eu
a tomar a palavra
como se o poema fosse o lugar
de um saber acrescentado,
um ponto privilegiado de observação?
sento-me no chão, no meio de um cilindro de silêncio.
há dias
em que tem de ser assim, ver as palavras sangrarem
à nossa volta, num esforço desesperado
para serem poema.

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