segunda-feira, 16 de junho de 2008

Vivemos todos numa cultura pop


Penso que aquilo que mais um blogue deve evitar a todo o custo é a "conversa fiada" que infelizmente abunda na internet.
Um blogue é uma encenação de uma pessoa, a criação sempre inacabada de um auto-retrato. Sem complexos. Quem tem demasiado medo de se retratar é sempre um(a) tipo(a) esquisito(a): não lida bem consigo próprio(a), com esta óbvia realidade de que todos somos seres públicos, vivemos em comunidade, a olhar e a ser olhados (e sobretudo a sentirmo-nos olhados, mesmo que o não estejamos).
Nós vivemos todos imersos num banho de cultura pop. Até as foleirices nos são necessárias, quanto mais não seja para nos sentirmos em comunhão com os outros.
Por isso outra coisa a evitar é o pedantismo ridículo, os tiques aristocráticos, essas coisas.
Estamos a entrar numa cultura de massas onde até o kitsch e o foleiro podem ser giros, têm qualquer coisa, desde que não caiam no ordinário, como por exemplo o de certas canções que não têm graça nenhuma, não são brejeiras, nem pornográficas sequer, são simplesmente ruído de brutos(as) para brutos(as). É preferível uma coisa bem encenada e simples do que uma pretensão culta e oca, como é frequente.
Não há pachorra para essas atitudes a fazerem-se cultas. Mas também não podemos reduzir a vida a uma ecologia "pop". Há momentos de recolhimento, de leitura, de música mesmo, de poesia, de filosofia, de ciência mesmo, de qualquer coisa que exige distância do quotidiano, outra pose.
Mas há que não atirar isso à cara das pessoas como sinal de afronta, como lenço de lapela a estabelecer distinção novo-rica. Cada ser humano é um universo insondável, e nada nem ninguém se inclui numa árvore hierárquica de importância...
E contudo... esta mania agora de que somos todos iguais também já cansa, e muito. Iguais em direitos, pelo menos nas intenções e nas constituições, isso nem se discute, pena é que não se pratique, que haja tantas máfias a contrariar essas "boas (e generosas) intenções". Entre um ser humano e outro não vai distância de boi, dizia o Carlos Alberto Ferreira de Almeida, no seu linguajar de minhoto culto. Mas, se estamos todos irmanados na nossa humanidade, todos sabemos que há as pessoas vulgares e as pessoas fora do comum, conhecidas ou ignotas. E ser fora do comum não é só nas artes e nas letras e nas ciências e em todas as proezas que os "media" apregoam, mas em muito anonimato em que, dia a dia, pessoas decentes procuram manter uma vida decente e honesta, equilibrando o seu egoísmo e o seu altruísmo.
De entre as pessoas fora do comum, algumas praticam actos que enriquecem o acervo de obras e realizações da humanidade. E essas sempre as distinguimos, mais cedo ou mais tarde. Não é preciso atropelar ninguém.
Um blogue não é uma bíblia, nem um livro, nem um salmo, nem vem pregar qualquer boa nova. É um work in progress em que não apenas o que uma pessoa pensa, mas o que uma pessoa vive, de mais genuíno, se apresenta em processo constante de fabricação, de busca. Com todas as contradições, paradoxos, lugares-comuns, vulgaridades que uma pessoa tem no seu dia-a-dia, incluindo os mais sábios, advertidos, criadores, etc. A mais charmosa mulher do mundo e o mais notável compositor têm também de se sentar, para bem da sua saúde, num sanitário, e muito prosaicamente evacuar. Que prazer esse não é, ter um aparelho digestivo a funcionar bem!...
Somos todos pop. Nesse aspecto um certo desencantamento do mundo pode dar lugar a novos encantamentos, visto que não podemos viver deprimidos, é mortal. Os aristocratas são hoje felizmente apenas uma questão comercial, de imagem, são figuras simbólicas que até rendem dinheiro, fazem parte da mitologia das massas (e aí têm um papel difícil de substituir); mas já não podem oprimir ninguém (pelo menos na lei) pela diferença de sangue. Convenhamos que isso é uma grande coisa, que a revolução francesa e outras nos deram. E mais hão-de vir... as tensões que o mundo anuncia não deixam ninguém descansado, tanto os pobres como aqueles que procuram controlar o poder e o dinheiro.
A referida palavra "pop" (cada dia me sinto mais pop) lembra-me uma outra palavra composta, um adjectivo, "pop-up", que caracteriza aqueles livros que se abrem e adquirem três dimensões, libertando uma espécie de cenários que "escondem" no seu interior. Um blogue é isso: uma pessoa em posição "pop-up". É giro, dá gozo, uma pessoa publica-se e deixa de ter pressa de escrever tantos papers em que andava sempre a encenar-se à pressa para cenários que exigem maturação, afirmando-se avidamente. Além disso é uma forma de diálogo com desconhecidos, maravilha de comunicar sem atrito.
A avidez disseminada por todos (ou quase) é que, tal como a conversa fiada, é chata. Revela vulgaridade, arrasta-nos no chão sem beleza, nem necessidade. Como a inveja e o desejo de afirmação primária, que leva muitos a morderem sempre que podem naqueles que os ajudaram a ser o que são.
Estarei hoje - mas qual hoje, se já é amanhã? São duas e 19 da manhá de segunda, não acreditem no relógio deste blogue, que não anda certo - muito moralista, tão ao arrepio do neo-liberalismo conceptual que reina? Peço desculpa, é do sono talvez. Fico talvez mais zizekiano com o anoitecer. Fecho por hoje as cortinas.

2 comentários:

Anónimo disse...

Parabéns! Um dos melhores textos (quase epistemológico) sobre o conceito de blogue. Acho que, de facto, estamos cada vez mais pop. Na expressão musical e cultural, julgo que estamos quase ao nível dos anos 80 - que eu gosto de considerar o barroco do século XX. E por falar em barroco, aristocracias, Revolução Francesa - não posso de lançar-lhe esta farpa: o VOJ não deixa de ser um aristocrata. Nunca deixará, mesmo renunciando a tudo, pertencerá sempre «aos melhores» e deterá «sempre» o «poder» do conhecimento. Diz que «os aristocratas são hoje felizmente apenas uma questão comercial, de imagem, são figuras simbólicas que até rendem dinheiro, fazem parte da mitologia das massas (e aí têm um papel difícil de substituir); mas já não podem oprimir ninguém (pelo menos na lei) pela diferença de sangue». O sangue é hoje, simbolicamente, o que menos serve como condutor de prestígio. Basta pensar como os conceitos de micro-análise reduziram o sangue a um mero líquido-tabu, condutor de patologias e estigmas. O novo sangue é o da informação-conhecimento. E continuará sempre a haver quem o tenha azul e o use para oprimir (vid. cientistas).
Cumprimentos

Vitor Oliveira Jorge disse...

Obrigado pelo elogio (desmesurado para o pobre texto). Em grande parte concordo consigo, mas há no seu comentário matéria para nova postagem...Nunca estivemos num mundo tão paradoxal e contraditório... tenho de desenvolver isto com mais tempo.
Obrigado pois também pelo seu contributo à reflexão!