A arqueologia que me ensinaram (e que aprendi a ensinar...), a que muitas pessoas continuam a fazer, é extremamente enfadonha. Em primeiro lugar, não há condições logísticas nem financeiras para fazer uma investigação científica séria em Portugal, genericamente falando, neste domínio. Andamos na maior parte a fazer buracos, a descrever cacos e outras peças e a fazer de conta que estamos entretidos. Enough is enough.
Não quer isto dizer que um campo pelo qual lutei toda uma vida não seja imensamente fascinante, como aliás à partida qualquer outro: é-o. Mas com condições. Pregada ao Ministério da Cultura, que não tem dinheiro, e parente pobre do património, que tem sempre de acudir a coisas majestosas, a arqueologia de investigação não tem meios. Andamos à sobreposse, desde professores a tarefeiros de emergências. Isso não é nada. E agora com as licenciaturas de 3 anos de Bolonha e os mestrados caros e de acesso restrito pelo numerus clausus, a coisa vai-se tornar mais elitista e afastar os alunos do campo, ainda mais.
Por outro lado, muitas pessoas confundem a arqueologia com descobertas, com a descrição do que aconteceu no passado, com o preenchimento progressivo de um puzzle, de uma história, de uma narrativa. Santinhos, isso não tem interesse nenhum, a não ser como entretenimento. A arqueologia é ou devia ser outra coisa, acerca do presente e da intervenção no território, na sua construção. Ora, aí, ficamos com os restos, a contar cacos enquanto os outros fazem estradas, supermercados, programam e executam o chamado "desenvolvimento".
Para que me interessa os detalhes do passado se não percebo o presente nem o que está para vir? É isso que me importa, como arqueólogo e como pessoa. Assez! É preciso fazer diferente, intervir de facto, construir activamente... contribuir com a nossa experiência para nos tornarmos actores activos de uma política do território, e não contadores de cacos ou contadores de histórias.
Pessoas que tenham know how e cultura e prestígio e poder para dizer: não, ou sim, ou talvez, mas para ter a ocasião de o dizer ANTES de se fazer mais disparates.
Meu Deus, salta pelos olhos dentro.
Que sub-desenvolvimento.
2 comentários:
"Pessoas que tenham know how e cultura e prestígio e poder para dizer: não, ou sim, ou talvez, mas para ter a ocasião de dizer ANTES de se fazer mais disparates." O problema é que as pessoas que podem estão compradas, ou com honrarias ou com um cartão partidário. E nenhuma dessas trai a consciência de «classe» em detrimento do bem comum. Para mim essa é fase principal para evoluirmos. Para passarmos ao estádio seguinte.
Creio que o assunto tem mais implicações do que as que a sua mensagem pressupõe. A conjugação da política com a "herança" da psicanálise, como faz Zizek (ver postagens seguintes), para o entendimento da extrema subtileza dos jogos de poder e de docilizaçã dos indivíduos é muito importante. Recorrer a fórmulas óbvias e à denúncia desta ou daquela situação de compadrio só reforça o sistema, a sua boa consciência, a sua "inocência", como diz Zizek. A dificuldade está hoje em imaginar como se cria um outro direito, uma outra ordem, uma outra forma de legitimação. E quem é esse "se", qual é a ordem simbólica, o Grande Outro de Lacan que desejamos que nos comande. A política passa, naturalmente, pelo desejo. E é no plano do desejo que hão-de nascer novas (mesmo novas, porque a palavra novo é já fétida de tanto uso) políticas. Mas como é que um desejo que em princípio reside no indivíduo se torna social, se torna numa ordem simbólica incontestada, inconstestável, fundada na incapacidade actual de profanação, como diz Agamben? Esse é o ponto - se não vejo mal.
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