segunda-feira, 16 de junho de 2008

fundo do côa

primeiro o teu corpo era feito de água e pedra, a tua epiderme tinha a textura do xisto polido, as tuas superfícies acariciavam-se como se fossem grandes bolas no meio do rio, trabalhadas pelas incontáveis torrentes.
trouxeste as espáduas até ao rio, os caminhos deslizando pelos pés brancos, e
assim uniste humidades diferentes, e topografias, e lugares de estar e de deslizar: as encostas, as ervas desfazendo-se em suco verde, a água finalmente aquietada nos sulcos do fundo.
ao entrares na água, ao dar-se a
entrada da água em ti, o rio estremecia num arrepio.
era a geografia, era um lugar, era o meio da tarde, ou uns minutos depois, quando alguma coisa se reclina na natureza, e esta começa o seu movimento corporal para a almofada da noite.

é então que o teu corpo se levanta, apenas para ser mais um tronco e uns ramos, um arbusto potente contra o sol que já declina.
vista de baixo, não se pode dizer nada de ti, fazer nada de ti.
fica-se completamente concentrad
o na contemplação de teu movimento, do que vais fazer com o corpo nesta paisagem, coberta das gotas que trouxeste do rio, sobre a pele, dos ramos e dos odores que foste buscar às ervas para os cabelos.
mostras-te, sim, como um estranho objecto, ou animal branco: mas esse é apenas mais um espectáculo da natureza, no fundo do rio,
onde mais ninguém nos procura,
nem a estas palavras que, furtivas, saem pela torrente e deixam as grandes bolas de granito sozinhas, no meio da água, expostas ao frio e ao isolamento em que sempre estiveram, enquanto os peixes deslizam ondulantes para outro lugar onde já uma nova cena possivelmente se prepara.



voj 2008
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Fotos: Grace Ho
Fonte: http://www.graceoh.net/portfolio.html

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