O individualismo de todos (incluindo o meu) implica uma sofisticação das artes da persuasão para tentar con-vencer os outros. O que se passa actualmente nos seres humanos, submetidos a sociedades de vigilância, profundamente interiorizada, gerando novas formas de sentimentos de culpa, é que estão comprimidos (como aqueles carros de sucata que transformam em cubos de lata para irem para outros destinos) entre dois extremos: prometeram-lhes que o céu é o limite e cada um deles, em geral, e com as excepções dos raros privilegiados, só vive um inferno e um purgatório. Refugiam-se então como o bicho que se finge pedra para não ser morto pelo predador, enroscados. Um desses refúgios seria a família, mas esta também está em decomposição. Você tem razão ao falar da "neutralidade", da não-exposição, da não interacção que muitas pessoas procuram e cultivam. Mas se forem tirar-lhes uma foto, logo muitos desses "discretos" sorriem para a fotografia, compondo a imagem. A maior parte das pessoas sabe que não somos senão imagem. O que mobiliza as pessoas? O que realmente despoleta nelas sofrimento pela ausência do outro, pela ausência da palavra do outro? O que é que permitiria que elas percebessem que ainda são pouco sofisticadas na arte de serem egoístas? Porque é disso que se trata.
3 comentários:
Essa questão do egoísmo com que termina o post provavelmente seria das mais interessantes a ser explorada, porque é muito interessante a relação hoje de Ego. Sobretudo quando cruzado com a questão a visão do Homem que foge à norma, o papel do individuo face à estrutura (que em arqueologia foi desenvolvida por exemplo pelo John Barrett, na sua atenção com o individual, com o particular).
Muitas vezes vejo nesta ênfase do Ego enquanto individuo traços da escola weberiana do individualismo metodológico. Através do termo podemos encontrar a teia que liga Weber, Popper e... Hayek, o que nos dá a pista que vai dar até o Milton Friedman.
Será que o Egoísmo é verdadeiramente algo de Ego (o seu último refúgio)?
Será que alguém pode trans-ferir algo mais sobre o tema? Ou quem lê o post refugia-se num egoísmo indiferente? (e será que estou a ser egoísta quando peço aos outros que intervenham?)
Volto sempre aquela noção de poder que está no Claude Riviere: "A capacidade de A obter de B algo que lhe quer ou requer".
Estamos condenados ao ego-ismo?
Boa pergunta!
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