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sábado, 22 de janeiro de 2011

A propósito de uma workshop próxima - algumas reflexões "espontâneas", improvisadas e genéricas

- Arquitectura é o nome genérico convencional que nós ocidentais damos a um conjunto de manifestações de origem humana que alteram ou alteraram a forma - ou, se quisermos, o aspecto físico visível - anterior de um determinado espaço, seja qual for a sua dimensão.

- Obviamente que uma tal abrangência é puramente nossa e como assumidamente nossa deve permanecer, qualquer que seja a área do mundo ou a época da história sobre a qual incida o nosso interesse.

- Qualquer veleidade de interpretar seja o que for, o que implica um princípio de generalização, de redução de um certo particular ao geral, neste como noutro campo do saber, baseia-se sempre em axiomas, quer dizer, puras convenções sem prova, e portanto assenta sobre uma base de crença partilhada.

- A ciência, e neste caso a ciência da arquitectura ou a da arqueologia, são como sabemos meras convenções pragmáticas para caracterizar práticas, saberes, formações discursivas que se formaram ou ganharam novas formas na modernidade. Assentam na ideia de que é possível, apesar de todos os riscos, formular noções gerais sobre o que fazemos e o que fizeram os outros, mesmo que remotos no espaço e no tempo. Estes axiomas ou presunções são a nossa condição de existir como ocidentais.

- Portanto, a arqueologia da arquitectura – a observação das denominadas arquitecturas de um ponto de vista arqueológico – baseia-se no postulado de que é útil ao conhecimento a delimitação de uma tal realidade chamada arquitectura, e de que é interessante (isto é, é um ganho para o conhecimento) convencionar uma arqueologia da mesma.

- A arqueologia, tal como a arquitectura, têm a mesma raiz etimológica na nossa cultura ocidental: relacionam-se com a arché, no seu duplo sentido de origem, fundamento, e portanto simultaneamente causa e legalização do que existe, ou seja, naturalização, universalização, de um conjunto de realidades, supostas serem interessantes à nossa pesquisa, quer dizer, ao nosso desejo de aumento de conhecimento.

- Provinda da história e consolidada no século XIX, a arqueologia, ou o que poderíamos chamar a “pulsão arqueológica”, vive da vontade de conhecer o ausente e de o fazer presente, ou seja, de convocar um passado, de convocar o morto, por forma a voltar a dar-lhe vida, ou seja, a preencher a falha, ou falta, que se insere entre o presente e o passado, o já ocorrido e a que não podemos assistir.

- Corresponde a um desejo de totalidade, de recuperação, de redenção de uma falta que todavia sabemos ser do domínio do fantasma: a simples ideia de passado e da sua reconstituição, do conhecimento do passado realmente acontecido, é a manifestação de uma fantasia. O passado só existe na trilogia articulada de passado, presente e futuro, adentro de uma visão linear do tempo.

- Na verdade o passado é uma construção da minha mente/imaginação, tal qual como o presente ou como o futuro: são categorias de uma visão do tempo linear e envolvem uma cronologia, uma seriação, uma periodização, um faseamento, uma noção do tempo típica da civilização ocidental. Essas concepções não fariam qualquer sentido em ontologias de outra natureza.

- Assim, a história da arquitectura seria para nós uma seriação de um conjunto de objectos ou intervenções no espaço (no sentido mais amplo destes termos) ao longo de uma sequência de períodos, baseados em estilos, modos de fazer, técnicas, maneiras de abordagem de materiais, formas de relacionamento social, modos de criatividade, etc., etc.

- A arqueologia, por seu turno, tende também para esta história, ou descrição/explicação periodizada, da razão de ser (interpretação) de características físicas por nós hoje evidenciadas, ao longo de um eixo cronológico e de um eixo espacial encarados como contínuos, quer dizer, como repartíveis em unidades discretas, como mensuráveis na sua extensão e portanto subdivisíveis.

- Tecnologias de toda a sorte tem reforçado esta convicção da arqueologia e do seu objecto/objectivo, desde as técnicas de abordagem da chamada “realidade arqueológica” (escavação, por exemplo), até às técnicas de datação ou às técnicas de abordagem do espaço, ajudadas pela matematização do mundo (passagem de um mundo analógico, de qualidades, a um mundo digital, de quantidades, em última análise binário) e pelas chamadas “novas tecnologias”.

- A digitalização do mundo, ou seja, a sua in-diferenciação em termos da oposição tradicional de real (vivência sentida pelos intervenientes directos) e de virtual (simulação dessa vivência por forma a ela parecer/ser ainda mais viva do que a primeira) continua em curso, tendo evidentes repercussões na arqueologia, na nossa abordagem/entendimento da arquitectura, e de uma maneira geral (é o que pelo menos parece) em tudo quanto poderá ter sido o mundo do homem ocidental até hoje, embora esse “novo”, como todo o “novo”, esteja inscrito desde sempre na sua ontologia própria de ocidental, bem caracterizada (v. por exemplo Ph. Descola).

- Paralelamente a este processo, o pensamento filosófico não parou de se interrogar sobre qual o sentido de tudo o que existe ou acontece, como sempre fez, e outras disciplinas/ciências que interagem com a arqueologia, no processo constante de trocas que entretêm, também o fazem, no quadro de um mundo em aceleração jamais vista até hoje.

- Daqui resulta uma arqueologia a duas velocidades, pelo menos, e que esquematicamente são: a do senso comum e da produção rápida – uma arqueologia tornada profissão e tecnocratizada, rotineira, inculta, e frequentemente boçal, apartada dos debates contemporâneos e envolvida no afã de produzir/conservar/resgatar património – e uma arqueologia que tenta desesperadamente por vezes interrogar-se sobre o próprio sentido de si mesma, na linha das arqueologia erudita, universitária, de investigação, etc. Claro que esta faceta tende a ser cada vez mais restrita na sociedade da mercantilização generalizada, onde o saber deixou de ter tempo para se exercer e está transformado em informação espartilhada por projectos.

É neste quadro genérico (do meu ponto de vista, está claro) que vamos realizar a nossa workshop anglo-portuguesa nos próximos dias 28 e 29 na Faculdade de Letras do Porto. A magnitude das questões/perguntas, por um lado, e a especificidade/particularidade da experiência de cada um tornam-na (como qualquer outra reunião do mesmo tipo aliás) uma oportunidade de encontros mas também uma muito provável fonte de mal-entendidos.

Estes mal- entendidos devem-se à própria temporalidade com que os encontros são hoje encarados: rápidos, pontuais, sem prévia distribuição de textos de apoio para se poder debater sobre uma base de trabalho. São portanto tendentes a um fácil deslize para uma sucessão de performances mais ou menos conseguidas (comunicações, debates, intervenções, etc.), entre pessoas que provêm de perspectivas muito diversas, parecendo basear-se na crença de que o diverso, quando colocado em conjunto/confronto, gera por si só acréscimo de valor. Oxalá assim pudesse ser. Mas se não for, oxalá possamos recolher a lição do trauma e fazer o luto deste tipo de workshops.

Vítor Oliveira Jorge

Janeiro de 2011

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