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quarta-feira, 19 de setembro de 2012

Domesticidade






Agora que estou reformado, trabalhando no que gosto e realizando algumas (apenas algumas, é certo) tarefas domésticas, julgo que compreendo ainda melhor a satisfação íntima das antigas "donas de casa" (como foi a minha mãe), tratando exclusivamente da domesticidade, incluindo os filhos. Mau grado todas as canseiras, sacrifícios, e preocupações, essas "ocupações" estabelecem rotinas securizantes (o 
que não impede que por vezes as pessoas se rebelem contra elas, ou entediem com elas, sabendo perfeitamente quão rotineiras são), absolutamente necessárias à manutenção/prossecução/reprodução da sociedade (como ela é), e portanto inclusive a sensação de "harmonia com o mundo e com o que outros esperam de nós" que proporcionam são o álibi por excelência para a pessoa não fazer mais nada de relevante. Pois até nem tem tempo, nem pode por falta de outros meios (sobretudo financeiros, isto é. não pode comprar força de trabalho extra). Por "relevante" quereria dizer algo que, para além da esfera doméstica, contribuísse de forma mais directa/activa para o colectivo. Por isso foi uma grande oportunidade quando as mulheres passaram, sobretudo no século XX, a actuar nessa esfera colectiva. O que seria de desejar, porém, é que ocorresse o contrário das tendências que se vêem. Sobre-exploração da mulher, sobre a qual recaem a maior parte das tarefas domésticas quando não tem meios para pagar o trabalho inerente, frustração por perceber, a certa altura, que a força de vontade e o voluntarismo individual não são suficientes para conseguir os seus sonhos, que, na maior parte das pessoas hoje, como consumistas, consistem basicamente naquilo que o chamado "estado social" lhes prometeu, e que os bancos as estimularam a fazer. Ora bem, agora perceberam que o sistema bancário não é nada fiável, e que o estado social (social democracia) se tornou uma realidade histórica, uma carcaça de fóssil para expor no Museu do Capitalismo.

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