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quarta-feira, 23 de março de 2011

Con(finados)



Se nos confinamos a um campo de saber, podemos ter nele êxito e aplausos dos nossos pares. Mas um dia olhamos à nossa volta e vemos que estamos todos, nós e os nossos pares, metidos numa sala, e que há muito mais mundo lá fora. E olhamos pela primeira vez para aquele espaço como o de uma cela. Não era afinal um saber, era apenas uma questão de segurança. Era a cegueira cega, inocente, de quem se confinou.

Mas a maior parte das pessoas ainda não interiorizou isto. Implica riscos. Implica a ansiedade da interdisciplinaridade. Implica o despaisamento. Um certo cosmopolitismo. A maior parte das pessoas ocupa-se quotidianamente como forma de se auto-desculpar (inconscientemente) de nunca poder fazer o que seria mais interessante. A maior parte das pessoas ocupa-se sempre do mesmo, como quem vai por um corredor às escuras e tacteando as paredes ao seu lado. E desemboca em salas onde lá estão os pares, substitutos da segurança doméstica, para o/a certificar de que o caminho valeu a pena. A maior parte das pessoas, para não dizer quase todas, deixou atrofiar muitas das suas potencialidades de sair do corredor, de fugir aos aplausos. Vivem no auto-comprazimento. O importante é passar pelo anel de fogo que nos abre outras perspectivas. Que nos permite, mesmo chamuscados, voltar a sentir que temos pele, e vida, e energia, e autêntica criatividade. Passar pela famosa e batida imagem do deserto. Sempre com a esperança de encontrar um oásis onde o turismo, os media, a banalidade do entertainment não tenham chegado. Onde esteja o Rosto Luminoso, Apaixonado.

2 comentários:

Rafael Henriques disse...

Eu começaria por sugerir que talvez não existam lugares seguros. Nem na redoma, nem fora dela. E como animal doméstico que somos, compreendo o lugar mimado dos confortos e apaparicos, intelectuais também, ou mesmo antes de quaisquer outros.

Mas permita-me discordar, positivamente, deste seu abanão às consciências.

Diria que há um outro lugar, perigoso, que cresce no meio desse incómodo. Prende-se com o despojar que, eventualmente, advém do desvio fácil para outro lugar. Porque é mais fácil mudar que aprofundar as incertezas. Porque as solicitações nos chamam de todo o lado e pouco nos prendem à difícil tarefa de sermos unos e fiéis a uma ideia, um caminho. Falta-nos a firmeza aturada das nossas lutas. Falta-nos, nesse apelo ao risco, o risco da perseverança.

Volto, porém, ao lugar de onde saí, defendendo que nem na redoma nem fora dela estou certo de qual.

Blogat disse...

"Corra o risco"
Um abraço, Vitor