I am not

I am not
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terça-feira, 2 de novembro de 2010

algumas notas poéticas dos últimos meses...

dantes tão tarde

1

Há muitos anos

Estávamos sós

Num total descampado,

Pedi os teus lábios, o seu vermelho,

Como se convocasse

O mundo todo;

E recusaste.

Décadas depois

Envias-me um mail:

“Hoje li-te, deu-me muito prazer

Beijar-te. Lembras-te da cor?”

2

Há muitos anos

Estávamos num quarto

Abandonado,

E eu supliquei

Que me acolhesses

Porque não podia mais

Com aquela força, e dor

À minha frente.

Mas recusaste.

E décadas depois

Recebo uma mensagem:

“Quero-te agora mesmo,

Tenho os grandes lábios

Vermelhos

Consome-me o ventre

Dos descampados,

Quero que te afundes em mim

Naquela cama, pelos lençóis dentro,

Pelo colchão dentro,

Não aguento mais a maneira

Como neles nos enterrámos,

Lembras-te?”

3

De repente

Apalpo-me

E não me sinto.

Deu-me a dormência do granito.

Veio o frio, não sei.

Tudo ocorre num passado

Tão tardio.

4

Estou rodeado

De pétalas vermelhas,

Dispersas em volta.

5

Lembro-me

de cores

e forças

e dores

dantes é tão tarde

porto out. 2010

modo

É próprio do teu modo de chegar

Chegares descalça

E isso

Chega

Para tudo o que podes

Esperar de mim

porto out. 2010

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trágico-marítimo

Aproximei-me de uma estante

De dicionários e enciclopédias

E vi brotar dela, atónito

Um tsunami de explicações,

Sinónimos, metáforas,

Toda a carga em torrente

Das filologias e das etimologias

Ainda gritei estou inocente

Eu entrei só por curiosidade

Mas a força era muito grande

E acho que antes de me afogar

Ainda pude ver ao longe

A linha de horizonte da cidade

Como uma estante enorme

A sorrir para mim

Acordei já morto em praia deserta

Rodeado de palavras espalhadas

Na areia

Restos que já não esperava ver

Do lado de cá.

porto out. 2010

locais, ou apenas eu e tu

Ciclicamente

Regresso aos mesmos locais

Onde já nos encontrámos

Mas os locais já não são

O que eram

Nem nós nos lembramos um do outro

Tal como fomos

De modo que podemos estar

Sem estar, procurar sem sair daqui,

E os locais onde nos encontramos

Apenas a forma de nos despedirmos

out 2010 porto

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a propósito de uma saia que desce, ou curta homenagem a Joana Vasconcelos, dividida em 6 partes

1

Vestes-te

Para ficares

Nua

Com a verdade

De uma rua,

Com o requinte,

As cores vivas

De coisa crua.

2

Pela ponta

Da saia

Pegas no dia,

E assim

Se inicia

A nítida

Peça.

3

Seja o que for

Que actua

É quando

O horizonte

Finalmente

Cessa.

4

No ar livre

Facas novas

Cortam

A dispersão

Da grande,

Da aérea

Couve roxa

5

Há um halo

Celeste

No rosto

Surpreso

Da dupla

Lua

6

Momento

Em que o teu corpo

Cai,

Se desfaz, dispersa

E derrama

Sobre a altivez

Da alta grua.

E uma saia

Abrupta

Desce.

set. 2010 porto

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feliz

era feliz vendo os livros

pousados sobre a mesa;

os fios dos computadores,

enrolados em espiral

à espera de utilização;

o bater do relógio

pela casa toda;

o sol a dar em chapa

nas fachadas amarelas

dos prédios ao longe;

as varandas, onde nunca

vinha alguém;

o vôo rente das gaivotas

logo atrás dos vidros;

o ondular das árvores

(o tempo parecia querer mudar);

a consciência de que ainda

faltavam muitas horas

para o fim do dia;

aquele quadro, que trouxera

de um dia feliz no Sul;

mais perto o livro, o bloco,

a caneta, as mãos, o dedo

com um borrão de tinta;

o som contínuo do silêncio

bem alto nos tímpanos;

e a exclusão completa

de tudo o resto, sem horário.

assim o abraçava o tempo,

e o tempo o abraçava a ele;

e ambos eram felizes,

amorosamente

envoltos de vazio.

porto set. 2010

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questão de conhecimento

Penetrar-te, oh escuridão,

Noite, gruta, rio subterrâneo,

Vegetação adormecida

Sob a qual incide o meu projector

Hesitante;

Mistério imenso de que preciso

Como o mar precisa das rochas

Para nelas violentamente bater

E se saber mar.

porto set 2010

A imparável comoção

pouco importa falar ou escrever

para dizer por mil artifícios

aquilo que todos já sabemos ou sentimos

tampouco importa exercicio

de prestidigitação

quando da cartola já esperávamos o coelho

há os que se deixam cair das pontes

atados por uma corda;

os que se entregam às artes de cama

para tentarem sempre o não conseguido

mas poucos são os que escrevem ou falam

e isso atinge o coração como um punhal mortal.

há poucos assassinos, falta maldade.

falta o Grande Prestidigitador, aquele

que era cabeça de cartaz, todo brilhante,

e a quem à última da hora caíu um botão,

cancelando assim o Grande Concerto, e deixando-nos

apenas com os figurantes e os figurões, que entretêm

para um clímax que só a Organização sabe ter sido

definitivamente adiado

a festa sobe de tom, prolifera de efeitos.

os coelhos e as cartolas brotam de todos os lados,

são o próprio coração do ser,

espalham-se pelo mais íntimo das sensibilidades.

mas o que realmente interessava nunca mais vem.

set 2010

ecrã

Quando o ecrã do computador está em repouso

Vão sucessivamente aparecendo, por programação da máquina,

Imagens que lá pus, e que se sobrepõem aleatoriamente.

Cada uma surge como uma folha trazida pelo vento,

De um lado qualquer, a partir do negro sideral do fundo,

Como se viajasse daí até vir tapar outra; e atraindo-me

Por breves instantes... desfolhando o passado em fragmentos;

Convivem então nesse estranho encontro os rostos, as situações

Mais diferentes, as paisagens longínquas ou os objectos vulgares,

As coisas fulgurantes e as perguntas mais antigas do olhar.

E depois de súbito o ecrã apaga-se, e fica um rectângulo

De novo negro, fechado sobre si próprio, encerrando o passado

Como se este me tivesse dito adeus, e fossem precisos os dedos

Para accionar as teclas e de novo voltarem à vida as imagens

Esquecidas; uma espécie de cegueira se abate sobre mim.

O ecrã é de novo uma noite sem estrelas, nem nuvens,

Como se tudo desde o fundo do universo me tivesse abandonado.

E nesse espelho, que volta a reflectir a minha impaciência,

Só pode aparecer o meu rosto, sorriso benévolo da morte, alma

Que espera dentro da máquina o crepúsculo breve da despedida.

set 2010

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em alepo

Ouvi o respirar dos homens

Saído do cavername profundo

Dos seus pulmões

Aproximavam-se do círculo de luz

Como quem se dirige para uma batalha na noite

Vi as gazelas serem acarinhadas

Pelos leões sorridentes e tive um susto

Era noite e era muito longe daqui

Olhei para o descer das árvores

Cheias de luzes verdes, muito lentas

No seu movimento, para os pássaros

E flores pintados em volta, para a pele

Rósea das mulheres.

E comecei a girar, senti-me a rodar

Como se fosse um planeta, como

Se tivesse umas saias e em volta do texto

As palavras me viessem todas cair

Dentro de um círculo de luz maravilhoso.

Como é bom ser homem, caminhar assim

Disse o último verso a acabar a estrofe.

porto set. 2010

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demais

Mandas-me uma foto a meio da noite

E não há mais nada no negrume inteiro

Que se ilumine nos confins do universo.

Só a tua imagem e o silêncio dos aparelhos.

Só a tua imagem e os candeeiros acesos lá fora.

Só a tua imagem e alguém que podia passar na rua.

Só a tua imagem e o branco dos prédios a dormir.

Que devo pensar? Que devo decidir? Dormir

Depois de tomar os meus comprimidos?

E apagar definitivamente este dia e esta noite?

Condescender com estes ritmos familiares?

Morrer um pouco mais? Deixar-me aspirar

Para o negrume inteiro que ocupa o universo

E nele mergulhar a tua imagem até ela se apagar?

E que faço dos teus lábios, dos teus ombros?

Que te posso mandar em troca, senão o som

Desta respiração das coisas, que não me deixa dormir?

Deito-me, levanto-me, vejo a foto que me mandaste

Olho para um lado, para quem já dorme

Olho para o outro, para o universo inteiro,

Tento encontrar o meu corpo e acalmar-me

E então, vinda talvez dos abismos, do negrume imenso,

Uma lâmina afiada, negra, começa a entrar-me

Na garganta; muito lenta, muito precisa, muito nítida

Trazendo essa dor que ao menos é total, completa.

É que esta noite já me ardia demais nos olhos.

Tavira, agosto 2010

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um método possível

Os músicos iniciam hoje
A sua arte com fúria.
E cortam a tarde
Com três espadas bem erectas.

A primeira corta o veludo da túlipa
Permitindo as gotas roxas,
Totalmente diferentes do sangue.

A segunda espeta-se no tronco
Fazendo dobrar para a frente a figura,
Toda envolta
Num passo balético
Que pode ser o da morte.

A terceira traça um sulco
Nas escadarias paradas ao sol
Cortando cerce a unha medíocre,
Riscando em todos os sentidos
As faces comedidas dos seres.

Três tulipas, três facas brilhantes,
Um som grosso subindo por hoje acima
E atando lá no alto toda a síntese.

Deixando só o solo coberto de folhas secas
Para que passe Geminiani, os seus músicos,
Numa palavra, a arte pisando a vida
Com um estalido agreste, como quem ergue

Três facas fálicas, horríveis.
Ensanguentadas a roxo, estranhamente.
Agressivamente. Sem piedade.

Permitindo por toda a parte a disseminação
Que foge ao conhecimento
E enlouquece.



agosto 2010

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gasolina



Uso canecas que trouxe
De diferentes cidades
Para pôr canetas e lápis.

Como pincéis inclinados
Do estúdio do pintor
Quando este o abandona,

Gosto destas naturezas mortas.

E apago a luz sobre tudo
O que ainda mexe.

Mesmo as sílabas
Tentadoras sempre
Nos bicos de lápis, e canetas.

Apago a luz sobre o imenso plano
Em que vivi, escrevi, amassei
Tanta frase, tanta afirmação.

E ao abrir a porta de novo
Sobre a noite das cidades

Desfaço e desfaço-me
Nas sensações mais antigas

E vejo de novo as constelações.

As mulheres, os rostos, os aviões
A chegarem,

A sua gasolina forte.
Com que deito fogo ao meu passado.



junho 2010

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variação improvisada sobre um poema de Miguel Torga

recomeça sempre,
pois mesmo que o não queiras
é assim que forçosamente estás:
não houve início,
nem haverá fim, estamos sempre
a acabar e a começar, e a passar
entre o antes e o depois, nessa fresta
do presente que também foge.

e não há caminho: mas uns pés
que na sua nudez fascinam, e nos levam
a segui-los, a fugir atrás deles
para todas as praias onde vêm bater
as imagens alucinantes, as ilusões do futuro.

por isso vive sempre
descalça: e descalça entra nas estações,
cantando ou chorando,
descalça entra nos quartos recolhidos,
descalça escreve, ou pinta, ou ama.
conservando entre os dedos a areia,
o odor dos búzios, o apelo do mar livre,
a maresia e o iodo que entram
pelos corredores do verão como enxurrada.

abre-te ao futuro, abre-te ao mar,
abre-te à fresta do presente, o que foge,
segue a intuição, o desejo, a tremura
das folhas juvenis:

pois não há outra beleza
para além da juventude do mundo.

e essa beleza está em ti, nas tuas mãos,
no que fazes aqui e agora, nos pés nus
em que entrelaças os teus,
na energia de toda a praia estendida,

quando vista do teu corpo deitado.


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a origem da pergunta


conheces um seixo, um seixo rolado?
foi com ele que deus criou o mundo,
junto às águas negras, de um negro brilhante,
no mar primordial.

deus ergueu uma vez o seixo,
ergueu-o bem alto com as suas mãos.
e cintou-o, e disse: nasceu a Mulher.

e deus ergueu a Mulher, ergueu-a bem alto,
e disse: eu te fecundo, eu te preencho,
eu te insemino para que de ti saia o Homem,
todos os seres humanos.

e a mulher tornou-se redonda,
a lua branca pousou suavemente
sobre os seus cabelos, e
a Terra povoou-se.

e então deus ergueu uma vez mais o seixo
e deixou-o cair pesadamente
sobre a sua própria cabeça.

e disse: este é o meu sangue, que o solo
o beba, que o solo o absorva, que ele brote para sempre
de todo o lado,
como sangue vivo, como
água cristalina.

e sobre o céu ergueram-se dois diamantes.

deus ergueu-se então entre os cristais,
deus ergueu-se entre os diamantes,
e desapareceu então no vazio escuro entre eles.

deixou-nos aqui nesta ilha sobre as águas,
sob um céu polvilhado de cristais brilhantes e longínquos,

deixou-nos aqui rodeados de seixos muito brancos
com os olhos muito abertos,como seixos redondos,

e neles vêm, desde sempre e para sempre,
espraiar-se as ondas da Interrogação.


Março 2010

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nata e pronto

Eu não sei o que é uma pessoa
Eu estou farto dessa história
De homens e de mulheres
E de todos os entremeados
Desse enredo.

Eu procuro uma imagem,
Uma coisa que dê luz. E ofusque.
Pode ser um corpo.
Pode ser um monumento.
Pode ser uma peanha.

Eu só procuro algo
Que se ponha de frente, um alvo.
E sobre o qual eu possa disparar.
Eu quero apenas masturbar-me
De realidade,

Não de complicações. Quero fontes.
Quero ideias, quero estar em controlo
Da situação. Um modelo. Um retrato.
Um acto simples. Ver o jacto.
Subir e pronto.

Uma palavra que dê tacto
À ponta púrpura que me dilata.
Eu quero encher o chão de nata.

espectros; monumentos


Tenho passado por muitas cidades
E por muitas pessoas nas ruas,

E essas pessoas parecem-me mortos
Em movimento, porque são enigmas;

E porque não sabem os pensamentos
Que transporto, e as emoções, são estranhos,

São espectros. Tenho passado por muitas pontes,
e monumentos, e multidões correndo,

e não sei o que pensam, ou sentem,
que histórias e feridas e ânsias transportam.

É este movimento incessante que tudo irrealiza
E cada dia me afasta mais de mim,

Que cada dia me faz ver mais as pessoas ao longe,
E os monumentos ao perto, todos como enigma.

Todos como inverno, azul e frio, cheio de suor
Por dentro do corpo, da azáfama de correr.

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explosão: implosão

A mulher distende-se.
Afasta cada um dos seus membros
Para o mais longe possível do centro.

Rompe a pele, espalha os órgãos.
A atmosfera da mulher é assim
Rarefeita, um éter em que levitam
Partes ligadas por linhas, ligas, elásticos.

Sobre o grande espelho
Do antigo guarda-fato
A mulher projecta um eixo central
De onde partem radículas em todas
As direcções.

E os globos iluminados
Assistem a esta revolução secreta
Sem saberem que, através das fendas,
Para dentro de si,

A mulher projecta também
Figuras geométricas tensas,
Radículas, fluxos instantâneos
Que se dirigem às suas constelações
Interiores.

Não se descobriu ainda a física
Que descreva isto, que reduza a fórmulas
Tamanha força, o enigma

Da floração dos pêlos,
A astronomia destes astros, destes sapatos
De salto alto, bicudo, metálico,
Furando constantemente os lençóis iniciais.

Sobre o firmamento do útero
Giram luas e ondulam oceanos
Desde sempre à procura da resposta,
Do eixo em que a razão quer encaixar
Esta explosão ou implosão que é a mulher.

sequência pastoril


1

esse teu movimento
de camponesa despida

trazendo-me os lábios e os seios
a sua cor vermelha
como se fosse
uma colheita de maçãs
luzidias

esse à-vontade
com que te aproximas nua,
com o sol ruivo
a desdobrar-se em fios, em
pequenos novelos,
como uma decoração
entre as pernas

esse teu ar atrevido
de quem vai proceder
à coisa mais natural deste mundo
















2

apresentas-te como
um ninfa, uma estátua serena,
com um pé nu à frente

e toda tu atrás, resoluta e
natural como uma miúda
iniciando um jogo

e sorris abertamente
como uma estação
que se abre, fulva,

como se o que se vai passar
fizesse parte dos prados
e laranjeiras, e hortos

caminhas para mim
e sideras-me totalmente

esse modo de cruzares os braços
para erguer a blusa
essa forma de te destapares sorrindo














3


lanças-me a língua
ao sexo
como se fosse a primeira vez


e uma romã, ou framboesa
fosse o sabor
por que o teu palato aspira

com curiosidade


lanças-me esse olhar
de confirmação

enquanto me contorço
e da janela entrevejo
o estalido das romãs
a abrir















4


ofereces-te agora
de costas
com os cabelos descendo
quase até às nádegas


agarro aí o sol do poente
os silvos dos pássaros

e cheiro pela primeira vez
todo o teu corpo,

a pele, os seus
pequenos pêlos fulvos

sinto
a modulação das colinas
o modo como a boca
desce para os vales

a água

o estremecer
de músculos









5

dobro-te toda

os calcanhares rosados
pequenos sinais nas ancas

os joelhos contra os seios

aperto-te
quase te desfaço

com se te quisesse reduzir
a um passarinho
que pudesse engolir

mas tu logo
com um gemido
te desdobras de novo

e pairas sobre mim,
dominas-me o ventre
trincas-me de novo

e um pardal foge da janela













6


e nestas coisas andamos
enquanto pelo quadrado
da porta

as luas e os sóis se sucedem

como se a nudez
nos imunizasse do tempo
e dos intrusos


e os próprios relógios
nos olhassem com o respeito
de não interromper


ao longe, sobre
um dos braços do maple
o teu soutien

e sobre outro a camisa
interior

ganham eternidade










7

é inevitável
o odor das ovelhas
e o do leite

que escorre


a paragem dos copos
as gargalhadas

a minha cabeça passando tardes
sobre o teu rabo

ouvindo-te
o fluxo do sangue
as pulsações

e os movimentos súbitos
que mudam
e trazem de novo os lábios

uma fulva humidade

uma paz imensa











8

viro-te sobre a cama
como se fosse ordenhar-te

penetro-te por detrás, fundo,
num súbito arremedo

e os lençóis ondulam
em luzes e sombras

como a superfície da areia
quando a água recua

viras a cabeça
para me interpretares

e vês as narinas dilatadas

a captar os odores todos
de dentro e de fora

o teu balido como ovelha













9


cavalgas-me
e em torno dos mamilos
giram as pequenas

framboesas

macias

enquanto a expressão
se te altera

está um cavalo a espreitar
de olhos muito abertos
silencioso

os êmbolos trabalham
com a lentidão e segurança
dos moinhos de água

as tuas duas nádegas
abrem-se ao cavalo
às mãos transtornadas












10



qualquer coisa abre
irrompe

é a fonte que dá
de beber aos caules

é a seiva a transcorrer
nos vasos verdes,
transparentes

são os olhos das ovelhas
muito abertos

é a lã, o seu odor,
os pássaros a subirem-me
pelo sexo

é o quarto todo
que circula em torno

são os sulcos rasgados
por onde escorre, serena,

a conclusão





25.1.10

florestal, intenso


Se os olhos se fecham

Ao mesmo tempo

Que os lábios se apartem:


Ao máximo;






Se esse movimento coincide

Com o escurecer dos troncos,

E a floresta engrossa - e se abre:


Ao máximo;






E se a floresta parte

A toda a velocidade para cima -

E ao mesmo tempo se desdobra,

Se vira em todas as direcções,


Ao máximo;






E se a rotação das pernas

Atinge os êmbolos eléctricos,

Os motores das violas nos músculos,

Fazendo ondular o ruído dos lençóis:


Ao máximo;






E se então um fio negro se atravessa,

E liga, faz contacto no fundo para além do fundo,

Cola mais o que já parece estar colado,


Ao máximo;






E se um grito pode ainda evocar

Esta explosão, este assassínio,

Esta insistência, essa violência

Máxima;






Estraçalhar com fúria todo o escrito

Todo o dito, todo o ansiado,

Numa agonia prolongada


Ao máximo.






Quase coincidência.

Quase perfeito

Ajustamento,





Que volta sempre em onda,

Numa nova tentativa,


Arrastando energia, a cor negra

Em atrito e furor;






Se os troncos entram suados

Pela floresta dentro, e a sua humidade

Estraçalha, rompe ao máximo,

Espalhando seios em todos os sentidos,






E se ouve

A coincidência do grito,

A intenção das gargantas

Viradas para cima,

A direcção das luzes voltaicas

Saindo em rompante.






Para quando, diz-me,

verso seguinte,






Esse quase-tudo

Levado ao máximo,






Esse apaziguamento

Dos corpos derrotados pela luz,

pela sua própria corrente,





E essas gotas de sauna

Pingando lentamente






Na floresta negra



toda



tombada.





dez. 2009 porto

tremura

para giorgio agamben




Um corpo que se apresenta em pijama,

Uma mão para cada lado estendida na vertical,

Não aparece como nu, como a aparição

Absoluta.




Mas ocorre num limiar:

Entre a sala e a câmara de dormir,

Entre o calçado e o descalço,

Entre a realidade e o sonho.




Um corpo que se apresenta em pijama

Apresenta-se pois semi-nu. Vertical,

Vai recostar-se, expor-se às sombras

Que habitam a noite da casa:

As mãos caídas para se entregarem ao sono.




Um corpo assim não pode ter rosto.

O rosto, lugar da exposição da nudez,

Não pode desdobrar a semi-nudez do corpo.




Sim, para que a sugestão de entre dois momentos

Passe, para que o corpo possa ainda

Salvar-se como aparição, ele precisa

De ter já a cabeça sobre a bandeja da sala.




E expor-se degolado. Em pijama que o segura.

Em mãos que o emolduram, deitadas.




Assim vai em toda a sua formosura

E insegurança. Em toda a sua mais subtil

Tremura.



porto 25 dez. 2009

fora d' horas


do outro lado do atlântico
ainda é dia, enquanto aqui
a noite já se desdobra
sobre si mesma
há muito

em colchas e colchas,
todas dobradas
como ondas grenás, paradas
e com sombras entre cada uma

(a cama repousa sozinha
noutra sala, uma cama que ocupa
a sala toda)

estamos aqui há horas no messenger
em frases sucessivas, ondas ou dobras
de uma colcha que se vai estendendo
sobre o atlântico

e nela de um lado é dia,
e do outro lado é noite,
e acontece assim
uma espécie de cegueira

(enquanto noutra sala
o vulto dorme
sobre a colcha
entre as dobras,

e daqui até lá
vai todo o meu espaço
e todo o meu tempo
já vividos)

então acendem-se
lâmpadas
muito fortes,
que queimam
as mãos sobre as teclas;

e vem violenta a frase,
como onda,
como dobra gigante
sobre todo o planeta,

quando o atlântico todo ondula
sob o apelo terrível
que se dobra
vezes e vezes
sobre si,
dentro do escuro
da garganta

"pára,
tenho um incêndio
no ventre,
tenho o ventre
em carne viva,
estremeço,

e é
insuportavelmente
delicioso":

sobre o atlântico.
a colcha enorme.
estendida, em extensão.

a cama a dormir alta noite.
as ondas, as dobras, as vagas
grenás.
o som do Morse.

as teclas todas fundidas,
colando a ponta dos dedos.
as mãos paralisadas.

este som dos tímpanos.
este ruído inaudível das colchas
a esticarem-se

e daqui até lá
todo o tempo

até à dobra
da minha morte

(sobre a cama, noutra sala,
em cada vértice,
um círio aceso,
para sempre,



para sempre)






dez. 2009 porto

pintado de fresco




naquela capela

onde os corpos

se inundaram




onde ao lado do tempo

tudo se embebeu

de humidade dourada




num ardor

gritado para dentro

das imagens sacras




nada denunciou

a urgência vertiginosa

do jorro




nem os claustros

se alteraram

nas suas sombras




nem sob as portas

cerradas

algumas linhas

de líquidos

extravasaram

ou traíram

o momento da ascensão

dos cálices

o rubor que revivesceu

as maçãs do rosto

dos ícones




tudo cheirava

a tinta nova!





dez. 2009


chão, mesa, escadas...



A minha casa foi tomada de assalto
Esta manhã
Pelo começo de mais
Um dia

Vinham uma série de sinais
Encapuçados
Deixando cair pelas escadas
Ferramentas e caixas

E nessa precipitação
Atropelaram-se as horas
Umas nas outras
E saíram-me dos bolsos

Bilhetes de filmes antigos
Lenços de papel de cafés de aeroporto;

E enquanto tentava pôr
Tudo isso em ordem
Refulgiram de novo as árvores ao fundo;

E o dia já acabava; e saíam
Os signos encapuçados, rindo muito,
Deixando cair chaves de fendas,
Prometendo voltar depois da noite...

Entretanto, toda a tarde,
A mesa da cozinha
Terá emanado uma estranha luz;

E sobre ela tu estarias sentada,
Nua três vezes sobre a tua nudez.

E essa refulgência, indecoro,
Assalto de pernas traçadas,
E nádegas, e lábios experientes,
E sinais que de toda a parte trouxeste

Estavam ali parados, esperando,
Em assédio subtil, aparição,

De que só fui a tempo de recolher
Um vestígio tombado.

A tua camisa camisa de noite
Totalmente despida, e entregue
Na sua nudez.

Então sobre o tampo da mesa tentei aspirar
Os sabores de tão flagrante
(Des)encontro, e o meu jantar
Foram os sinais que a tua pele ali deixou.


marcha fúnebre, molto lento maestoso

Andamento 1



Rodo

Em torno

Do teu centro,

Do teu

Umbigo



E o meu trajecto

Hesitante

Deixa marcas



Que caem

Lentas

Ao longo do tempo

No teu corpo



E sobem

Levitam

Descem



Com os gumes

Da escrita

Afiados, levitando

Lentamente;



Escrever,

Escrever-te!



E à medida

Que te marcam


Inscrevem a noite

Dos signos,


Acendem

O seu brilho bruxuleante

De estrelas.



------



Andamento 2




Tão lentamente



Cai cada verso



Sobre a brancura



Da página



E de tal modo ascende

De novo

Deixando as marcas

De quem procurou;



Patas de ave

Que rodou

Perversa

Por aqui



E depois caminhou

Para o fundo

Do texto



Lá onde

Uma porta se fechou

Definitivamente



Sobre a sua máscara



Sobre a noite.



Deixando as pernas

Rabiscadas;



Entregues ao esporão

Da expectativa





nov. 09

arte(s) do verão

Toda a arte do verão se debruçar

Sonolento

Sobre o resto do ano


Está aqui


O mesmo movimento

Das árvores inclinadas

Pelo peso do vento parado


Das forças que atravessam

E dilatam as polpas,

Espalhando os pólenes


Está aqui


Atravessando os lábios

De carumas, de maresias

Que vêm do interior


E picando a vista

Com alfinetes de luz

Que circulam pelo corpo


Sob os pinhais do desejo

Reclinados amorosamente

Sobre o resto do ano


Aspirando-se de longe

Um certo mar, o teu marulhar

Íntimo, interior, tão parado


Na perfeição do rosto

Completa doação, espera

Sublime da visitação


Do indizível, da bruma que paira

Acima da luz nítida do movimento

Que sobre ti se debruça


Sobre os teus lábios como sobre

O resto do ano

Sobre os teus lábios como as agulhas

Do pinhal


Sobre o incêndio de uma estação

Inesperadamente recostada sobre

Todas as outras


E o marulhar da ternura ao longe

Como vaga, como algo que caminha

Sobre todas as toalhas do chão


Estendidas sobre e sob

O enigma deste encontro

Entre a retina da foto e o teu rosto


Este morticínio que a fotografia

Cruelmente faz à doação dos lábios


Este formigueiro de agulhas

Em tudo o que se reclina sobre

A eternidade, e exige com veemência


O presente. O que está aqui.


As agulhas do verão descendo sobre os lábios.
Com uma lentidão parada
Com uma ternura excessiva, vampírica

Como se uma grande capa verde descesse
Ao longo de todo o verão
Querendo beber o vermelho dos teus lábios

Reclinadamente

Até à última gota

Até ao resto das estações.


nov. 2009 porto




Onde a noite.
Onde a jovem.
Com o sexo rodeado de pétalas vermelhas.
Com as virilhas cheias de lantejoulas.


A jovem,

já.


Todo o corpo do carro o exige,
Todo o tempo se projecta em frente,
E os tubos, e os orgãos, e as rodas, e a música,


Já.

A mais absoluta desvergonha.
O mais total carinho, não de palavras:
Mas o acto simples, simples, desdobrado
No silêncio eterno e impiedoso.


Despido de lirismo, nu de literatura.



São as batidas do coração
Nas baterias da noite:


já!



A jovem do sexo completamente forrado
De veludo, exalando um odor a incenso,
De rosto completamente coberto por camélias,
De sexo exposto e belo.



De boca debruçada amorosamente
Sobre este sexo seguro no ar, todo um calor envolvendo
A púrpura inchada, a única força que resiste
No meio da noite, entre os lampiões.


A última beleza que resta.
A única noite que há.


A única jovem, a jovem única, a jovem
Já,


Dando totalmente sua ternura,
Não de bejinhos e carinhos e outros inhos
que poluem a cidade,

Mas do acto carnal, maravilhosamente
Desbragado e saboroso.

O sexo rodeado de corações de veludo,
E o coração rodeado de sexos de pétalas,


E esta urgência
Por ruas íngremes


A agonia, a ternura da agonia
Para morrer já
Com a boca da jovem abraçando a púrpura
Da cabeça do sexo altivo, feliz, em júbilo,



Essa cumplicidade jovem e simples.

No meio da noite,

Já.



Já.


Esperma, esperma jovem e grosso e feliz
A descer para as águas negras e
Já grossas e velhas do Douro,


Aqui. Agora, Já.



out. 2009 porto



de través



Enquanto caminho, desejoso de chegar
Ao meu objectivo, vencendo, com a força das pernas,
De todo o corpo, este atrito da atmosfera que
Atravesso –

Ouvindo o som que os meus pés calçados
Em botas grossas fazem nos grãos da areia
Das áleas, o som interior do corpo trabalhando
Como o da casa de máquinas de um navio –

Enquanto atravesso assim a noite entre o esperançado
E o indeciso, nesta permanente fluidez de sensações
Que me percorre, e vejo as árvores penderem
Numa certa direcção, como se quisessem
Também caminhar –

Avanço, parece-me que se aproxima o meu objectivo,
E que aquilo que foi o mundo em meu redor
Vai escapando para trás
E arredondando-se, e abrindo-se, à minha frente –

Sinto-me imerso na noite como se esta fosse uma tinta,
Uma onda de tinta enorme que tivesse descido
E me envolvesse, dificultando o que mais gosto,
Ver os contornos nítidos, recortados até fenderem a vista,
Dos objectos –

Enquanto caminho assim triturando os grãos de areia
Por fora, e triturando, dentro, os meus órgãos que nunca vejo -

Nesta pressa de chegar, nesta antecipação de tanta coisa,
Que nunca chega a aparecer como esperada –

Enquanto caminho do nada para o nada,
Ou do tudo para o tudo, neste sem-sentido
Pleno de razões, que para mim próprio repito -

E fotografo, com detalhe e precisão, as cores, os ramos, os troncos,
Coisas a que ninguém liga agora neste jardim anoitecido
Onde só os lampiões acesos parecem marcar, aqui,
E mais além, a vibração eléctrica de um peito humano -

Atravesso a própria devastação, como se atravessasse
Um filme que já vi, e sem qualquer esperança de encontrar
Quem quer que seja, como se habitasse um jardim de bancos e
Janelas iluminadas ao longe, triturando pouco a pouco,
No início da noite, mais uma vez e naturalmente, a minha morte -

Com um passo apressado, como se fosse ao encontro
Do amor, eu, o desencantado eternamente encantado,
Por esse próprio movimento vou, esses sons, pelos jardins abandonados,
Em direcção a destinos inventados, onde já chegou toda a gente -

Antes de mim, e a multidão vestida, arranjada, se acumula
Como se estivesse tudo reunido em torno de algo crucial,
Como se, tal como as árvores inclinadas -

Tudo se voltasse ansiosamente para o acontecimento,
Numa espécie de excitação que lá fora a noite não deixava adivinhar.

Piso o espanto, desço as escadas do espanto, entro nos átrios
Iluminados pelo espanto, as caras lívidas dos que vieram aqui
Passam para trás de mim, para o meu passado, enquanto o mundo
Se arredonda à minha volta, como se eu estivesse a filmar
O meu próprio movimento -

Nesta cinematografia atravessada de azul escuro e
Reflexos de través.



porto out. 2009

sangue

Uma cabeça emerge.

As polpas refulgem.

O começo é dourado.

Cheio de laivos de sangue
Espalhando-se sobre as polpas.

Envolvido por lábios encarniçados
Em não deixarem sair
O futuro, o que tem de sair

Para que o absurdo mais absurdo
Recomeça.

O devir. Como um caroço
Duro de roer.

Todo apertado pelo desejo
Entre os lábios que já foram sangue
E agora são de novo sangue.

pêssego



O pêssego no meio do prato. Com a sua pelagem muito fina, que é afinal a sua epiderme nua. Toca-lhe a luz. Ao longo do dia. Pode avistar-se de longe, na casa, sobre a mesa da cozinha, sobre a mesa da sala, cada vez mais longe, cada vez mais perto. A sua promessa é a polpa, a carne que se contrai e distende entre o caroço duro, desejoso de se concentrar, e a pele nua, desejosa de explodir para fora de si mesma. O pêssego pode concentrar todas as expectativas da casa, de alguém que o pôs no meio de um prato com faca ao lado, da boca, ávida da polpa, que imagina que é para ela que ele ali está, que ele ali foi posto. Tudo converge e tudo diverge em fluxo continuo até à chegada do pintor, que faz da cena uma natureza morta. E aí, o pêssego, já antes tirado da árvore, falece pela segunda vez, e os pêlos crescem nele, invadem o prato, estendem-se sobre a mesa, irradiam na cozinha ou na sala, conforme, e, então sim, a memória surpreende-se pela sua extraordinária capacidade de retenção, pela sua não menos extraordinária capacidade de transfiguração. O pêssego está de novo no meio do prato, intacto, com o seu pêlo curto e luzente, com a sua pele sensual, na cozinha, ou na sala – e também na tela do pintor, que sorri para ele e diz para si mesmo: hoje o pêssego saíu-me bem. E senta-se em frente da obra a ver como a luz, ao longo do tempo, a vai transformando. É neste sistema de transformações que reside algum mistério, a havê-lo.


Exílio


Deixaram-te umas sílabas sobre o peito, e eu agora tento juntá-las sem o tocar, com a delicadeza do recém-chegado que conserva o chapéu na mão, que ainda não pousou a mala. Olho-te. Inundada pela claridade transcendente na distância. Sim, o teu peito nu, o teu peito intocado por mim, todo traçado de sílabas suaves, como se fossem fragmentos de sentido que eu tento compor para chegar, para acabar finalmente por chegar. São vestígios de beijos de outrora, pistas de outras bocas que por aqui passaram, e me fazem hesitar. Há uma depredação na tua nudez, parece-me, mas isso era de esperar, todos nós somos terra retalhada por inúmeros traços, e sinais, e feridas, e alvoroços. Às vezes risos, às vezes exaltações que elevam o peito, que trazem os teus seios acima, magníficos. E no entanto não os toco, como se viesse de um exílio, como se não soubesse sequer o teu nome, como se tivesse medo de te acordar da tua claridade assombrosa, assombrada. Não sei se poderia alguma vez habitar aqui, habitar-te, se me deixarias puxar pelo que ainda te cobre, e ver as sílabas todas. As sílabas vermelhas, o seu odor vindo de dentro. Transportá-las para dentro da boca, compor palavras novas, erguer um tecto nesta planície, chegar finalmente aqui por uma vez. E depois dizer-te parabéns, sem sequer saber se vai haver festa, se virão pessoas, se me sentirei a mais entre tantas bocas ávidas de álcool, do desejo de te marcarem de novas sílabas, de te deixarem palavras escritas sobre o ventre, que me excluem. Não sei. Exilado estou perante um conjunto de sinais. Preso me encontro na minha profunda inexperiência. Sou um predador também, sim, mas rodeado por gaivotas que se podem tornar agressivas nos seus bicos recurvados. Recuo. Pouco a pouco faz-se sombra sobre ti, e os teus seios adormecem em tons que cada vez mais se diluem no negrume. E a minha presença esvai-se também no branco que moldura a cena.


Out. 2009


diluição


Parto de uma luz perto, de um candeeiro mesmo ao pé de mim. Encontro-me na janela, prestes a levantar vôo: quereria, quero (ou aquilo que escrevo quere-o por mim) chegar às árvores mais perto. Mas os ventos subitamente fortes do Outono arrastam-me para as nuvens, e uma espécie de dança começa. Uma dança inquietante, lenta, um levitar estranho porque não sei onde me leva e se (ou quando) poderei cair daqui. Lá em baixo vejo aquela luz cada vez mais a afastar-se. Não sinto frio nem medo, não tenho talvez tempo para isso. Lembro-me daqueles quadros enormes de outrora onde figuras mitológicas se alçavam entre brumas, nevoeiros, paisagens celestes, sem nunca perderem a compostura das túnicas, sublimes na sua imunidade quase nua aos elementos. Viajo para sul. Vejo lá em baixo a costa de Portugal, onde o mar vem bater com toda a força e o vento arrasta tudo para o estado de vultos e de escombros. Sempre Portugal foi isso, uma praia fustigada, de onde era preciso partir, uma tragédia que o melhor é enfrentar com a serenidade dos deuses celestes. Perco a consciência. Tenho agora de novo uma lâmpada ao pé de mim. Há uma lareira ao fundo crepitando, estou envolto num cobertor muito quente e fofo, há um chá (asiático?) que me chega aos lábios e escorre por mim dentro, uma prateleira com livros, uma lapiseira com umas aparas caídas no chão, e sinto que algo aqui há muito tempo me esperava para começar, embora não saiba bem o quê. Isto é o interior de qualquer coisa que dá para muitos interiores. Isto é Portugal dentro, muito dentro de si. Aqui podia ser a minha casa. Vejo uma cama desfeita, toda revolta em dobras e redobras de lençóis altos, como se um céu de nuvens nela assentasse. E nesses flocos me distendo, sentindo-me (ou será o correr da narrativa que me ajuda?) cada vez mais seguro de mim. Não quero mais ter medo, abandono-me. Parece que voltamos a subir para longe, longe, tão longe quanto a imaginação de uma lâmpada acesa permite. Digo “voltamos” porque te encontro abraçada a mim (diria confundida comigo, perdi a noção de onde começo e acabo), e com todo o aspecto de teres entrado agora neste rodopio lento, espantosamente lento e silencioso, como se estivesse pintado num quadro antigo: e encontro os teus olhos, dizendo – perdi um botão do pijama – e ouço-me a responder-te – não te preocupes, não vais precisar assim tanto dele. Os teus olhos, por onde tu começas. Os teus olhos diluem-me. Quereria diluir-me assim para sempre, viajar em flocos, em castelos de natas batidas como nuvens, fluir em batalhas e aventuras fantásticas contigo, perder a consciência sobre florestas negras de nevoeiro e sombras. Deixar cair os botões todos que me cosiam ao mundo de todos os dias. E um dia aparecer acima das nuvens, como um personagem jovem, como um jovem alexandrino, e poder caminhar para ti dentro de um quadro onde tu me estendias o braço sobre o mármore, à beira do mar pousado no seu azul horizontal, numa pose pré-rafaelita, com som de flautas.

para os meus botões



Procurei na tua camisa cada botão: mas tinham todos desaparecido para a linha do horizonte, onde se dispunham na horizontal, marcando o espaço que devíamos olhar. Com um botão em cada vista, dirigi-me a ti, vi-te em desalinho, rodando, rodando, rodando, em piruetas, deixando partir botões em todas as direcções: botões dos mamilos, botões das flores, botões da longa camisa inútil, deitada como um fim de tarde sobre o soalho. Tentei conhecer as tuas mãos, tactear os botões que restavam de ti, accionar-te em cada um deles, chamar-te a atenção. E um dia sintonizei-te no meio de um imenso deserto, rodeada de pessoas e plantas até ao horizonte. Pessoas cobertas de botões. Plantas que floresciam em botão. Nesse dia pude finalmente chegar até ti e de ti partir, à procura de uma camisa percorrida por artérias vermelhas que te viessem a aquecer num passado ou futuro indeterminado.

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paragem



Àqueles a quem foi cometida a tarefa
De decifrar o enigma do centro das casas,
A aparição no centro, o corpo pleno,
E o olhar:

Parai nesta suspensão, nesta descida do tecto,
Nesta subida do chão: ruído de tábuas no tempo,
Longe: um comboio deve ter atravessado a noite,
Ou o crepúsculo, ou a manhã: tanto faz, foi longe.

Parai neste corpo. Neste centro com lábios, e ombros,
E mãos dispostas de ambos os lados, enquanto
As madeiras estalam, os bichos invisíveis das madeiras
Se alimentam. Mas os lábios, mas o rosto, mas a presença
Impõe-se, como uma imperatriz: no centro, na casa,
Estirada de alto a baixo do texto. E eu aguardo.

Prolongo o enigma das alças, da roupa interior,
Do frémito que a presença enuncia, e no entanto
Não diz. Apenas vem ao centro, desce e sobe, entre
As paredes perenes do cubo, este enigma cinzento
E melancólico. Um comboio atravessa-se ao longe,
Cinde a consciência como um fluxo de sangue,
Como uma linha recta. Mas o corpo nada diz, apresenta-se.

E todo o enigma, a sua extraordinária presença,
Se vai esgueirando de verso para verso, entre os versos,
Entre as sílabas, até se prender na língua e a língua
Correr ao longe para o comboio, à procura de uns lábios,
De alguém que já aqui esteve no passado, e agora se renova

Entre estas quatro paredes, assim de chofre no algodão
Das saias, na cintura das alças, no silêncio da roupa
Interior. Foi há muitos anos, incontáveis anos, tantos
Quantas as pessoas que circularam no comboio, e partiram
Para sempre na calada da noite, ou do crepúsculo, ou da manhã,

E agora aqui regressam, na presença do corpo, na sacralidade
Do centro, na perfeição da simetria, na apresentação obstinada
Do enigma, do supremo enigma de um tu em saias e ligas,
Em mãos depostas, em braços totalmente nus,

Reflectindo o eco longínquo do oferecimento, no modo como
Os ombros se ajustam à aproximação das mãos do verso,
Nessa insuspeita, assustadora harmonia. Cheira este odor
De hortelã-pimenta: são todos os fantasmas da casa que voltam,
Que me rodeiam, amáveis, na tua figura, pedindo tudo e nada.

Bebo um chá quente e contemplo-te, oh aparição perfeita,
Completa, disponível, formidável obra de amor fotográfico.

Um comboio atravessa ao longe o sulco do sangue. Lembras-te?
Fazia uma cruz, uma cruz sobre o território, e essa cruz
Reproduzia-se aqui dentro, do lado de cá da cal, nas paredes
E nos nossos corpos, marcava indelevelmente o centro.

Isso. Exactamente aí.
Quando a mão do poema te atravessava por debaixo nas saias,
E saía pela cabeça, esplendorosa, digna da soberania dos lábios:

Era (é) uma paragem:
Nunca daí saímos.


Out. 2009


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Vítor Oliveira Jorge

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