I am not

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domingo, 26 de outubro de 2014

agitações










Lembras-te das ervas verdes, revoltas, se alçarem do chão como cabeleiras intermináveis, em agitação alta? O seu fervor vinha-lhes certamente das raízes, do interior vermelho da terra, do seu húmus, do seu suco de vida e morte. Era assim o nosso corpo unido: um mar, ou pelo menos uma onda ansiosa, que estendia os seus inúmeros braços pela platitude do momento, querendo alcançar algo mais além. Mas até as mais altas vagas acabam um dia por repousar, numa fotografia, numa pintura, num fim de dia: e as ervas aquietam-se, como os corpos param para que as gotas possam escorrer deles, reconfortadas. Sabemos que o ciclo recomeçará, não se sabe quando nem como, é esta força das cores contrastantes, esta vontade dos pés baterem no chão levantando pó, esta ansiedade que as línguas sentem pelo sumo do instante seguinte. Há momentos em que os ouros fulgem; em que as geometrias se cruzam para formarem jogos infinitos; em que as matemáticas ditam o jogo harmónico e desarmónico dos gestos, dos bailados, das vozes, dos corpos, dos sexos. Em que o centro vibra louco, em que a periferia desenha círculos de pedra, em que os vasos incham como ventres, uma imagem tremenda de excesso. E outros em que os próprios deuses pedem aos homens um pouco de paz; e tremem de frio e medo ante os campos de inverno para que os tempos os conduzem. Já tanta coisa ocorreu; é ainda possível um mar de ervas intermináveis, incrivelmente altas, se alçar de modo a tapar o céu, a satisfazer-nos apenas com a sua seiva, a sua cor nitidamente verde? Cobre o meu sexo com a tua mão, que eu assim farei com a minha no teu; acariciemo-nos sem pressa. E talvez algo aconteça de novo, a inverosimilhança deste alvoroço sem sentido, tão bom. A entrada ficará sempre entreaberta para que a Felicidade, cheia de plumas, e com o seu bico vermelho, venha pavonear-se na atmosfera sobre nós, e os anões músicos possam tocar os seus instrumentos italianos com a fúria que se lhes pede.


vou outubro 2014
para a Flor

acima: pintura de marx ernst

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