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quinta-feira, 10 de outubro de 2013

Distância, verdade, saber - algumas notas apressadas


Distância, verdade, saber - algumas notas apressadas


A entrar, iria deixar aqui este pensamento de S. Zizek ( Menos que Nada, São Paulo, Boitempo, 2013, p. 245): " É a vida sem teoria que é cinza, realidade estúpida e rasa; somente a teoria a torna "verde", realmente viva, trazendo à tona a complexa rede subjacente de mediações e tensões responsáveis pelo seu movimento."
Às vezes penso na experiência que se teve, por exemplo, no estudo de sítios da nossa Pré-história recente (assim se convencionou chamar-se-lhes) como os do concelho de Vila Nova de Foz Côa - Castelo Velho de Freixo de Numão e Castanheiro do Vento de Horta do Douro - a partir de 1989 até hoje, caldeada com leituras de temas aparentemente muito diferentes, e apetece-me voltar a reflectir sobre essa experiência e o que ela nos continua a ensinar. 
O desfoque (ou será antes enfoque?) da distânciapermite por vezes ver coisas outras, ocultando as que até então tinham dominadoa atenção do olhar. Contingência de todo o saber humano, mesmo daquele que sequer mais alicerçado em modos objectivos e protocolizados. Se, por outro lado,cada estudioso escolhe uma perspectiva, que acaba por ter muito a ver com a suaprópria evolução pessoal como ser humano, também é verdade que quando umtrabalho se processa em equipa as ideias são partilhadas de tal modo que apropriedade (invenção) desta ou daquela se esbatem. E ainda bem. Qualquer queseja a forma de “assinatura” (individual ou colectiva) de um livro ou de umartigo, o que é importante é que ao observador atento (do futuro?) não escapeuma ideia fundamental: nas suas múltiplas diferenças, houve uma equipa ouequipas que, num certo momento do tempo, e de forma continuada, estiveram apensar de forma interactiva, em tensão e certas vezes em aberta discordância, ou mesmo incompreensão mútua. E isso, essa abertura de perspectivas em que todos tiveram uma palavra a dizer (veja-se as dissertações de mestrado e de doutoramento, por exemplo), é raro, para não dizer raríssimo, na nossaarqueologia: as pessoas ou não discutem (reduzem-se ao silêncio), ou "emigram" (solução de desespero), ou seguem/fingem seguir o sujeito "suposto mestre".
Objectivos, protocolos, metodologias,questionários, paradigmas, o que se queira, são todos eles elementos insertosnuma história, tão ocidental, da procura obcecante de verdade. O ser humano temdesejo de arrumação e de ordem, conforta-o - como ser para a morte, num planetae num sistema solar que também um dia hão acabar – a ideia de eternidade.  O conhecimento é um sistema securizante defixação conceptual, de ordenação psicológica, exprime a vontade de viver emuníssono com uma realidade significante e apaziguadora, estável. Só que nem a realidade é perfeita, nem evidentemente o ser humano se pode arrogar essa posição absoluta de fixação, que na verdade seria a morte.
Quando o tempo, com aindustrialização moderna, se acelerou, a crença num deus-pai protetor passou aser mais questionada, com a racionalização e a laicização, e o mercado com oseu valor supremo, o capital, se generalizou, mostrando a fluidez de tudo e ainsignificância das pessoas, os espíritos procuraram na ciência, por um lado, ena arte, por outro, novas âncoras. Depois a sociedade de lazer de massasgeneralizou essa procura de forma banalizada a todas as atividades deentretenimento, nobilitadas sob a designação abrangente de cultura, tornada umaindústria – a qual tem a sua manifestação mais patente no turismo, que consistena venda em parcelas da própria experiência emocional em si.
Ou seja, a mercadoria que éconsumida no turismo não são os locais, não são as pessoas, é um patrimónioincorpóreo, como agora se diz, que é a experiência indefinível das pessoas – decada pessoa – nos locais – em cada local. Portanto, algo de completamenteindeterminável e, numa certa medida, “irreal”. Estamos todos no mundo de umanova economia libidinal, onde alguns seres ainda aparentemente se realizam, e muitosoutros aparentemente se quebram; esta economia vive da excitação e do stress,da constante fusão do real e do virtual, e da sua exibição a terceiros (como sevê nas redes sociais), etc. – como todos sabemos.
[G. Agamben fala do prazercomo aquilo que é próprio do ser humano, ligado à ideia de capacidade deagarrar o momento oportuno, de kairós,quer dizer de fuga ao tempo linear, ordenado em instantes sucessivos, e decolisão, por assim dizer, de presente, passado e futuro, liberdade, profanaçãoabsoluta de todos os dispositivos que nos “fazem”: mas a sua mensagemmessiânica não entra no horizonte de possibilidades que em geral as pessoasentreveem, e as pessoas em geral querem entrever algo de muito imediato, têmoutras utopias].
Foi naquele quadro de mudança, que a modernidade e após-modernidade nos trouxe, que a arqueologia nasceu e se foi desenvolvendo.  Criámos uma ideia metafísica, a dematerialidade, pensando assim termos uma âncora mais sólida para nos agarrarmosa testemunhos palpáveis da história humana. Mas a genealogia desse quadro, perdidosque fomos em erudições, não nos foi explicado: tivemos nós, ao longo de umaexperiência de vida, cada um ao seu modo, que o ir entendendo, à medida que amadurecíamos,e que procurávamos adaptar o que aprendíamos dos outros às realidades quetínhamos de afrontar e às perguntas inéditas que elas nos suscitavam.
Para mim não faz sentidoteorizar a arqueologia em geral. A sua unidade é essencialmente administrativae profissional. É uma formação discursiva que emergiu no século XIX, umconjunto de práticas e de problemáticas que se integram na máquinaantropológica moderna.

De forma que se quiséssemos definir o campo da arqueologia, teríamos, em boa verdade, de o fazer de forma tautológica: arqueologia é aquilo que os arqueólogos (profissionalmente) fazem, e o que os arqueólogos (profissionalmente) fazem é aquilo a que convencionámos chamar arqueologia.
E acontece como poderia ser no contexto da medicina,por exemplo: ou se vai para ideias muito vagas, onde se perde com facilidade a substância da coisa (descrição do estudo do corpo humano, da práticaterapêutica, etc.), ou se desce à enunciação mais específica, muitas vezes paraapontar novas tecnologias de diagnóstico/tratamento, novas descobertas, que por definição se reportam a domínios de alta especialização, muito definidos. Grande escala ou pequenaescala. E só alguns conseguem fazer a ginástica de tentar articular com o universal com o particular, num permanente jogo de ampliação e de focagem. Problema de insatisfação intelectual, de disponibilidade psicológica e logística, e de desejo: há uma tendência de muitas (sobretudo nestas épocas difíceis que vivemos) para se abrigarem em nichos, dando-se mal com a mobilidade e esforço que implica a contínua busca e, portanto, não só a assunção de que o que já julgámos perceber é infinitamente imperfeito, incompleto, mesmo tosco, mas também de que o que verdadeiramente importa é o saber vivo, latejante, isto é, sempre contingente.
Porém Hegel - segundo Zizek ("Menos que Nada", São Paulo, Boitempo, 2013, pp. 207 e segs.), ele próprio também apoiado na interpretação de C. Malabou ("The Future of Hegel", Londres, Routledge, 2004) -parece que tem uma palavra importante a dizer sobre isto.Ele trata de forma crucial da relação entre o que chamou universalidade concreta, distinguindo-a da universalidade abstracta. E sobre essa relação entre a verdade que o sujeito busca e a contingência das respostas que atinge, escreve Zizek (Op. cit., p. 207): "Toda a interpretação é parcial, "enraizada" na posição subjectiva e fundamentalmente contingente do sujeito; contudo, longe de impedir o acesso a verdade universal do texto [aqui poderíamos ampliar para qualquer objecto de conhecimento] interpretado, a plena aceitação dessa contingência e da necessidade de lidar com ela é a única maneira de o intérprete ter acesso à universalidade do conteúdo do texto" [de novo poderíamos generalizar para objectos não textuais]. 
E Zizek explica: se quisermos chegar à realidade das coisas "em si", abstraindo da condição sempre situada em que nos encontramos, ou tentando elevar a um "em si" universal o que é apenas uma visão particular nossa, chegaremos apenas a uma universalidade abstracta, que não interessa. Interessa-nos, sim uma universalidade concreta, ou seja, uma "universalidade concreta verdadeira" que inclua em si própria "(...) a posição subjectiva do seu leitor-intérprete como ponto particular e contingente a partir do qual a universalidade é percebida." (Zizek, op. cit., p. 208). É isso que Zizek desenvolve no cap. 3 da parte I da sua obra magna citada acima.
A atitude arrogante é a atitude habitual do sujeito céptico que se declara modesto, consciente das suas limitações, relativizando tanto aquilo que enuncia, e que actua como se tivesse capacidade para estabelecer, medir, a distância que o separa do todo, do absoluto, da verdade. O Saber Absoluto de Hegel, diz-nos Zizek (Op. cit., p. 239) priva-nos dessa atitude soberana, dessa capacidade de nos vermos a nós próprios a distância. E, na mesma página, Zizek diz: "O nosso saber é radicalmente "subjectivo" não porque somos [ou estamos] para sempre separados da realidade em si, mas precisamente porque fazemos parte dessa realidade, porque não podemos sair dela e a observarmos "objectivamente".  
Ou seja, nós estamos sempre incluídos na realidade que observamos. O nosso saber tem um carácter sempre inconsistente. Há uma limitação absoluta do "círculo da nossa subjectividade", como diz Zizek (ib.), mas isso não nos deve arrastar para um solipsismo subjectivista. O subjectivo e o objectivo, o para nós (ou para si) e o em si, as aparências e as coisas em si estão, em Hegel - e em Zizek, que o segue - dialecticamente mediados, e o "Saber Absoluto" "é o ponto em que o sujeito assume plenamente essa mediação" (Zizek, Ib.).
Devemos abandonar a ideia corrente, do senso comum, "(...) que considera a abstracção um distanciamento da riqueza da realidade empírica concreta com a sua multiplicidade irredutível de aspectos: a vida é verde, os conceitos são cinza, eles dissecam e mortificam a realidade concreta." (Zizek, ib., p. 245). Só começamos a pensar quando percebemos que o processo de abstracção "é inerente à própria realidade" (id, ib.), que há uma "tensão imanente" na realidade "entre a realidade empírica e as suas determinações conceptuais" (id., ib.).
O autor explica então algo que é da nossa experiência corrente, como seres humanos ou como investigadores. Quando tentamos perceber uma qualquer situação empírica, que tentamos ordenar, muitas vezes acabamos por intuir que as inconsistências da nossa visão, interpretação, ideia, são "inconsistências imanentes ao próprio objecto" (id, ib., p. 246) a que tentamos impor uma ordem. A "coisa em si" é inconsistente, cheia de tensões:  e "é o desdobramento dessas tensões, essa luta, o que a torna "viva" (id., ib., p. 246).
Bem, esta nota já vai um pouco longa. Mais do que escrever muito, como já tanto fiz ao longo de décadas, apetece-me aprender (ler, pensar, reflectir) muito. 
Continuem certas instâncias a avaliar as pessoas pela quantidade, a forçá-las à produção até ao esgotamento. É triste. Eu, enquanto puder (e sublinho: enquanto puder...), mantenho-me do lado do questionamento e da procura, deixando o papel de sábio de serviço a quem se sinta bem nesse papel. 
Peço desculpa, sim, de abordar temas tão complexos de forma tão leviana.
Penso nos sítios lá longe onde concentrámos a nossa atenção durante tantos anos, e de como eles, essa realidade empírica e por vezes hostil, até pelo desconforto físico e pela dificuldade da sua (a)preensão em sistemas aprendidos de metodologia e interpretação, entram em tensão dialéctica com tudo o que leio aqui, e de como estar aqui e estar lá, estar agora e estar no passado dessas experiências se con-funde e mutuamente pende sobre mim como um elemento instigador de vida. Como agora e aqui tenho a responsabilidade e a oportunidade de repensar tudo e de ir traçando um novo destino/sentido, retrospectivo, para o que já aconteceu lá, ou seja, para o que estará sempre a acontecer lá. Futuro imperfeito.

voj 2013

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