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quarta-feira, 4 de setembro de 2013

passado



O passado é uma realidade abstracta, produto da nossa imaginação, o nome que damos em cada momento ao conjunto indefinido e indefinível de acontecimentos, vivências, etc., que a nossa consciência reflexiva, associada a um conceito linear de tempo, nos faz imaginar anterior ao agora, tanto individual como colectivo. Sentimo-nos confortáveis por poder narrar histórias que de algum modo nos dão a ilusão de explicar esse agora através de antecedentes, confundidos facilmente com causas. Mas esta concepção linear do tempo, a comum, e que vem do Cristianismo, provoca angústia, porque queremos encontrar uma génese para tudo (um momento mítico em que as coisas ainda não tinham sofrido a erosão do tempo, estavam em estado puro), e essa génese aponta de facto para a nossa morte, quer dizer, o começo pressupõe um fim, a paz da conclusão. Este conceito das coisas provoca ansiedade, mas na verdade distingue-nos dos animais, que imaginamos colados ao presente, sem consciência da morte, que é o motor de todo o desejo. Por isso se costuma dizer que os animais têm necessidades, não desejo, sendo o desejo intrinsecamente humano, a pátria do ser humano. Isso a psicanálise veio esclarecer de forma importante... nós sentimo-nos confortáveis em poder relembrar, rememorar, sabendo que relembrar é sempre reviver de forma diferente, porque integrada num novo contexto, aquilo de que conseguimos lembrar-nos...por isso uma pessoa que perdeu a memória nos parece inumana, e é-o de facto, até certo ponto. Mas relembrar - e a actividade simétrica, desejo de antecipar - são sempre também fonte de angústia, de incerteza, de remorso ou de ansiedade. E desta massa complexa somos feitos. Com o desejo da certeza (que tanto caracteriza o ethos dos cientistas), e que por vezes nos parece um desejo infantil. A única certeza que temos é a de que morreremos, e mesmo a esse momento final não assistiremos, como não assistimos ao nosso nascimento. Somos seres lançados ao mundo, seres para a morte, sem apelo nem agravo. E no meio disto amamos, rimos, divertimo-nos, e sobretudo quando somos novos não pensamos em nada disto, porque a morte, o fim, de facto é para nós algo de impensável, de absurdo, e no entanto nada temos de mais certo. Estranho é viver, tanto mais que tudo o que pensamos, sentimos, recordamos, antecipamos como seres humanos é permeado pela linguagem, que como sabemos é um código, um jogo, algo que fala por nós, nós que estamos assim descentrados em relação a nós mesmos. Ouvimos a nossa voz quando falamos, e às vezes dá-se aquele desfasamento: este som é o da minha voz? E quem sou eu?... aqui cada um tem de construir a sua fantasia. Amar outra pessoa é o desejo (insensato) de entrar nas suas fantasias, e portanto de "colonizar" o seu passado, como se se quisesse recuperar para nós o que essa pessoa já viveu... mas essa ilusão fabulosa de comunhão, sem esse desejo reiterado de plenitude, de junção de dois em um, não há vida verdadeira. Para além do prazer da arte, da satisfação da filosofia, da fascinação da ciência, para além dos pequenos prazeres que a interacção com os outros nos dá, cada um de nós procura, entre a multidão, e contra todas as desilusões já tidas, a "alma gémea" com que se identificar. Desejo intenso de identificação - o que leva à necessidade imperiosa de ouvir a voz desse outro, de conhecer o seu passado. Desejo que pode levar ao ciúme intenso, à pena de se ter chegado tarde, ao sentimento angustiante de irreversibilidade. Mas o amor, que vale mais que tudo, tudo supera, pelo menos em certos momentos.

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