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quarta-feira, 14 de abril de 2010

Interpretação

INTERPRETAÇÃO

O problema da interpretação foi e é fulcral em psicanálise, como obviamente em todos os “saberes”.

Simplesmente, Lacan deslocou-o do domínio do sentido (descobrir e dar a revelar ao paciente um significado oculto) para o do desejo (permitir ao analisando “ouvir a mensagem” que ele inconscientemente dirige a si próprio). Vejamos como, sucinta e esquematicamente.

Para Freud, o objectivo da interpretação (pelo analista) era o de ajudar o paciente a tornar-se consciente de pensamentos inconscientes (Evans, Routledge, 1996, p. 87). Mas Freud não via a interpretação (dos sonhos, por exemplo) como uma descodificação (como se houvesse um sistema universal de equivalências), antes valorizava a associação livre, acabando por insistir no carácter simbólico dos sonhos (aspecto que Lacan viria a contestar) e no sentido particular de cada um deles em cada indivíduo.

Por outro lado, o que interessa Lacan na interpretação, como aliás em tudo o que abordou (Cléro, Dict., p. 152), não é o mesmo dos estruturalistas (com que alguns o identificam, principalmente no início da sua carreira), mas sim os “restos” da interpretação, o que ela deixa de fora, aquilo a que não atende. A procura do sentido (a “estrutura” dos estruturalistas, para um anti-estruturalista como Ricoeur, por exemplo) deixa restos por toda a parte: pois bem, é destes (seg. Clero, ib.) que Lacan se vai ocupar.

Aquilo que se apresenta como tendo sentido oculta o indicador do sentido que está compreendido nesse sentido mesmo. “O sentido envolve e dissimula o que o produz.” (Clero, ib). O discurso de interpretação visaria pois as condições do sentido que sempre procuram a invisibilidade.

“Se, no presente – escreve Clero, ib. – algo se diz [se apresenta] como indicando o passado, temos de compreender que esta designação do passado tem um papel no próprio presente, sem que devamos fixar-nos e deixar-nos distrair apenas pela função de indicação ou de indexação.” “A interpretação deve centrar-se no manejamento do significante.” (Lacan, Sem. V, 1958). A interpretação é uma máscara do inconsciente (Cléro, p. 150).

Na concepção lacaniana de interpretação há pois muitos elementos que são úteis para ver de modo diferente e esclarecedor a questão da interpretação, tanto na prática psicanalítica, como – e é isso que me importa destacar – na vida corrente (no que ela há de uma ideologia, ou filosofia, posta em prática, “com-provada” a cada momento pela prática, isto é, tornada “realidade”) e na própria prática de pesquisa de um investigador, como por exemplo do arqueólogo que sou.

Na análise ocorre uma situação de “encontro” de duas pessoas, analista e analisando, que, apesar da sua especificidade, tem certo paralelo (acentuo “certo”, portanto, de um determinado ponto de vista, e com muita cautela nesta comparação) no encontro do investigador com o seu objecto de estudo. Este “paralelo”, a aceitar-se, permitir-nos-ia desmistificar muitas “ingenuidades” ou “primarismos” da démarche dita científica, tal como ela é correntemente encarada/posta em prática, baseada num complexo de crenças (as quais fazem corpo com a ideologia dominante, ou seja, servem de sustento ao reforço/reprodução ad infinitum do mesmo e portanto à ilusão suprema de se estar a “progredir” sem de facto “se sair do mesmo sítio” ).

O potencial radicalmente subversivo “de uma certa psicanálise” – no sentido de um conhecimento verdadeiramente perturbante, isto é, aberto à singularidade e ao espanto, ao “não-sentido”, ao que escapa à lógica do Todo – reside aqui. Isto é capital, porque há muita coisa (diria quase tudo o) que passa por psicanálise que não tem para mim (por intuição) interesse algum. A escolha do caminho é pois crítica: danação ou salvação, como se diria cristãmente.

Quer dizer, sem entender as condições em que pode dar-se o processo de conhecimento do outro, da realidade outra, que está perante mim, tudo o que vou fazer em “ciência” é contribuir com a minha energia, esforço e eventual “criatividade” (capacidade de desenvolvimento de alguma coisa desdobrada noutras), para reproduzir/reforçar um conjunto de práticas e de ideologias que me levam à ilusão mais completa, aquela que se me afigura como a única certa, indiscutível, e não só causadora de júbilo próprio, como devendo ser transmitida aos outros (discurso universitário) como a verdadeira (discurso do mestre).

Baseio-me para estas modestas reflexões no pensamento de Lacan tal como é expresso em três (muito conceituados) livros/guias de estudo; dois de Jean-Pierre Cléro: “Le Vocabulaire de Lacan” (2002) e “Dictionnaire Lacan” (2008 – ambos da ed. Ellipses, Paris), e um de Dylan Evans (“An Introductory Dictionary of Lacanian Psychoanalysis”, Londres, Routledge, 1996), limitando-me em muitos casos a traduzir livremente, mesmo sem aspas (às vezes colocando entre parêntesis rectos a palavra/expressão em francês – todo o pensamento de Lacan “fala francês”, como o de Freud “fala alemão” - pelo que, para não ser acusado de plágio, desde já digo que se trata de notas de estudo sem qualquer pretensão de originalidade; apenas servem para me ajudar a melhor incorporar o pensamento de Lacan, articulando-o com os meus interesses/experiência.

O facto de partilhar estas notas é apenas uma estratégia pessoal de trabalho: assim obrigo-me a ser um pouco mais rigoroso e atento, sendo evidentemente qualquer erro e imprecisão de minha responsabilidade.

Pensar é tentar apreender [s’emparer de] o significante no que ele tem de abrupto, de original, sem se deixar escorregar para as facilidades do significado.

Ou seja, como escreve Evans (p. 89), “a interpretação assim inverte a relação entre significante e significado: em vez da produção normal de sentido (o significante s produz o significado S), a interpretação trabalha ao nível de s para gerar S: a interpretação faz emergir “significantes irredutíveis”, sem sentido.”

Na análise, analista e analisando estão ambos numa situação peculiar: o analista tentando “esquecer” o que aprendeu, tudo o que constituiria um obstáculo à apreensão daquela experiência na sua singularidade, sensibilizando-se para o “choque” do que haverá a interpretar; o analisando esforçando-se por “encontrar uma atitude”, por reagir, face a tal acontecimento que lhe surge de forma inédita. Porque a análise, cada análise, é sempre um acontecimento singular, e portanto em última instância não traduzível – o que pode contundir com a praxis e o ethos da ciência, e até da vida corrente, comunitária, que se baseia sempre na comunicação, na “traduzibilidade”, obviamente: mas deixemos esse problema para outra ocasião.

A interpretação do analista não consiste em “desvendar” [dévoiler], em fornecer uma mensagem, mas é uma tarefa nuito peculiar de interacção, que consiste em tentar reagir, através de uma construção “cega”, a uma aparição, a algo que surge [surgissement] e que desampara. A construção do analista baliza-se sempre pela ideia de que não há uma verdade escondida que se visaria capturar, uma “conclusão” ou “solução” que fosse uma resposta à demanda feita pelo paciente, com a sua “queixa”, ao procurá-lo. A sua missão, por assim dizer, é criar ambiguidade, por vezes devolvendo ao analisando a sua mensagem mas sob forma invertida.

Pelo seu turno, este último, o analisando, compreende que o que há a interpretar não está primeiro “dentro dele”, e depois na mente do analista, mas que a “revelação do essencial”, esse “espigão [“kern”] de sem sentido” [non-sens] tem de ser construída por ele, analisando, e não pelo analista. Como diz Lacan no Seminário XI, p. 279: “O que é essencial é que ele veja, para além da significação, a que significante – no sentido irredutível, traumático – ele está sujeito [assujetti], enquanto sujeito [sujet].”

Ou seja, interpretar, neste contexto, não consiste em substituir o discurso de um primeiro indivíduo (paciente) pelo de um segundo indivíduo (o intérprete), discurso este mais verdadeiro do que o primeiro, mais adequado ao que o primeiro supostamente quereria dizer. Se isso acontecesse na análise, se o analista se colocasse na posição de mestre, deitaria a análise a perder.

Desde cedo que esta questão ocorreu, em psicanálise. O analisando perceberia a lógica do analista e poderia até fazer-lhe resistência, fechando-se no seu discurso.

De facto, percebeu-se precocemente, na história da psicanálise, bem antes de Lacan, que não se tratava de fornecer ao paciente uma interpretação do significado inconsciente do seu sintoma para que este se livrasse dele, por assim dizer. Mas Lacan acentuou que esse fechamento inconsciente do analisando era provocado pelo próprio analista.

Para autores anteriores, cientes da resistência de analisandos cada vez mais informados sobre a psicanálise, o analista deveria tender a complicar as suas interpretações, fornecendo um sentido e um significado mais “elaborados”, de modo a provocar uma identificação do analisando com eles.

Para Lacan, bem ao contrário, o que se trata é de desviar “uma comunicação possível sobre uma verdade” para o lado de um “não-sentido” irredutível dos significantes. “O significante precede o significado; é mais real que este último.” (Cléro, Vocabulaire, p. 39).

Mas a interpretação, por muito que se articule como ligação de um significante a outro, não está aberta a qualquer sentido, não é uma qualquer interpretação que vale (nisto opõe-se a certa fenomenologia)... uma interpretação significativa o que deve é fazer aparecer “elementos significantes irredutíveis, “non-sensical”, feitos de não-sentido” (Lacan, Sem. XI, p. 278). A interpretação recusa a compreensão, que sempre foi vista como típica das ciências humanas, por oposição à explicação. A compreensão é perniciosa, por assim dizer, porque visa verter o discurso do outro numa teoria pré-estabelecida; Lacan: “Quanto mais se compreende, menos se escuta”. (Clero, Voc., p. 40).

A interpretação é pois um dispositivo táctico para produzir efeitos.

Como para Nietzsche, para Lacan a interpretação é um processo sem fim. Ela incide sobre o “já interpretado”. Por outro lado, também o inconsciente procede por interpretação. Sem. XI, de 1964 (Cléro, Dictionnaire, p. 150): “ O que a interpretação do analista faz é recobrir o facto do inconsciente [como jogo do significante] ter já nas suas formações – sonho, lapso, dito espirituoso ou sintoma – procedido por interpretação.” “Interpretar um comportamento, um sonho, é instalar-se numa galeria, numa base de coluna [tore] sem fundo, em que a interpretação se supõe permanentemente a si mesma, suscitando, tal como o saber, efeitos de verdade. Mas antes do mais a interpretação é portadora de gozo [jouissance] e o que faz constantemente é parecer revelar uma verdade” (Cléro, Dict., pp. 150-151). Ela não é um trabalho no sentido em que uma pesquisa do verdadeiro o pode ser: “O sentido não é senão o gozo [jouissance], a mais-valia que procuramos obter em cada situação, a recompensa da interpretação.” (Cléro, op. cit, p. 151).

Uma interpretação totalmente vinculada ao sentido é uma religião; por isso Lacan tenta “fugir” ao significado, insistindo na importância do significante como tal.

É nesse sentido que valoriza a poesia como a única que permite a interpretação: Lacan pensa-se como carecendo de talento poético para poder instalar uma técnica segura, que seria a interpretação analítica. Só assim “a galeria de sentidos(...), ou o toro [moldura circular de base de coluna] da interpretação não seria um poço indefinido onde a análise mergulha.” (Clero, p. 151).

A interpretação vale, tal como o oráculo, pelo seu seguimento, pelo que se faz a partir dela.



1 comentário:

Isabel disse...

vim....saciar-me. aqui.




obrigada V.

beijo.


(piano)