sábado, 27 de dezembro de 2008

algumas cenas da ridicularia quotidiana

A excitação sexual é, para o homem, um excesso. o estado de erecção é incómodo, visível, é um problema a resolver, quer dizer, aponta para a consecução de um acto em que cesse. Nesse sentido, que parece contraditório, a excitação quanto mais depressa acabar melhor, quanto mais cedo for resolvida, melhor... Mas para que ela cesse com satisfação do próprio, para que tudo seja ligado ao mundo das "funções" justificativas e do biopoder, da ideologia do biopoder (a regulação dos corpos e das consciências), de uma política das relações, ela tem de cessar após uma relação de prazer, de prazer do homem consigo próprio, porque se sente a subir a encosta que o levará à ejaculação, e nesse mesmo movimento a "proporcionar" à mulher prazer também (a mulher entra portanto como um objecto de prazer nesta cena imaginária; ela é sujeito, imaginada como tal, mas enquanto espelho do prazer masculino). O prazer do homem está no espelho que a mulher representa de si mesmo, do seu lado feminino sendo penetrado por si próprio, no esgar da face em que ele se vê ao espelho, nos murmúrios confirmadores de que o prazer, de que o poder está a aumentar, de que a elevação da colina está a caminhar para o seu cume. O homem está atento ao cume, é este que lhe interessa: do alto do orgasmo, e nos breves momentos em que ele dura, ele pode fantasiar-se como todo-poderoso. Chegar ao ápice, libertar-se da tensão, do incómodo, atingir a catarse, tal como o turista quando fotografa: é um acto de con-firmação, justifica tudo o que está para trás e para a frente, dá sentido ao presente. Escapa também assim ao seu fantasma mais tremendo, o da perda de potência, ou auto-desencantamento, por um lado (fantasma que sempre aflige o poder, que é o de se perder, o de esvair em im-potência, como a frustração do turista confrontrado com o tédio, com a percepção do sem-sentido, do aleatório, da sua deambulação), e ao mesmo tempo o do retraimento sobre si próprio, ou seja, o de ter de se desdobrar em homem e mulher para poder resolver o problema do objecto consecutório do prazer (esta questão pode estar relacionada com a da chamada impropriamente, e genericamente, de forma abusiva, homossexualidade). O homem teme simultaneamente perder a potência, a chamada virilidade, ou tornar-se mulher, ou seja, no seu inverso (por isso dantes se falava de "invertidos" a própósito dos designados "homossexuais"). E a ansiedade e sofrimento desse temor podem ser enormes, podem ser causa de um sofrimento imenso, no ambiente biopolítico que a sociedade moderna criou, em que cada um tem de (é compelido a) encontrar um lugar (uma suposta identidade própria) numa topologia dos corpos sensíveis, numa economia política libidinal, numa distribuição geral do(s) desejo(s) e do(s) prazer(es): uma "normalidade" qualquer. É preciso (obrigatório) desejar, e concretizar esse desejo (tal como para o consumidor é indispensável o acto catártico do comprar, do adquirir), mesmo que para o ponto de vista de alguns o modo "escolhido" seja obsceno ou desviante. Mais terrível, mais sancionado que tudo, é não desejar. O direito que enquadra tudo, a moldura, encarrega-se de ir mudando para se adaptar ou para antecipar as vicissitudes da bio-política, inventando crimes, e despenalizando outros, numa espécie de suprema triagem que tende a assegurar a homeostase social, a distribuição das forças, dos fluidos, a limpeza das salas em que se encena o teatro da vida humana, a higiene comum, pelo menos ao nível das representações. O poder, a lei, a ordem, como mulheres a dias eficazes, sabem, porque são especialistas, que parte do pó vai para baixo do tapete, que mal de nós se não houvesse tapetes, sombras, segredos, mau grado a sociedade da informação os querer, desesperada, escrutinar todos.
Para a mulher, pelo menos para a imagem da mulher que muitos homens têm, a excitação sexual - caso paradigmático de uma suposta alteração ou interrupção da vida comum, diária, pautada por obrigações, por afazeres, por entretenimentos - não é tão visível como no homem, nem aparentemente provoca em muitas mulheres uma tão grande ansiedade. A ansiedade da mulher é hoje a mesma do homem, em princípio: o sexo é uma coisa saudável, natural, que nada tem a ver obrigatoriamente com a procriação, mas com o sistema geral de saúde: é preciso "fazer sexo" (a expressão é significativa) para se ser saudável, isto é, para se ser (ou tentar ser, ou parecer) uma máquina perfeita, no seu perfeito estado, para se corresponder às imagens estranhamente sempre felizes e sorridentes da publicidade. Com dizia a outra: tem má cara, é porque não f.; sendo caso para perguntar, por que é que essa outra teve tanto prazer em afirmar isso.
A mulher muitas vezes serve-se da sua imagem tradicional de objecto sedutor: basta um sinal e o homem vem, que nem um filhote, até à mãe que de novo o chama. Vem como cordeiro pascal, como cordeiro do sacrifício, vem para o tribunal da aferição da sua maior ou menor masculinidade, de que ela, mulher, vai ser a juíza auto-instaurada e legitimada pelo biopoder. Não porque sempre lhe apeteça, a ele homem, jogar esse jogo assim, naquele momento, mas a tal ele é compelido pelas regras da educação, da moral interiorizada, da vontade de corresponder à expectativa, ao chamamento da mãe. A mulher oferece-se ao homem como mais-valia, como oportunidade a não perder, sob pena de ele se considerar a si próprio parvo ou canhestro, inábil, em perda de identidade (não reconhece a própria mãe, o seu chamamento inapelável) ou... impotente. O homem tem de certificar permanentemente a sua potência dizendo sim sempre que chamado ao teatro de operações, como na tropa. A mulher pode simular prazer; pode encenar o teatro do amor como lhe apetece; ela dita as regras do jogo (a não ser que tenha o azar de se defrontar com alguém perigoso, mas isso é um perigo a que qualquer um de nós alguma vez se expõe, mesmo caminhando na rua). E nisto estamos, na ridicularia sem fim da vida quotidiana, nas suas misérias e nas suas pequenas glórias.
Tão raras, as verdadeiras glórias, os verdadeiros encontros, que são sempre atrito, mal-estar, violência (ao contrário dos que cinicamente o não admitem), vergonha, perversão, "pecado". Mas também um enormíssimo respeito pelo outro, uma superação do temor do outro (nesta ambivalência em que o amor é o que desperta o maior ódio, em que o inimigo é o maior amigo), que implica cultura, cultura culta mesmo, e não no sentido em que se vulgarizou.
O que está na sombra. O que é o objecto da fantasia. O "pequeno objecto a" de Lacan, que despoleta as máquinas desejantes. Mas os êmbolos destas raramente coincidem, e mesmo que coincidissem, no orgasmo simultâneo de dois, que significaria isso? Cada um dos elementos do par está sempre, e apenas, com as suas projecções, com os seus espelhos. A vida é a "gestão" destes equívocos, e por isso é tão importante ler, estudar, perceber o biopoder em que estamos inseridos, não para se ser mais sábio, não por uma questão de curiosidade intrínseca ao ser humano (não há provavelmente nada de intrínseco ao ser humano, e nisso uma perspectiva psicanalítica fossilizada seria o pior possível, o complemento do biopoder), mas para nos distanciarmos, pelo menos uns milímetros, dos constrangimentos em que fomos educados, feitos.
Diz aquele ditado popular, malcriado: "porfia, que f."
Ok, porfiamos todos.
Mas importa ver em que direcção, e o que é isso de f.
A vida prática é uma questão política. E esta não se apreende apenas sendo inteligente, e lendo os bons jornais. São necessários outros níveis de envolvimento. É que perceber claramente , pensar criticamente, é, também, uma certa forma de realização e, se quiserem ir para o "sexual," de orgasmo. Nós podemos erotizar muita coisa.
Perdão por tratar de forma tão leviana assuntos tão complexos e fulcrais. Tenho sempre a desculpa: isto é só um blogue... ah, como estou bem enquadrado, sentado como paxá nas reconfortantes almofadas da ideologia!




2 comentários:

Marta disse...

Ainda existe Amor?

Um beijo enternecido*

Vitor Oliveira Jorge disse...

Pois não havia de... bj