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sexta-feira, 15 de maio de 2009

Giorgio Agamben - esquema (transcrição livre) da palestra postada neste blogue (mensagens anteriores) sobre "O Poder e a Glória"- parte 3


[esta intervenção de Agamben - genial autor que se apercebeu de com as nossas estruturas de pensar actuais são antigas e radicam na construção teológica alto-medieval, na sua consolidação da ortodoxia cristã - aqui é extremamente lúcida e no meu entender saudavelmente subversiva, isto é, desconstrutiva, crítica, iluminante, reveladora de uma "hipocrisia" fundamental, mesmo que não intencionada - na medida em que mostra como o poder, a governância, se realiza exactamente por aquilo que diz não desejar, os actos colaterais. Por exemplo, quando no meio de uma confusão de rua alguém inocente é morto por forças que actuam em nome da ordem, é óbvio que em princípio o agente A ou B não pretendia pessoalmente matar ninguém, mas está a contribuir, sem o (poder) consciencializar (a sua ideologia não lho permite) com esse "acidente", para a realização do poder. O poder é um aviso permanente e GERAL que como que diz: cuidado, estamos aqui para reprimir e extirpar o mal, em nome do bem comum, do bem geral, mas ao fazê-lo podemos atingir colateramente quem não tem culpa nenhuma, pelo que o melhor é TODOS desde já acautelarem-se. Há esta mais-valia de poder em todo o poder, por mais democrático que se afirme. A lucidez de Agamben é ver como esse desejo, essa pulsão do excesso está no coração político de todo e qualquer poder efectivo, sem o qual não havia governo possível. Não há "poder puro", digamos assim, o poder vive sempre em "overdose" potencial - claro que esta interpretação ou leitura é meramente pessoal. Digamos que uma ditadura se distingue de uma democracia porque a ditadura, para além de outras coisas, desnuda este objectivo, por vezes de forma espectacular, transborda naquilo que se mantém recalcado ou secreto na primeira; e esse desnudar é obsceno, e intolerável para a boa consciência de qualquer governância "democrática"]


Um governo só é possível se os dois aspectos considerados antes estiverem coordenados numa máquina bipolar. Há governo quando há coordenação desses dois elementos: lei geral e uma excepção, providência geral e providência particular.
Na tradição da filosofia política, poder-se-ia dizer que esta estrutura dupla se expressa na velha fórmula: "o rei reina mas não governa".
Na tradição da democracia moderna temos de pensar na divisão entre poder legislativo ou soberano, que actua sempre segundo as leis e princípios universais, e poder executivo, que leva à prática, no seu detalhe, o princípio geral. É curioso que a primeira vez que encontramos este vocabulário, ordinatio e executio, ordem e execução, é na teologia e não na teoria política. Estamos muitos séculos antes do político articular tudo isto. Uma das descobertas de G. A. é a de que o vocabulário das leis da administração pública está fortemente ligado a raizes teológicas.
A história da teoria política ocidental é a história das várias formas de articulação e de conflito destes dois pólos de poder. Reino e Governo. Soberania e Economia. O Pai e o Filho. Lei e Ordem. Lei e Polícia, podíamos dizer. Mas esta componente bipolar tem de estar presente desde o início até ao fim. Hoje podíamos dizer que o pólo do governo, ou da execução, tem a primazia, tanto na Europa como nos EU temos uma absoluta primazia do governo. Mas, mesmo neste caso, o aspecto bipolar está lá, se não, não há governo (mas sim outra forma de poder).
O terceiro ponto que desejo abordar é o problema dos danos colaterais. Na história da doutrina divina da providência a mais persistente aporia é provavelmente o problema da origem do mal, problema que envolveu teólogos e filósofos durante séculos. Se Deus governa o mundo e se a economia de Deus é necessariamente a mais perfeita que existe, como é que podemos encarar o mal (catástrofes naturais, doenças, crimes morais, etc) em todos os seus aspectos? A tentativa de encontrar uma solução para esta aporia resultou na invenção de um paradigma que é talvez o mais significativo legado teológico recebido pela teoria contemporânea da governância. Deus, na sua providência, estabeleceu leis gerais que são sempre boas. O mal resulta como efeito colateral destas leis. O mal é um efeito colateral (side effect) do governo divino do mundo, do bem, do bom governo. Por exemplo, a chuva benfazeja pode provocar trovoadas, inundações, catástrofes.
Alexandre de Afrodísia, um comentador aristotélico tardio (séc. II) expõe esta teoria.
Deus não se preocupa com detalhes. Assim, cada acto de governo divino do mundo é dirigido por um objectivo primordialmente geral. Mas assim como o chefe da casa, ao alimentar a família, alimenta também inadvertidamente os pequenos animais que parasitariamente habitam a casa (ratos, por ex.), do mesmo modo do acto geral da providência divina resultam efeitos colaterais que até podem ser positivos, ou negativos. Mas o que Alexandre diz é que os efeitos colaterais não são acidentais, mas definem a própria estrutura do acto de governância. O efeito colateral é o modo pelo qual o governo divino se torna efectivo. É quando a providência se realiza. Não é nem geral, nem particular, nem intencional, nem casual, nem previsto, nem imprevisto, nem reino, nem governo. Antes, só deste modo a máquina de governar - que se move sempre em dois níveis separados, geral e particular - apenas enquanto efeito colateral, se pode tornar operacional.
Quando hoje os governos chamam efeitos colaterais a factos que decorrem de intervenções militares, por exemplo, eles, sem o saberem, desenvolvem este paradigma teológico muito antigo.Mesmo neste caso, o efeito colateral não é algo secundário, ou casual, mas define a própria essência de um acto de governo. Não há acidentes no acto de governância. Porque o acto visa ter (aims at) efeitos colaterais. É através do efeito colateral que um acto de governo se realiza.
O meu quarto ponto já foi tratado por Michel Foucault. O que define o governo divino do mundo é que a providência não pode ser apenas um acto de força, de violência, que elide e subjuga o livre arbítrio dos governados. A principal característica do governo divino é que ele opera através da própria natureza das criaturas, de tal modo que Bossuet, o conhecido teólogo francês do séc. XVII, afirmou: "Deus fez o mundo como se Deus estivesse ausente dele. Deus governa as criaturas como se elas se governassem a si próprias". Deus, comenta G. A., permite-nos ser como poderíamos ser nós próprios, acentuando o mesmo G. A. a ficção incrivelmente sofisticada que se elabora assim nesta subtil economia.
Deus permite a um hmem ser o que um homem é, a um corpo o que um corpo é, a um pensamento o que um pensamento é, permite ser necessário o que é necessário, e livre o que é livre.

Incrível e percuntante analista é Agamben - que grande desocultação opera, a nossos olhos, de algumas das teias que os tapavam... difo eu, VOJ, seu aluno graças à net! E ainda dizem que estamos numa época de decadência do espirito crítico... estamos numa época muito importante nesse aspecto, apenas ainda não chegou à maior arte das pessoas. É preciso saber escolher muito bem o que se lê e, uma vez achado, aprofundar isso: temos as chaves para a desmontagem do que nos parece evidente, e ofusca o que é de facto importante. Questão de aplicação.




Giorgio Agamben - esquema (transcrição livre) da palestra postada neste blogue (mensagens anteriores) sobre "O Poder e a Glória"- parte 2

[Continuação dos tópicos "transcritos" por mim. Peço desde já excusa por qualquer erro de incompreensão da minha parte - o som nem sempre permite uma perfeita audição do que o autor está a dizer, além de que passar a escrito o oral é sempre uma torção; porém, isto não pretende, de modo algum, ser uma transcrição literal da palestra. Trata-se apenas de uns apontamentos para melhor incorporar a estrutura de pensamento do autor]



Não há fundação (fundamento) no ser na economia, na acção de Deus, segundo os téologos. Como eles disseram, literalmente, é um mistério anárquico. Archè, em grego, significa como se sabe início, fundamento. A economia de deus não tem fundamento [o autor usa a palavra inglesa foundation], não tem começo. Ela é completamente independente do ser de Deus. Isto torna-se compreensível quando tentamos perceber nesta perspectiva o sentido da controvérsia sobre o arianismo que tanto dividiu a Igreja entre os sécs. IV e VI. Por que foi este debate tão longo e importante, envolvendo o poder profano, que sobre ele tomou posições? O que estava em causa neste debate era o carácter anárquico (sem fundamento ou fundação, sem começo, sem archè) do filho, de Cristo. Arius (que se tornou depois um herético) defendia que Cristo, o filho, que era o logos, a palavra, a acção de Deus, tinha as suas bases no pai [was grounded in the father]. Não era anárquico, como o pai, mas tinha o seu começo e fundamento no pai.
A doutrina que prevalecia e que se tornou ortodoxia
afirmava veementemente que o filho, Cristo, é anarchos, sem fundamento, exactamente como o pai. Assim Cristo é uma figura independente, sem fundamento [without foundation], sem começo no pai.
Esta tese da anarquia de Cristo é talvez a mais ominosa herança que a teologia cristã legou à modernidade. Porquê? Porque implica que a linguagem e a acção divinas não tinham qualquer fundamento no ser, e são, nesse sentido, anárquicas. Isto significa a ruína, para sempre, da ontologia clássica, grega, com a sua ideia de uma ligação substancial entre o ser e o logos, o ser e a linguagem, o ser e a praxis, a acção. Qualquer tentativa, desde então, para fundamentar a linguagem no ser está condenada ao falanço. De acordo com Aristóteles, Deus movia o mundo (os "céus"), mas na verdade não o movia, queria-o assim, porque o seu ser coincidia com a sua acção. Os Padres cristãos inverteram completamente este ponto de vista: a acção de Deus não tem nada a ver com o ser de Deus. E esta é a herança que tivemos de enfrentar. Se a acção não tem qualquer fundamento no ser, a política, a ética, etc., tornam-se extremamente problemáticas.
Acima de tudo, é porque o ser e a acção são ambos anárquicos, no sentido apontado, que um governo se torna possível e mesmo necessário. Governo vem do grego κυβερνήτης que significa a arte do piloto, o homem do leme, o que guia o barco. É o carácter não fundado, não fundamentado da acção humana e divina que torna possível governar essa acção. Se a acção e ser fossem o mesmo, não se podia governar. Mas isto significa que a economia, oikonomia, quer dizer, a governância, é essencialmente anárquica. Que há uma solidariedade secreta entre governo e anarquia. Há um governo apenas porque os elementos que constituem este governo são anárquicos, sem fundação ou fundamento.
Uma das personagens do filme de Pasolini Salò diz que a única anarquia real é a anarquia do poder, e W. Benjamin escreve que não há nada de tão anárquico como a ordem burguesa - essas afirmações devem ser tomadas de forma extremamente séria. Há uma solidariedade entre governo(s) e anarquia.
Este é o primeiro ponto que queria abordar na minha análise da estrutura do acto de governância.

Ao segundo ponto chamarei "o Reino e o Governo", isto é, a dupla estrutura do governo. Um dos pontos que haveria de ter grande impacte na cultura ocidental é a conjunção estratégica desta doutrina da economia divina com a teoria da providência, isto é, do governo divino do mundo (é isso que significa "providência"). A junção destes dois paradigmas, que têm diferentes origens ou proveniências ("providência" vem da história filosófica grega, etc), está já presente em Clemente de Alexandria no fim do século II, e até ao fim do século VII deu origem a uma quantidade incrível de "literatura" teológica e filosófica (a "providência é o assunto sobre o qual os teólogos e filósofos mais escreveram). "Providência quer dizer que Deus está constantemente empenhado no governo do mundo; e, se ele parasse por um só instante que fosse, então o mundo entraria em colapso. Esta é a base teológica da providência. Mas como é que a providência, este governo divino do mndo, funciona? Desde o princípio vemos que a providência é concebida como uma máquina dupla ou bipolar. Isto é uma constante, desde o princípio: a providência tem uma estrutura dupla.
Deus não governa o mundo directamente em todos os seus detalhes e até ao mais ínfimo pormenor de um insecto, como diz o Evangelho, mas através do princípio universal. Os teólogos distinguem portanto entre uma providência geral que estabelece as leis universais e transcendentes, as causas primeiras (e chamam a isto ordinatio, ordenar, a ordem), e uma providência especial que está entregue aos anjos ou ao mecanismo das causas imanentes ou secundárias, a que chamam execução - executio. A máquina governamental divina é pois constituída pela lei geral e pela execução (isto tem a ver com o modelo democrático). Seja qual for o modo como os teólogos concebem a relação entre estes dois pólos, em qualquer caso a estrutura bipolar deve estar presente. Se os dois pólos estão completamente divididos, não é possível qualquer governo. Haverá de um lado um soberano impressionante, mas que é de facto impotente, e de outro lado a confusão caótica de um eixo particular de intervenção - a governância.



terça-feira, 31 de março de 2009

Curso Pensamento Crítico Contemporâneo FLUP - Jean Baudrillard - alguns livros

(Baseio-me nas obras que tenho)

- Le Système des Objets, Paris, Gallimard, 1968.
- Para Uma Crítica da Economia Política do Signo, Lisboa, Ed. 70, 1995 (original francês Éd. Galimard 1972)
- O Marxismo e o Sistema de Economia Política, s/l, Ed. Espaço, 1977 (original francês na revista "Utopie" 6, 1973
- Les Stratégies Fatales, Paris, Éd. Grasset, 1973
- Olvidar a Foucalt, Valencia, Pre-Textos, 2001 (original francês Paris Éd. Galilée 1977)
- Simulacros e Simulação, Lisboa, Relógio d' Água, 1991 (original francês Paris Éd. Galilée, 1981)
- Le Miroir de la Production ou L' Illusion Critique du Matérialisme Historique, Paris, Éd. Galilée, 1973 (tenho a edição de 1985)
- A Sociedade de Consumo, Lisboas, Ed. 70, 1975 (original francês Paris Gallimard 1974)
- L'Échange Symbolique et la Mort, Paris, Éd. Galimard, 1976.
- De la Séduction, Paris, Galilée, 1979.
- El Otro Por Sí Mismo, Barcelona, Ed. Anagrama, 1988 (original francês Éd. Galilée, 1987)
- A Ilusão do Fim ou a Greve dos Acontecimentos, Lisboa, Terramar, 1995 (original francês Paris Éd. Galilée, 1992)
- Fragments: Cool Memories III 1990-1995, London, Verso, 2007 (original frahncês Paris Éd. Galilée, 1995)
- Palavras de Ordem, Porto, Campo das Letras, 2001 (original francês Éd. Fayard 2000)
- Screened Out, London, Verso Books, 2002 (original francês Écran Total, Paris, Éd. Galilée, 2000)
- Los Objectos Singulares. Arquitectura y Filosofía (com Jean Nouvel), Buenos Aires, Fondo de Cultura Económica de Argentina, 2006 (original francês Calmann-Lévy, 2000)
- Télémorphose précédé de L'Élevage de Poussière, Paris, Sens&Tonka, 2001



Sobre o autor:
Jean Baudrillard, por Richard J. Lane, London, Routledge, 2000.