terça-feira, 25 de dezembro de 2007

Manifesto Anti-Dantas



Fonte: http://www.youtube.com/watch?v=CSRC6-XgSHo&NR=1

Arqueologia portuguesa: lá vamos, cantando e rindo

Uma das maiores tragédias históricas da arquelogia portuguesa resultou de não haver praticamente ciências sociais em Portugal (proibidas pelo salazarismo) antes do 25 de Abril; e quando elas se implantaram fizeram-no sem articulação com uma arqueologia demasiado ligada à história (e sua teoria, nos sítios onde esta se ensinava) ou então às ciências naturais (geologia, etc.).
A arqueologia articulada com a (para não dizer subordinada à) história (e ensinada nos respectivos cursos) servia até certo ponto os interesses da arqueologia desde a época romana para cá; e a arqueologia ligada à Geologia e outras ciências naturais, como a Paleontologia Humana, o Paleolítico. Isso continuou depois do 25 de Abril.
Quando muito, alguns (poucos) abriram-se à nova arqueologia americana, na linha de Binford, a "novas tecnologias" e à aplicação do evolucionismo multi-linear segundo o modelo do "Homem Caçador".
Quer dizer, as "épocas" que deram no mundo moderno maior origem à discussão teórica em arqueologia (aquelas que se convencionou albergar sob a designação de "Pré-história recente") - Neolítico, Calcolítico, Idade do Bronze e mesmo Idade do Ferro - ficaram como uma "terra de ninguém" interpretativa.
Muitas pessoas que se dedicaram a esses períodos, sem dúvida cruciais porque situados entre a "hominização" (a ocorrência da nossa espécie) e o Estado imperial romano (os últimos 2000 anos) não tinham outra formação que não fosse a de História.
Quer dizer, faltava-lhes (faltou-nos) a filosofia, a antropologia cultural ou social, a sociologia, a psicologia, a psicanálise, etc., etc.
É esta "terra de ninguém" que ainda hoje se faz sentir em Portugal. Mesmo nos estudos de arte rupestre, que também não ganharam com o pouco desenvolvimento de uma antropologia, e com uma história da arte maioritariamente iconográfica e documentalista, genericamente indiferente às novas perspectivas dos "visual studies" e aos próprios desenvolvimentos da arte contemporânea (que, questionando a arte, questionavam também as bases da sua história, obviamente).
Isto, em três linhas, breves, esquemáticas, e portanto redutoras (e decerto um pouco injustas para alguns e para o enorme esforço que todos temos feito para nos actualizar, com uma capacidade de trabalho invulgar e de dedicação que em geral caracteriza os arqueólogos, como aliás outros grupos profissionais portugueses, onde há bolsas de excelência), explica historicamente a penúria da arqueologia nacional, que alguns se têm esforçado por superar, é certo.
O aparecimento público de uma arqueologia com intervenção politica, em 1995/96, com a questão do Côa e sua mediatização, esteve mais uma vez ligado ao Paleolítico.
A grande maioria das pessoas cultas em Portugal continua a desconhecer a problemática e a riqueza da Pré-história recente, porque não tem os fascínios edénicos da "hominização" e da "origem da arte", nem grandes monumentos para apresentar como a arqueologia romana, medieval, ou moderna e contemporânea.
Claro que até por razões nacionalistas - presentes em todos os países, mesmo hoje - os castros e citânias do Minho (e em geral de todo o país) teriam sido desde sempre um tema-chave de afirmação da nossa arqueologia junto dos poderes públicos.
O controverso e mítico assunto dos Lusitanos (sedeados pela lenda na Serra da Estrela, de arqueologia muito pobre) e outros pormenores históricos recentes que me escuso aqui de acentuar - um dos quais é evidentemente a dificuldade de estudo exaustivo não de um sítio castrejo, mas do seu território inteiro, o que implicaria um enorme investimento de muitas décadas - não facilitaram esse desenvolvimento.
De forma que várias circunstâncias se juntaram para fazerem da arqueologia portuguesa, ainda hoje, um território muito pobre culturalmente, não articulado com o tecido das ciências sociais, e sem grande intervenção no ordenamento do território, uma prática entregue aos peditórios das magras verbas para escavação e à lógica das empresas. Uma situação, em boa parte, humilhante.
A falta de força política dos arqueólogos (soberanamente ignorados por todos os poderes centrais) está à vista, para o que também contribui a divisão das instituições (cada uma a querer fazer "curriculum" por si, sem perceber que a união faz a força, mais a mais numa sociedade em rede - mas quem é que quer "estar em rede" com certas realidades ?... o velho pragmatismo indica que "mais vale só que mal acompanhado"...) e o alheamento político, com Ministérios da Cultura estruralmente mais voltados para as artes, e Ministérios da Ciência mais voltados para as "verdadeiras ciências".
Apesar de todos os enunciados de boas intenções dos responsáveis do momento. Estou à vontade, sou amigo de ambos os ministros, mas isto obviamente (e ainda bem) não vai com amizades pessoais... nem certamente e sobretudo com os orçamentos que lhes são concedidos no conjunto geral da despesa pública.
É a gestão da penúria e da rotina de mãos dadas com a falta de uma consciência patrimonial alargada e integrada (incluindo o património ambiental e o agora chamado incorpóreo, como é evidente), que alguns tentaram implementar, mas como sempre, sem continuidade possível. Os lobbies não permitiram. A história da nossa arqueologia é em grande parte uma história de bloqueios.
Como é óbvio, as parcerias, as articulações institucionais, a descentralização, o investimento, o aconselhamento e trabalho em equipa com instituições e figuras representativas seriam necessários, imprescindíveis. Mas está alguém interessado nisso?... Alguém se sente na necessidade de consultar quem neste país trabalha há décadas? Essas pessoas só complicam e atgrasam as decisões, que valem sobretudo como enunciações.

Nem por ser menos visível, o patrimóno pré-histórico (como excepção, ainda lá se vão polvlhando os territórios com umas antas ou outros raros sítios protegidos) é menos importante do que o de outras épocas. Porque todos sabemos que o património, construção contemporânea, é um problema de afirmação política, de invenção contemporânea.
E o omnipresente turismo, que ele serve, só ganha(ria) em organizar redes diversificadas nos seus elementos componentes, circuitos arternativos, etc.
Mas, sem dinheiro para mandar cantar um cego, sem grande ambição por parte de muitos protagonistas da arqueologia portuguesa, cansados de lutar toda uma vida, que se pode fazer?
O Museu Nacional de Arquelogia, por exemplo, lá vai realizando coisas.
As pessoas (uma minoria, e Bolonha não veio ajudar), à custa de mensos sacrifícios, tentam graduar-se, pagando propinas elevadas.
Os investigadores seniores tentam obter algumas bolsas que lhes permitam continuar a trabalhar com os seus colaboradores e alunos. Mas muitos de nós já vamos estando um pouco decepcionados, procurando, numa lógica de rentabilização do tempo, de desilusão e de compreensível afirmação pessoal, saltar do local para o global e apresentar lá fora os nossos resltados a colegas mais receptivos culturalmente, até porque não lhes vamos pedir posto de trabalho nenhum...
Vale a pena publicar trabalhos em português? Só para quem esteja em início de carreira.
As pessoas cultas em Portugal visitam o Côa (quando visitam), uns quantos sítios romanos e medievais, e voltam para as suas cidades a frequentar os centros culturais, os espectáculos, e museus de qualidade e aquilo que vem anunciado nos jornais (quase tudo concentrado em Lisboa - CCB, Gulbenkian, Culturgest, etc, etc.).
As associações lá vão fazendo algma coisa, sobretudo mantendo-se a si próprias, numa espécie de ritos para alguns (sempre os mesmos) iniciados.
Os jovens curtem os festivais e a sua "cultura".
E lá vamos andando, como sempre, como o velho boi da paciência, que já nos fez aturar tantas décadas de ditadura. Como não acredito na psicologia dos povos, ou no inconsciente colectivo, nem sou dado ao fado, ainda não percebi por que é que temos tido tanta paciência.
Como sair deste círculo vicioso?
O voluntarismo individual não chega.
Mas o desencanto instala-se.
E a mediania reproduz-se.
Fizemos grandes congressos em Portugal, como o da UISPP em 2006, graças a um esforço insano do meu colega do IPT (Tomar). Mas, por exemplo: quantos de nós somos chamados a integrar publicações, júris, comissões (como aquelas de esrangeiros que nos vêm avaliar) fora de fronteiras?
Que conhecimento exportamos para outros saberes? Que traduções de livros de arqueólogos portugueses se conseguem implementar noutros países? A nossa rica literatura está em boa parte internacionalizada, mas ainda no outro dia foi como grande novidade que vários colegas meus de outros países ouviram falar de Fernando Pessoa (tendo ido logo comprar as respectivas traduções... como é possível desconhecer um autor desta envergadura universal?...).
Como saímos deste círculo vicioso?
Este blogue, um entre milhões, pode ajudar?... É apenas o meu espaço de intervenção pública (entre milhões), pessoal, modestíssimo por certo.
O património arqueológico não se reproduz. O tempo urge. Os estudantes estão insatisfeitos. Os responsáveis assinam papéis. E no terreno, na realidade de todos os dias, que nos anuncia 2008?... espero que com o novo quadro comunitário de apoio algo possa acontecer.
Vê-se tanta gente a festejar o Natal e o Ano Novo... esperemos que valha a pena, e não seja só uma forma de evasão. Porque estamos cansados. Todos. Há muitas décadas.

Quotation

I WOULD LIKE TO WRITE LIKE A PAINTER. I WOULD LIKE TO WRITE LIKE PAINTING.

Helène Cixous

(in chap. 35 - "The last painting or the portrait of God" -
of "The Continental Aesthetics Reader" -
ed. by Clive Cazeaux, London, Routledge, 2000, p. 583)


estalamentos


Para pensar é preciso aprender a pensar, e, aprender a pensar, a partir de uma certa idade sobretudo (este aspecto é muito importante), implica antes de mais concentrar a atenção individual ao máximo, ler bastante e, praticamente, a maior parte do tempo, não ter interlocutor - implica um afastamento dos outros.
Porque os outros interessantes e empenhados no mesmo esforço estão também isolados a tentar fazer o mesmo, a tentar tirar todo o partido possível do nosso bem mais precioso, o tempo, que tudo (na lógica da sociedade do lucro em que vivemos, nomeadamente do lucro simbólico, isto é, da capitalização máxima de cada indivíduo em si, na sua construção, na sua identidade) nos convida a não desperdiçar.
É muito difícil (e pode até parecer contra-natura) elidir os outros na sociedade da comunicação, em que as pessoas comunicam para não pensar, ou para fazerem intervalos no seu pensar (mas de acordo com ritmos individuais e dificilmente conjugáveis).
É também muito árduo fazer coincidir temporal e espacialmente os espaços/tempos de duas pessoas que estão unidas pela afectividade mas que querem pensar, experienciar, viver. Cada uma por si própria, está claro.
Pois cada uma delas tem de facto o seu próprio programa de auto-isolamento (que pode até, no extremo, ser entrar na con-fusão do convívio constante, isto é, só pensar na companhia dos outros, o que para mim é uma utopia), e assim vê-se na obrigação de negociar permanentemente, o que cansa muito.
Este cansaço inútil mas porventura inevitável destrói as energias que se deveriam canalizar para a actividade muito mais bela do sentir e do pensar, as quais teoricamente deviam estar confundidas numa e mesma coisa, mas foram separadas nos indivíduos.

Os indivíduos são hoje uma espécie de máquinas de quererem ser indivíduos, eles próprios, na sua insubmissão a qualquer disciplina, imaginando ser essa a sua libertação e realização enquanto seres humanos, opinativos e certos de tudo quanto fazem e desejam, mesmo sem pensar muito nisso.
"Escolhe" (suprema ilusão) cada um o melhor para si e frui. Tudo o que não seja fruir, fruir logo ali, é recepcionado como extremamente repelente e a evitar o mais possível. As pessoas têm uma espécie de orgulho orgânico, o seu programa é como uma necessidade fisiológica, ou uma dor forte, que interrompe o pensar.
Julgam que primeiro actuam (que isso é o mais urgente) e que depois pensam (que hão-de ter ocasião de pensar a posteriori). Que a sua actuação é a certa; e mais tarde justificam-se retroactivamente apresentando isso como uma opção consciente tomada antes, a priori.
Os indivíduos são touros tristes toureados por si próprios na arena do seu desejo e prazer; e sangram. Mas excitam-se imenso com esse masoquismo imparável. São auto-flagelados. Há toda uma erótica da flagelação, que pode até ser a flagelação da erótica, naturalmente.
Entretanto, e para quem quer pensar, as constantes interrupções, por mensagens sonoras e telefonemas para o(a) nosso(a) interlocutor(a) privilegiado(a), interrompendo a privacidade a qualquer hora com alguma desmesura (para não dizer falta de elegância, como se as pessoas vivessem sozinhas, o que ainda não acontece com todos) não facilitam nada.
Nas quadras festivas, em particular, a comunicação atinge o paroxismo: repetição do mesmo ao infinito, e eco do vazio, da falta absoluta de cada ser, iterativa até à náusea.
Esse vazio é imprescindivel, seria imprescindível, justamente, para pensar: mas as pessoas querem preenchê-lo compulsiva, neuroticamente.

Estamos assim condenados sem remissão a uma tremenda escolha: estar com o(s) outro(s) e não aprender a pensar, abdicando da vida, ou tentar aprender a pensar, abdicando de certo modo do outro.
Contemplar ou mergulhar no quotidiano; e, em alternativa, passar de espectadores (consumidores) a autores (actores) e tentar, desesperadamente, pensar, quer dizer, repensar o já pensado. Produzir alguma coisa que mereça atenção e publicação.
Repensar o já pensado, mesmo com a intransigência do indivíduo determinado, implica o afastamento da vida vulgar durante a maior parte da vida. É uma obsessão e um enorme prazer, mas também é uma certa morte do(s) outro(s) em nós.
Pensar realmente é tentar eliminar toda a contingência previsível (rituais, visitas, encontros, contactos mais ou menos indesejados), para apenas nos entregarmos nas mãos da contingência imprevisível, sempre rodeada de silêncio, e no meio dela encontrar espaços de pensamento.
É muito duro, tentar pensar realmente. Implica uma enorme força de vontade.

Pensar não é só ler: é deixar tempo para as entre-linhas, para poder dormir um pouco quando os olhos ardem, para olhar a sala ou as estantes ou o mar ao longe. Pensar às vezes é adormecer de cansaço, escrever o texto em sonhos e acordar espavorido na vontade inútil de pôr esses fragmentos de que nos lembramos num contexto que faça sentido na vigília, que seja transmissível aos outros pela linguagem.
Pensar (as condições para tal) passam depressa como os dias. As cores do pensamento envelhecem como as folhas do inverno. Às vezes olhamo-las, e estão amarelas e brilhantes, ou vermelhas. E exaltamo-nos. E depois de repente caem no cinzento, e temos de nos contentar com a estética baça do frio, em que nada se espelha já, ou esperar pela noite, em que há a esperança, apesar dos ataques de sono, de ninguém nos vir finalmente incomodar. De podermos acender as velas, sem receio de incêndio.
As velas, no seu tremelicar, são as companheiras do pensamento. E as jarras de flores secas que elas iluminam. Como um corpo irrequieto, o pensamento deambula então entre velas e jarras, à procura de si próprio, ansioso por capas e lombadas, por citações e por palavras, sobre as quais vai erguendo o edifício sempre precário que é ele próprio.

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Foto: Ernesto Timor
Fonte: http://www.ernestotimor.com/pages/_01_unfixed00.html

Aos meus estudantes de todos os graus


O meu colega russo:

Dr. Vladimir I. Ionesov Chairman, Samara International Society for Cultural Studies, PO Box 3004, RU - 443099 Samara Russia

que esteve em Setembro de 2006 no XV Congresso da UISPP em Lisboa (na foto acima, a qual, juntamente com a outra, teve a gentileza de me enviar, é o primeiro a contar da esquerda) pretende publicar, e passo a citar em inglês:
"We are going to publish the international collection of students' articles on theme "Cross-Cultural Education in Changing World". And I am much interested to have some articles from students of your country in this collection."
Alguém quer colaborar nesta obra?
O contacto é:
Tel./Fax: 7 846 279 00 27
E-mail: ionesov@mail.ru

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4 Setembro 2006. Congresso da UISPP. VOJ, então ainda presidente da UISPP a convite do actual Secretário Geral Prof. Luiz Oosterbeek, acaba de pronunciar a sua conferência sobre as arquitecturas da Europa Ocidental pré-histórica no anfiteatro grande da FLUL (que frequentou nos anos 60 como aluno). Foto: Vladimir Ionesov.