quarta-feira, 5 de setembro de 2012

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Gonçalo Leite Velho
Adjunct Professor na empresa Instituto Politécnico de Tomar · Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra · Tomar
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sexta-feira, 31 de agosto de 2012


NOTAS BREVES EM TORNO DA QUESTÃO “MUSEU”


“Museu”, e o incomensurável conjunto de coisas/conceitos que lhe andam associados, tornou-se hoje uma palavra-passe para tudo o que saíu do circuito da produção/consumo directos e passou para outra esfera da produção/consumo, o da chamada “cultura”, ou bem imaterial.
Isto significou obviamente uma extensão laica a bens de contemplação por parte de uma economia capitalista cujo motor é a permanente “inovação” e absorção de exterioridades.
A cultura, a memória, a identidade, a contemplação, o lazer tornaram-se valores/bens essenciais de uma sociedade hedonista e consumista baseada na constante, invasora, sensação de perda.
Ao subjectivarem a perda, isto é, ao sentirem-se confrontados com o seu próprio vazio pessoal, que decorre da perda de referências/valores/projectos permanentes de carácter tradicional/transcendente (com a correlativa valorização do imanente, e, nele, do imediato e do “prazer”, se não mesmo do seu excesso, o gozo) os sujeitos tornam-se obsessivamente desejantes (buscam satisfação no que ainda não têm). Este pano de fundo é o “caldo de cultura” onde medra a cultura/ideologia museográfica.
O museu, nas suas inúmeras variantes, de todos conhecidas (do museu local ao grande museu “imperial”, do museu monográfico ao generalista, do pequeno estabelecimento/equipamento ao grande parque de diversões/entretenimentos para todas as idades, etc., etc.) tornou-se a outra face da moeda de uma indústria altamente tecnológica, sofisticada, que rapidamente torna obsoletos equipamentos/espaços/dispositivos anteriores.
Mas como esta cultura tem horror ao vácuo (vive no trauma da perda de memória), o que não deita ao lixo incorpora no museu. E quantos “museógrafos” e patrimonialistas se queixam permanentemente (como seu sintoma constante) do que já se perdeu, ou seja, do que depois de utilizado/consumido não foi devidamente reciclado numa outra forma de valor. O discurso do museu e do património é o discurso da queixa da perda, seu sintoma obsessivo, outra face da moeda do capitalismo, sistema que se baseia na permanente captação de mais-valias: força de trabalho, recursos naturais, recursos de carácter imaterial, ou seja, a cultura.
O museu está, é claro, intimamente ligado a uma das grandes indústrias da cultura, a da viagem/turismo, com as suas correlativas ideologias de “volta ao passado”, visitação/fruição de “espaços fora do espaço e do tempo”, ou seja, a uma economia do sonho. Mas esta venda de sonhos é tudo menos imaterial, está claro, pois ela movimenta quantias avassaladoras e é a alavanca, o atractor, de muitas outras formas de obter lucro.
Por isso a falta de confiança no futuro e a perda de crédito da classe média são problemas económicos não de “crise temporária”, mas ajustamentos estruturais do próprio sistema capitalista.
Este está a desmantelar os últimos vestígios da “coisa pública” (gastos do Estado-providência, baseados no pagamento de impostos/retenção de partes do rendimento de cada um como forma de sustentação de um estado-pai benfazejo”, isto é, de um serviço público não baseado no lucro) e a substituir o comando da vida por um sistema volátil de compadrios circunstanciais que permitem a ascensão súbita de grandes fortunas/multinacionais e levam a maior parte da população do planeta à proletarização e à miséria.
Neste sistema, as pessoas, tanto funcionários públicos como privados, tornaram-se potencialmente excedentárias. O sistema precisa apenas de refinada tecnologia e de especialistas nela, seja no domínio da investigação biológica, seja no da informação ou outro qualquer. Os empregos vão sendo substituídos por projectos, por ocupações “flexíveis” e temporárias, e o Estado actua cada vez vez mais como um fiscalizador frio, inflexível, não como o pai bondoso mas como o tirano de face sorridente e sedutora de tipo “outdoor”.  Obviamente que as máfias no poder têm a sua corte de servidores, potencialmente em permanente reciclagem. Digamos, sem exagero nem nostalgia, que o velho serviço público se transformou, pouco a pouco, numa sua caricatura proletarizada e prostituída. Não tem dignidade, nem ninguém acredita nele, qualquer que seja a força política que esteja à frente de um processo totalmente des-territorializado, onde os factores determinantes são internacionais.
O museu é a outra face desta situação. Transformado em local de lazer, com lojas, sítios de restauração, ou como pólo de “aventuras” (percursos, caminhadas, rotas, etc., numa palavra, entretenimentos), o museu faz parte as indústrias da cultura que, de uma maneira geral, na sua própria proliferação, levam os sujeitos à fragmentação. Fragmentação e fatiação e interesses/experiências, num desejo sem fim de as acumular, proporcional ao desencantamento geral e à frustração inerente a cada experiência.
Porque de facto o que está em curso é a transformação das condições subjectivas da experiência. O museu proporciona uma experiência “sem tempo”, fora do tempo (contacto com o “passado”) que é contraponto da “falta de tempo” que as pessoas (quando ainda activas, quando desempregadas/reformadas sem recursos culturais anteriores a desmotivação será outra) efectivamente têm na “vida real”.
Posto isto (e para além da constatação “pragmática” de que não vale a pena uma actuação voluntarista contra um sistema cuja força e cujas coordenadas estão muito para além do esforço individual ou de grupo), a pergunta é: vale a pena continuar a pensar a questão “museu”? A resposta é obviamente sim.
Não podemos eximir-nos de pensar.
Toda a gente pensa, o que se passa é que muitas pessoas, a maior parte, não dispõem do equipamento crítico, do tempo/espaço de distanciação para poderem avaliar a sua própria situação. Estão, para retomar um velho conceito marxista, alienadas.
Como sair da sociedade do entretenimento, de que Hollywood é, por exemplo, uma das mais poderosas máquinas ideológicas, como subtrair os jovens à influência contaminante dos jogos de computador e produtos semelhantes que são a própria corporização destas metástases?
Isso é que é importante perguntar.
Porque o que é próprio do capitalismo recente, sobretudo depois da queda do muro de Berlim e da percepção plena de que o “socialismo real” foi um logro, é a atitude fascizante de que é impúdico, mesmo, pensar criticamente o capitalismo, designar este sistema por um nome, articular a ideologia que nos impregna com as formas mais elementares e óbvias de vida.
Não, nada disto é natural e inevitável.
Sim, tudo isto pode e deve ser pensado, na exacta proporção de que não é aconselhável pensá-lo, ou então de que se pode fazer tal em privado e nunca em público. Na exacta proporção de que o sistema nos diz “não vale a pena ir por aí, não adianta nada”, vale a pena estar atento e, sem querer precipitar acções, estar atento criticamente e preparado para algo que algum dia há-de acontecer, fazendo-nos voltar a acreditar que a história não acabou.
E que o que hoje chamamos “museu”, a outra face de uma vida escrava, será diferente, e não o lugar da evasão, mas o lugar de uma vida mais plena, compartida, desinteressada.
É óbvio que estas notas têm de ser muito desenvolvidas e que elas próprias traduzem, ainda, muita insuficiência da minha parte. Mas foram escritas em meia-hora. Não se eximiram ao tempo contado que é o nosso, hélas.


voj agosto 2012

quarta-feira, 2 de maio de 2012

Pergunta

Paradoxo contemporâneo: o "sistema" alimenta-se dos protestos, das denúncias, das reflexões, das explosões de fúria contra ele. Necessita deles, deglute-os, diverte-se com eles. E cresce, mais forte, por causa deles, graças a eles.
Mas se não se "protesta", se não há revolta (a revolução é hoje um pensamento/acção mais difícil...mas há sempre que contar com o inesperado), o sistema também sobrevive, talvez mais monotonamente, mas sempre abusando cada vez mais dos muitos mais fracos a favor dos poucos privilegiados, dando passos programados e maquínicos no processo de controlo e na asfixia da maiores dos seres humanos, condenados à miséria da sobrevivência ou ao desespero da infelicidade e do desamparo. Então, que fazer? Voltamos sempre à velha pergunta: que fazer? Mas em nome de quê, em nome de quem, se ergue uma voz, agora que já não temos nenhum teologia ou ateologia em que nos refugiarmos, uma unidade coerente de princípios em nome da qual lutarmos com a convicção ingénua de outrora? Agora que nos sabemos dentro do jogo, sustentando o jogo, mesmo quando o contestamos? Tudo nos soa a falso, a flop. Todos em última análise se refugiam nos seus últimos redutos, pequenos ou grandes, para sobre-viver. A ideia de comunidade põe problemas. Como fazer, como pensar, como ter esperança ainda?... Como viver? É o salve-se quem puder? São as pequenas acções humanitárias? São as boas intenções cristãs, caritativas, travestidas de moral social? É o amor ao próximo? É a obsessão da protecção dos animaizinhos indefessos e abandonados? É o refúgio na meditação dita oriental? A confusão das formigas permite aos gestores do mundo continuar o seu modo de vida confortável e cínico. Como deixar de ser formiga? Como deixar de ser submisso sem ser carnavalizado como palhaço ou ridículo impotente? Como ser de facto um agente de transformação? É nas grandes coisas/causas? É na subversão das pequenas coisas do dia a dia? É na fé missionária do convencimento porta a porta? Quem houve quem e quem fala em nome do quê? Há muito barulho. Muita agitação. Muita gesticulação. Muito exercício físico. Muito jogo, e no fim a sensação de que nada de palpável ficou. Onde está a nossa dignidade individual e colectiva? Que ética seguir? Que autores ler? Onde está a fractura que nos põe perante a decisão, a loucura necessária, a precipitação responsável? Num mundo brutal e mau, de baixíssima qualidade, onde estão ainda as pessoas por que aspirámos? Cada uma na sua toca à espera que a tempestade passe? Como pensar ainda no meio disto tudo, sem que esses nichos de pensamento sejam formas de elitismo e de capitalização de minorias, tais como as minorias do dinheiro? Como partilhar, o quê e com quem, como sair do esquema da produção, da submissão, da prostituição quotidiana ao império do dinheiro e dos poderes, do cálculo, da manobra, do xico-espertismo de todos os matizes, em suma, do que convencionamos designar capitalismo, sem entrar nas ilusões neo-liberais ou nas ingenuidades bem intencionadas? 
Como recuperar a dignidade? 
Num mundo onde não há respostas, nem soluções "prontas a vestir" à vista (pelo menos à nossa vista), nem ilusões já, é aí, paradoxalmente, nesse deserto, que temos de inventar a solução. Pensar, viver, voltar a pensar, partilhar, escutar, incondicionalmente tentar ir ao coração das coisas sabendo que cada um de nós só pode viver neste constante paradoxo: para escutarmos uma pessoa como deve de ser, temos de calar o resto do mundo que às vezes nos apela. Esse paradoxo, sim. Máximo amor, máximo rigor, como Artaud quando falava de crueldade. Determinação em não querer ir na onda. É ainda possível ser assim?... não espero que alguém (O Salvador) me responda, está claro. Só desejo perguntar. 






Um autor que sugiro para estes temas: Jacques Derrida.


voj

quinta-feira, 19 de abril de 2012

Conferência em Coimbra, por Vítor Oliveira Jorge (resumo)

Coimbra, 5 de Junho de 2012 – conferência (resumo)

A arqueologia do ponto de vista do pensamento crítico contemporâneo: alguns tópicos

por

Vítor Oliveira Jorge

Professor catedrático aposentado da Faculdade de Letras da Universidade do Porto; investigador do CEAUCP

Creio que a publicação, em 2004 (Londres, Routledge), do livro “Archaeology and Modernity”, pelo meu colega Julian Thomas, da Universidade de Manchester, marca uma importante ruptura com as reflexões anteriores, mesmo dos autores ditos “pós-processuais”, percebendo que a renovação da arqueologia e da teorização da sua prática tem de se compreender “de fora” da disciplina. A arqueologia é um produto da modernidade, e esta tem sido analisada e pensada por numerosos autores que não podemos ignorar, e que continuam a aparecer constantemente. Muitos desses autores não se apresentam propriamente como “filósofos, ou teóricos desta ou daquela área do saber, mas questionaram a própria maneira como a produção do saber costumava ser questionada/teorizada. Ou seja, pensar a arqueologia hoje é uma tarefa muitíssimo mais exigente do que há algumas décadas. Implica uma postura de inter e transdisciplinaridade radical, muito difícil de conseguir, porque obviamente se tem de partir dos problemas da arqueologia e, ao mesmo tempo, conseguir vê-los a partir de fora, como se não fôssemos arqueólogos. Exercício quase acrobático, porque o discurso arrasta-nos sempre para o senso comum vigente. É isso que se pode considerar uma postura crítica, absolutamente básica para se conectar a arqueologia com o conhecimento contemporâneo e para lhe permitir o diálogo com as grandes questões políticas, filosóficas, científicas que se nos colocam na era pós-moderna do capitalismo financeiro neoliberal.

Falta talvez fazer qualquer coisa como um livro chamado por exemplo “Arqueologia e Pós-Modernidade”, prolongando a obra de J. Thomas, e entendendo por pós-modernidade uma palavra convencional que designa o facto de, não se tendo cumprido muitos ideais da modernidade, estarmos numa época em que o ideário do mercado, do empreendedorismo, das sociedades de controlo extremamente subtil e invasor corta com esse próprio ideário da “primeira modernidade”. Sem conhecer (o que não significa subscrever, é óbvio) as reflexões de pensadores como, por exemplo, Jacques Derrida, Giorgio Agamben, ou Slavoj Zizek, entre imensos outros, é minha convicção de que não só não percebemos o mundo em que nos encontramos, como não entendemos por que razão a universidade continua a legitimar (e a legitimar-se) numa visão da história que é anacrónica, enganadora, diria mesmo perigosamente conservadora, e que, reflectida em arqueologia (ainda muito enfeudada à prática histórica) leva a uma situação de impasse entre as indústrias do património (que vendem às massas um passado domesticado), os trabalhos de pesquisa por projectos curtos (tipo mestrados/doutoramentos de Bolonha, etc) que em geral produzem mais do mesmo à pressa, ou o trabalho empresarial na sua maioria preso à mesma lógica de “curto-prazismo” própria do sistema em que estamos mergulhados. Mas a história não parou, nem muitos de nós, seres humanos, se recusaram a pensar para fora das fronteiras deste horizonte imperial que se pretende apresentar como natural, indesmentível, inequívoco, quiçá eterno. Sem cair na pressa das soluções rápidas, que se situam na mesma lógica e portanto se sujeitam à carnavalização do adversário, há que ousar pensar uma nova arqueologia para uma nova forma de comunidade que, por vias travessas talvez, é uma comunidade que há-de vir.

O pensamento crítico contemporâneo coloca os problemas radicais que são os que podem motivar uma arqueologia adulta, liberta da tutela da história narrativa, sequencial, teleológica, legitimadora de uma concepção do tempo banal e retrógrada, como já Walter Benjamin apontou.

quarta-feira, 18 de abril de 2012

Nótula... já não me lembrava de que tinha escrito este apontamento






in "O Arquitecto Paisagista. Conceito e Obra", Lisboa, Associação Portuguesa dos Arquitectos Paisagistas, 2007, pp. 25 a 27.

(a nota aparece também no livro em versão inglesa)