sexta-feira, 2 de março de 2007

Troley Bus


Foto: Evita Alle

O sinal está verde e o troley aproxima-se. Vem apanhá-la. Lá dentro os passageiros já sabem o nome da próxima paragem ignorando quem se aproxima. Ao frio, ela espera pelo que a irá levar ao reencontro com a cidade.
O verde já não mora aqui. A neve transformou-se em lama negra. Parece-nos sujo. É normal.
As botas esguias elevam-na de tudo isto e colocam-na no patamar das suas ideias. O sonho mora ali.
Não nota sequer o olhar voyeur, ou finge que não o nota de modo a retribuir o elogio. Nas mãos moram já os vinte centims, preparados para a senhora que guarda a viagem. Também ela era assim. Agora refugia-se no seu agasalho forte. A companhia é agora o seu partido.
O 19 irá continuar em breve o seu percurso. As Ielas que se sucedem misturando-se com avenidas, as palavras que se embrulham em várias línguas. Depois da ponte que atravessa o rio gelado está a cidade antiga e é aí que ela sai para...
O troley pára. As portas abrem-se, ela olha para cima. Está na hora de entrar. Fá-lo num movimento rápido apoiando-se nas botas finas. Segue viagem. Não mora aqui. É a vida...

quinta-feira, 1 de março de 2007

In London



Ta ir Riga



Foto: Evita Alle

Olhando da janela do troley contempla-se Riga. Como todos os dias cruzamos a margem, para trabalhar do outro lado. A senhora de chapéu vermelho contempla o vazio de costas para a cidade. O rio gelou e a neve está por todo o lado. O troley faz o seu caminho anunciando as paragens: "Nakama Pietura...". Estamos a chegar. A realidade do dia-a-dia não se conforma com os mitos. O vodka é para os Russos (algo que em Letão é pouco abonativo, pois os russos são os mal-educados, espalhafatosos, excessivos, algo que condiz mal com o modo de ser recatado da Letónia). Está frio e em Celsius estão graus negativos. Mas no interior do café, ao sabor dos crepes, está sempre quente. É sempre assim no interior das casas. Está sempre quente e as pessoas usam sorrisos nos lábios. Por vezes devem correr-lhes lágrimas, mas essas tendem a guardá-las num baú qualquer (chamam-lhe intimidade). Os dramas e as comédias são coisas do cinema. A vida não é assim. Não é dura nem fácil, é.
É a vida...


(este post foi despertado por um post do Vítor que está mais abaixo e de uma imagem que ele lá constrói em que fala de um autocarro e que me despertou a memória desta foto).

Conceptual myths - the common human body


Quoting from (a very interesting author) C. Tilley ("Phenomenological Archaeology"),
in Colin Renfrew's and Paul Bahn's (very useful) book:
Archaeology. The Key Concepts
London, Routledge, 2005, p. 203:

"The human body itself (...) provides a starting point for knowledge of the world, and all modern human beings (Homo sapiens sapiens) have the same kinds of bodies and perceive and experience the world in similar ways at a basic biological level. This is what links past and present, me and you, us and the people who constructed the ancient monuments or made a pot."

Although, the same author adds a very important point: that an essentialist "notion of a universal human body" would be meaningless.
I agree with this last and useful precaution. In fact, to universalize the "body" as a "basic biological level" would be one of our latest myths in archaeology, anthropology, or whatever.

When Maurice Leenhardt (beginnings of the XXth century) asked Boesoou (New Caledonia) what the Europeans had given to the local people, expecting as an answer "the spirit" or something of that kind (Leenhardt was a missionary and an anthropologist), his surprise was great when that answer was: "You have brought us the body." (See S. Breton et all, "Qu' Est Ce Qu'un Corps?" catalogue of the exhibition now open in the Museum of Quai Branly, Paris, 2007, p.13).
Now, shall we impinge "the body" on the prehistoric people? They can not answer except through our own precaution.

letónia

no inverno, quando os palácios do extremo norte da europa se deixam afundar na neve, as pessoas perdem as referências espaciais, e deambulam à procura das ruas e dos edifícios públicos.
mesmo para irem para casa, ou visitarem um amigo, têm de fazer sulcos profundos na brancura do solo, para reencontrarem as rotas. não vale a pena traçarem sinais nas árvores, porque estas estão tão adormecidas que qualquer rasgão no tronco, mesmo que feito por faca afiada, seria de imediato devolvido ao seu negrume.

por outro lado, o inverno coloca estes países ainda mais ao longe, com as suas imagens ora mais nítidas, ora mais mais esbatidas, mas sempre a pequena escala. o ânimo de querer lá chegar esgota-se logo na sua visão.
são igualmente inacessíveis aos habitantes locais, que têm de se reduzir a mapas e a bilhetes postais, à sua contemplação cuidadosamente organizada em álbuns, para se sentirem a habitar um espaço, para fazerem um lume, enfim, para se juntarem a todos os animais que hibernam até chegar de novo a primavera.

há também a mudança de cor das fachadas, que dantes eram sulcadas pelo brilho dos cavalos, pela sonoridade das vibrações metálicas dos nobres e da soldadesca que os guardava.
agora, há muito que tudo isso parou. não há vida; e as próprias tintas das paredes esmaecem, como se diluídas no olhar lacrimejante, que é o olhar do frio.

por isso, para derreterem os cristais de gelo que durante a noite se aculumam nos olhos e na língua, as pessoas bebem logo ao amanhecer um copo de álcool branco, quase puro. e depois vão para o exterior à procura dos caminhos.
a vida só não é perigosa porque não há lobos à solta. estão domesticados.
passam de noite em autocarros muito iluminados, cada um olhando pela janela do seu assento, compondo as peles que os atabafam no pescoço.
alguns são fêmeas que vão a bater as sobrancelhas, num assomo de coquetterie.
mas os trilhos que deixam estes veículos sonâmbulos são logo apagados do solo, de modo que cada manhã nasce sempre indecisa, e com uma cor muito parecida com a do dia anterior, e com a da própria noite.


voj 2007
Foto: Evita Alle