Visita a Stonehenge setembro 2017: alguns momentos e aspectos
Transferência "(...) A PSICANÁLISE INVENTOU DE FACTO UMA NOVA FORMA DE AMOR CHAMADA TRANSFERÊNCIA." JACQUES-ALAIN MILLER (Lacan Dot Com)
quinta-feira, 14 de setembro de 2017
Sobre a toxicidade e a comunidade por vir
Como é bem sabido, nos anos 30 do século XX, o pensamento capitalista começou a desenvolver novas possibilidades de resolver as “crises” intrínsecas ao seu sistema. Uma dessas possibilidades foi a neoliberal, hoje dominante, e que se viria a consolidar no Colóquio Walter Lippmann, de Paris, em 1938, organizado por Louis Rougier, colaborador do governo de Vichy. Conhecidos ideólogos desta “solução” (alternativa tanto em relação aos ensaios nazi-fascistas, como às democracias formais típicas do mundo burguês- “Estado social” - , nomeadamente no após-guerra) foram o alemão Rustov, o austríaco Hayek, etc., juntando-se também a todo este “ovo da serpente” a criação em 1947 da “The Mont Pelerin Society”, à qual se ligou, por exemplo, o filósofo Karl Popper. Era todo um programa anti-keynesiano, anti-soviético, anti-progressismo terceiro-mundista. Basicamente tratava-se de fazer face, radicalmente, a qualquer veleidade de socialismo (ou seja, de democracia no seu sentido mais amplo). Nesta corrente tornou-se dominante, a partir dos anos 60, a chamada Escola de Chicago, com a figura ”carismática” de Milton Friedman à sua frente. É este programa ideológico que vai sustentar toda a teoria e prática do neoliberalismo, desde Thatcher, Reagan, terceira via do Labour com Blair, etc., num ataque muito violento aos direitos laborais e sindicais, e, por extensão, na erosão da própria classe média, ataque esse consubstanciado ultimamente nas políticas europeias dominadas pela financeirização, e impostas aos países do Sul do continente, como Portugal. Trata-se de uma forma inédita de concentração do capital, em que a “austeridade” e a ideologia culpabilizante da “dívida” são criadas e impostas por entidades superiores aos estados, para, basicamente, extorquir às populações o seu rendimento concentrando os benefícios numa minoria. Aspectos mais moderados deste programa, ou até as suas próprias oscilações (é bem conhecido o carácter adaptativo e dinâmico do capitalismo) não chegam para esconder aos olhos de cada vez maior número de pessoas que o sistema neoliberal não é um sistema “amigo” delas, da sua qualidade de vida; é antes um sistema tóxico, produtor de crises e de catástrofes, as quais são inevitáveis.
Como imaginar uma solução para tão sistémico e globalizado problema? Não existe uma solução: essa inexistência é precisamente uma das suas características: o fechamento do horizonte das alternativas.
Apesar disso, a obscenidade do sistema, corporizada nas “maneiras” de proceder (e temíveis consequências) de muitos líderes, é patente; também existe ainda a possibilidade de pensar, para algumas pessoas que têm tempo para isso. Essas pessoas têm uma responsabilidade acrescida. Perder o medo de pensar serena mas radicalmente para fazer face, e aproveitar brechas, antes de tudo ao nível da consciência alienada dos cidadãos, em que se apoia um sistema totalitário de cariz novo, porque radicalmente doentio e anti-humano, dispondo de sistemas de entretenimento e adormecimento dos afectos colectivos como nunca até aqui se tinha visto, e que nos pode conduzir à catástrofe global. Nunca foi tão importante como hoje pensar, abrir os olhos, fazer ver. Pois a insatisfação de muitos, sem objetivo nem ocupação, leva-os precisamente ao desespero perigosíssimo do despeito, do suicídio, do terrorismo, do radicalismo das ações criminosas, que são hoje uma fonte de inquietação permanente, de mal-estar, desconforto, insegurança, corrupção, suspeita mútua, etc. O neoliberalismo cria a fragmentação dos indivíduos, pois que um dos seus inimigos é a noção de comunidade.O neoliberalismo é a outra face de todos os extremismos, incluindo o terrorismo urbano, que pode explodir em qualquer lado e em qualquer lugar. Ninguém está seguro neste mundo agressivo, extremamente maquínico. Alguns invocam o “humanismo”, ou o regresso a uma política mais distributiva, não vendo que isso é hoje em dia, a prazo, praticamente impossível, que essas visões da realidade foram ultrapassadas pelo pensamento e prática capitalistas globalizadas, que a própria religião não passa de uma organização piedosa, mas que nada pode fazer de estrutural pelas pessoas, a não ser dar-lhes um conforto moral temporário que vai permitindo, nas suas costas, a progressão do cilindro compressor... e assim, perversamente, dizendo coisas importantes, vai em larga medida sendo cúmplice de uma situação opressora e injusta.
Este o imperativo ético do presente. Acordar, fazer o esforço de pensar. Escolher muito bem as fontes de informação e tentar atuar. Não se trata de enfrentar uma realidade global com as mesmas armas que ela tem, e são poderosíssimas, tanto as visíveis como as invisíveis.
Trata-se de criar comunidade. Porque a maior parte das pessoas são generosas quando chamadas pelas circunstâncias que pedem solidariedade. Mas são atitudes pontuais. Em pano de fundo persiste a ideia de “cada um por si”, que tanto leva alguns à glória, muitas vezes súbita e fácil, como a maioria à progressiva deterioração da dignidade humana.
Trata-se de tentar fazer perceber que é preciso uma sociedade não voltada para o lucro, para a posse, para o êxito individuais, mas tudo ao contrário, uma sociedade que se mova pelos valores da cultura, da educação, da partilha, da hospitalidade, da felicidade, do bem-estar, que não passa pela posse de bens, mas pela posse de uma consciência tranquila. Utopia? Sim. Mas uma utopia motivadora de um possível mundo salvador, ou pelo menos menos criminoso, mais saudável, versus uma outra utopia, em que estamos imersos, e nos conduz à desgraça.
voj junho 2017
MUSEU: UMA NÓTULA
Muito esquematicamente, e para quem nunca se abeirou destas questões:
Museu pré-moderno - basicamente constituído pela coleção, obtida de forma aleatória, em que o que une os objetos uns aos outros é a personalidade, o gosto, as obsessões do colecionador. Elemento de prestígio e gosto pessoal, o museu é um repositório de curiosidades sobrepostas, de raridades surpreendentes, de provas de viagem e de conhecimentos exóticos ou esotéricos, de objetos estranhos ou raros da “natureza” ou da “cultura”, convivendo lado a lado. As peças podem estar identificadas pela sua origem, região, eventualmente data de obtenção, mas a sua disposição espacial não obedece senão a critérios qualitativos, subjetivos. É a sobreposição. Estes gabinetes de coisas raras e “maravilhosas” nobilitam quem os possui e pode mostrar aos seus convidados: o museu foi sempre (e ainda hoje é) um elemento de prestígio, ligado à canonização de objetos, frequentemente associada a um culto, a um fetichismo: poder ver de perto o diferente, mesmo que através de um vidro, ou mesmo poder tocar-lhe sensualmente, ter esse privilégio da manipulação, etc. Mas nesta fase o museu está muito ligado à experiência de uma pessoa e de uma elite, que se distingue pelo seu gosto pelas antiguidades, raridades, ou coisas exóticas e estranhas: trata-se de um processo de nobilitação pela posse do acessório.
Museu moderno – o museu moderno obedece a critérios totalmente diferentes, à racionalização pública e universal, tanto do espaço como do tempo. As coisas depostas e expostas são para usufruto potencialmente de todos, ordenadas segundo taxonomias, cronologias, toda uma grelha que instaura um discurso universal de organização, de ordem estável. A coleção serve agora a identidade: de um país, de uma região, de uma atividade, etc. – serve para fixar essa ideia de conjunto e de essência. Mostrar, através de objetos, um poder que já não é o das curiosidades reunidas, mas o do domínio racional e imperial do mundo. O museu é um dispositivo de poder político. Ele fecha, canoniza, guarda e cuida do raro, do valioso, mas para o expor aos olhos do público maravilhado, dos cidadãos que ali reconhecem qualquer coisa de seu (ou do outro), ou seja, a confirmação de uma ordem, de uma estabilidade, de um progresso da história humana, assente num determinado território. Tudo devidamente etiquetado, contextualizado, hierarquizado segundo princípios racionais. O museu é, como a cidade com as suas lojas e montras espetaculares, um dispositivo de exibição, de encenação, ligado ao culto moderno da “Cultura” como elemento nobilitador e elevador social, da viagem, do domínio colonial, etc. Neste tipo de museu é fundamental a coleção permanente, que conta uma história, tem uma narrativa organizada que conforta, informa, e reforça o sentimento de pertença a uma comunidade.
Museu pós-moderno – este museu desconstrói o anterior: a sua racionalidade é de novo a sobreposição, mas a sobreposição do contingente, do fluido. O valor é agora o que circula, a pós-modernidade detesta o fixo, o permanente, tal como o capital: parado, não rende. É preciso substituir o programa identitário, permanente, por projetos que se sucedem, o modelo pela série. O museu pode manter uma coleção permanente de referência, que eventualmente o tornou conhecido como lugar de culto, mas não é tanto dessa aura e dessa contemplação silenciosa que multidões do turismo de massas vão à procura. A excitação substituiu o saber. O que importa é o novo (como nas televisões o “direto”...) a excitação juvenil do surpreendente. E vai-se de sensação em sensação, porque é o divertimento, e não a contemplação, que verdadeiramente interessam à sociedade hedonista. O museu torna-se lugar de eventos, de permanentes reformulações, de identidades compósitas e fluidas, como as dos próprios indivíduos pós-modernos, capturados pelo consumo e pela ideia de escolha individual (a partir de um número calculado de combinatórias elementares, é claro). Cultura é tudo, e por isso há museus de tudo, mesmo do imaterial: o que importa é o espaço em si, destacado do mundo exterior, mas na realidade sendo, como sempre, o seu reverso. O que se vai ver não são só as peças, as instalações, mas também os outros que estão lá para ver, para circular. A figura do curador de exposição substitui, no seu protagonismo, o do antigo diretor ou do seu staff. Eles existem, mas cada exposição é por assim dizer uma obra de arte, e é ela que atrai público, e portanto rende financeiramente em termos de bilheteira. O museu é uma máquina de fazer dinheiro. Lugar de eventos, preenche o seu vácuo através desta movimentação e mobilização constante dos indivíduos.
voj julho 2017, loures
quinta-feira, 4 de fevereiro de 2016
Subscrever:
Mensagens (Atom)











