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sexta-feira, 30 de maio de 2008

The Story of Stuff




Críticas politicamente correctas... é o que está a dar!



Source: http://youtube.com/watch?v=ucMJ32-xp64

quarta-feira, 21 de maio de 2008

desperdício


Quando tinha 15, 16, 17 anos, eu queria compreender o mundo, encontrar uma explicação que a educação religiosa me tinha negado (pela des-ilusão).
Podia ter tirado um curso de filosofia, ou seguir a literatura, "coisas" para que tinha jeito.
Mas, pensar o quê, escrever o quê, sem da experiência da humanidade nada saber, senão através dos livros, de forma diferida?
Pensei então na história, na arqueologia que para mim ia mais fundo e mais longe do que a história tal como era então ensinada, para me aproximar disso que me interessava, envolto em nevoeiro.
Toquei a terra (eu, um citadino que nunca se queria sujar), os materiais, aprendi a descrevê-los e a pô-los em caixas conceptuais, e um dia perguntei-me: que significado tem isto? O ser humano não está aqui. Isto está vazio de ideias. É um arquivo morto, morto, morto.
E voltei sempre à literatura, nos poucos tempos livres, sobretudo à poesia, que é para mim o cerne da literatura e da arte, e, sempre que pude, à filosofia.
Mas qual filosofia? Sei e sabia que ela é um mundo difícil, onde uma pessoa se perde e raramente se encontra (só poucos conseguem passar da fase de absorção à fase de produzirem algo de próprio), sobretudo se for muito "arrumadinha", muito "metodicozinha": um dia acorda e está numa camisa de forças conceptual. Sabe elaborar trabalhos perfeitos, dizer imensa coisa sobre o que os outros pensaram, mas onde está de facto o seu pensamento?...
Todos aqueles campos "disciplinares" são afinal bons ou maus, ciência, filosofia, arte, depende do que se faz com eles, da energia que temos em buscar nesse imenso arquivo a vida, em trazer as frases ou as coisas mortas à tona da vida sensível, ao que nos importa, ao que desejamos. AO DESEJO.
Esse acto é sempre um acto de transfiguração de cada um de nós como ser único.
A transfiguração é a coisa mais rara deste mundo.
A transfiguração é um fazer, com as coisas, com os outros, mas um fazer que dê origem a um resultado: é uma acção transformadora.

Tudo o resto na vida passa, é desperdício.
O espectáculo mais horrível não é só vermos os muitos, os muitíssimos que não têm com que se alimentar.
É vermos quase todos os outros, uma minoria privilegiada, também eles, a seu modo, a desperdiçar(em-se). Todos os dias. Incluindo eu, está claro.

Adiando o importante, com a boa justificação do urgente.
Desfazendo o encontro nos muitos desencontros dos dias, na fluidez da vida corrente. Adiando, negando o encontro com os melhores pretextos possíveis.
Esses são os verdadeiros "homo sacer" de hoje: os consumidores do lugar-comum. Ávidos do vazio que todos os dias avidamente procuram e desenvolvem, numa vida sem sentido nem projecto.
Mas como tudo é uma ilusão, e cada um de nós um fantasma (como diz Stiegler), e poucos ficam no panteão dos que verdadeiramente contribuiram para mudar qualquer coisa no que é essencial, no pensamento (mesmo que este só tenha impacte daí a séculos), who cares? Toca a viver a vidinha.








quinta-feira, 15 de maio de 2008

generosidade, ou OUTRA COISA ?

Faz falta. Faz-nos falta a todos.

Darem-nos alguma coisa, as coisas mais importantes: atenção e ajuda, ajuda dirigida especificamente àquilo que somos, ou pretendemos ser, na nossa particularidade. Mas que atenção e que ajuda? As palavras estão em planos escorregadios do senso comum, as frases arrastam-nos sempre para as poças do já dito, onde a água viva apodrece.


Cada um de nós vive num mundo rodeado de pessoas.

Mal se apercebem de que podemos ser úteis, rodeiam-nos, pedem-nos coisas, até nos oferecem prendas. Vêem-nos como uma espécie de fornecedores de serviços, sendo mais inteligente conseguirem-nos pela "afectividade" do que pelas simples "ordem" ou pedido eminente: quero isto, faça-me aquilo, preciso de tal coisa, etc. Seria falta de habilidade... ninguém é tão primário ou tão chato.

Vivemos num mundo funcional de serviços, em que cada um de nós é solicitado em função da utilidade que pode ter para algo que o interpela: desejo convidá-lo(a) para... etc.

Você sabe que é assim com cada um de nós, e cada um de nós já interiorizou o facto de que não é mais do que um serviço (ou conjunto diversificado de serviços, está claro), mesmo que seja um serviço afectivo, às vezes importante ou até salvador. Podemos até servir como fantasias para outrém, ou usar outrém como nossa fantasia.

A questão é: não haveria uma maneira de sair disto? É porque ISTO faz tudo parte do mesmo.

Não se trata de apelar a nenhum desusado humanismo ou humanidade perdida.
Trata-se de qualquer OUTRA COISA que eu ainda apenas sei configurar como um vulto.
Não há aliás nada de mais terrível do que absorver depressa, caracterizar na hora, chutar certo na baliza precisa, saber já, perceber logo: um mundo de funções. Máquinas sofisticadas, infantilização de engolir o que nos metem na boca, como aos bébés, e ainda por cima sorrir de felicidade.

Uma coisa que parece terrivelmente simples e óbvia, mas que é a mais difícil. Conceber fora do existente, do concebido e concebível, fazer, viver ao lado.

Pensar simples: e com uma pequena alavanca inócua, tentar mudar a forma de pensar, de fazer, de actuar.
É tal possível, no meio de tantos executivos e executantes, com o pensamento e o sentimento enforcado numa gravata psicológica, com o fato talhado à medida, vendo-se que estão a realizar a performance de si mesmos, essa descolagem?
É viável, no meio de tanta gente ávida? De tanto indivíduo atrozmente exposto no seu desejo, mesmo (e sobretudo) quando o disfarça?


Ao menos de vez em quando, será possível qualquer coisa OUTRA?


Não estou a falar das categorias habituais do amor, da amizade, do companheirismo, das relações de familiaridade/intimidade instituídas ou a instituir... é OUTRA COISA.

Generosidade, disponibilidade, mas não para isto ou para aquilo: disponibilidade só.
Começar a construir um mundo menos funcional.
É uma utopia?
Um entretenimento de ociosos?

Ou a atitude de quem começa a não conseguir respirar neste mundo maquínico, onde falta o ar - o ar que se respira não nos enche os pulmões, sufoca-nos. Vemos as pessoas aproximarem-se e já nos perguntamos:
que é que este(a) quererá agora de mim?

Cansa, isto.






terça-feira, 13 de maio de 2008

leituras e explicações



Ultimamente tenho tentado dedicar-me a leituras um pouco mais extensas e a estudos em campos novos para mim, mas que sempre desejei fazer. Por outro lado, as pessoas mais interessantes no meu próprio campo ou em domínios afins apresentam perspectivas e visões inesperadas, que uma pessoa tenta comunicar a outras.
E essas outras, mergulhadas na pressa que a todos nos "aliena" de nós próprios, pedem, quando eu estou a ser mais longo: "resume a argumentação mais sucintamente, vai directo ao assunto". Por vezes têm razão: não tendo senão ainda percebido a configuração geral do argumento, eu ando às voltas, impressionisticamente, para tentar cingi-lo, sem o conseguir verdadeiramente. Mas isto de explicar algo de forma rigorosa e concisa, sem ser redutor, é o mais difícil que há - todavia, as pessoas pedem-nos sempre o mais difícil. Por vezes, preguiçosamente, ou comodisticamente, não querem perder muito tempo, e ainda nos exigem a nós, que o "perdemos", que sejamos breves. É a injustiça da vida.
Mas há um ponto mais interessante.
É que há argumentações, ou ideias, que se forem menos bem resumidas se tornam outras. É a própria maneira de as enunciar, sem dúvida por vezes ainda titubeante, ou já mais afirmativa, o que as ideias são, e não items codificados de uma lista, ou de um diconário, de um índice.
Quer dizer, o modo como uma coisa se expõe, se dispõe, é a própria coisa, daquele ponto de vista. Dizê-la tipo telegrama, e-mail rápido, ou sms, é dizer já OUTRA COISA. Como é óbvio.
Por isso as pessoas pedem-nos não as coisas que pensámos ou sentimos, mas traduções rápidas, para a linguagem da pressa, daquilo que vive noutra temporalidade, respira outro ritmo, só se pode pensar, sentir, dizer ou transmitir com tempo.
É nesse mundo oblíquo, dos desentendimentos, que vivemos todos, sob a violência da pressa, atamancando ideias ou pseudo-ideias, deformações, ilusões, numa correria tonta. Desejando a maior parte das vezes ser tontos, sem tempo para o que interessaria.
Mas não gostamos que ninguém nos interpele, dizendo assim: "não seja tonto(a), ouça-me com calma."
Os egos apressados são também egos muito sensíveis. Vivem no fio da navalha das sensibilidades, dos sentimentalismos. Das sensações instantâneas, sem recuo ou distância, precisamente, para escutar. Com calma e tempo.



domingo, 11 de maio de 2008

arquivo - 1


A questão do arquivo é absolutamente central na nossa sociedade, mas é-o já há muito tempo, na medida em que através da semântica complexa e infinita dessa palavra podemos entrar num dédalo de conceitos e numa vasta gama de genealogias.
Aqui, neste curto espaço, emoldurado pelo formato de mensagem, tentarei apenas esboçar uma cartografia de questões e conceitos, que me sirvam para "me pôr em ordem" e para partir para mais desenvolvidas e vastas peregrinações. Dentro do espírito de "uma intimidade ao contrário" que é o de um blogue - um modo de "cuidar de si", de se encenar, de se pensar e de se escrever pensando, mas tendo como auditório um público, e portanto uma realidade que ultrapassa as fantasias do "eu", do diário particular - talvez estas reflexões possam encontrar interlocutores e serem úteis a todos. Aliás, um diário por muito privado que seja destina-se sempre, mais ou menos secretamente, a ser revelado... esse o seu paradoxo constitutivo. Tal como um segredo só existe porque pode (e se destina potencialmente a) ser revelado, dentro de uma determinada economia.

Ao falar-se de sociedade de informação, e ao tomar esta informação como vital, portanto como um bem económico, que se compra e vende, que se revela ou se esconde, que se publica ou se guarda, a questão do armazenamento, classificação, conservação e recuperação de tal informação (segundo uma miríade possível de critérios, objectivos, e de acordo com milhões de potenciais utentes em situações muito diversificadas) tornou-se um problema técnico vital. Que todos os dias se multiplica de forma exponencial.

O facto de haver hoje uma indeterminação entre o real e o virtual, cujas fronteiras se esbateram com a entrada na sociedade digital, numérica, quer dizer, des-substancializada, metafísica, ainda mais acentua o problema, apesar das máquinas ao nosso dispor e por causa mesmo delas. Como guardar o que é fluido por natureza? O que não está sobre um suporte durável, como era o antigo papel, pergaminho, papiro, argila, pedra, o que fosse?
Não é só fluido o suporte (na realidade num computador não podemos já falar de suporte), nem o conteúdo da coisa em si (a dita informação, manipulável e mutante), mas é também e sobretudo fluido o que queremos e precisamos de fazer com tal fluidez: isto é, cada utilizador terá de organizar ou de reorganizar a seu modo, sem regras fixas, a informação a que tem acesso. Há uma individualização do processo, mas também uma especificação, uma particularidade e mesmo uma fluidez total em cada processo de procura.
Informar-se não é saber uma coisa determinada, fixa, que deixou de existir como valor, mas sim antes uma estratégia - sempre em devir - de movimentação num fluxo. O indivíduo contemporâneo é irrequieto por isso mesmo: é que há uma des-territorialização generalizada de todos os valores e identidades, temos de nos procurar continuamente lá onde não estamos, e a maior parte das vezes andamos em busca de algo que já não há, que já não faz sentido.
Então, parece haver permanentemente um problema de conflito entre algo que queremos fixar (bem na tradição das sociedades da escrita), arquivar, por um lado, e por outro e a vida e os valores contemporâneos, que vão no sentido da liquefacção, da fragmentação, da deslocação rápida, num processo generalizado de des-identificação. Tudo e cada coisa se tornou instável.
Como se codifica e se controla a instabilidade? Eis o problema que nos assola. Mas ele é afinal muito antigo na nossa cultura ocidental, é o problema de toda a inscrição. Uma vez uma coisa (imagem, texto, sinal) escrita, inscrita, mesmo que num rochedo, faz sentido procurar o seu sentido primeiro, original, ou único? Obviamente que não -
tal coisa nunca existiu! Isso é ignorar o a-b-c da semiótica. Porém, esse é o logro em que por exemplo ingenuamente germinam muitas buscas da chamada "arte rupestre" em arqueologia: buscas vãs, para não dizer alucinadas.
Mas o problema só se torna agora mais nítido, acutilante, porque a proliferação informativa é hoje algo de jamais imaginado antes, por um lado, e porque a sua volatilidade se liga a uma objectualidade um pouco estranha: é que nós podemos ver essa informação, desdobrá-la constantemente, nas nossas máquinas. Desdobramento que afinal não é mais do que o que já fazíamos na vida, antes ou ao lado do texto, mas mais lentamente: improvisar, perceber rapidamente, integrarmo-nos em cada situação, dar resposta aos problemas. Quer dizer, uma realidade que está sobre um "suporte" virtual, um software (ou seja, não está), apesar de tudo tem ainda um hardware (fantasmático) de referência, uma máquina que tão concreta e tão intimamente está ligada à produção diária do nosso eu, como dantes a escrita em papel (outra ilusão, porque a máquina é apenas um descartável como qualquer outro, uma forjma efémera de produção de signos efémeros)!
Foucault tematizou a questão do arquivo, em "A Arqueologia do Saber", e numa acepção muito ampla. Para ele o arquivo é o sistema que comanda, por assim dizer, a emergência dos discursos, sendo o
discurso um conjunto de enunciados de um certo contexto histórico. Escreve Alex Scott (2001) que, para Foucault, " Um arquivo de uma sociedade, cultura ou civilização é um sistema de transformações de afirmações [enunciados] e é caracterizado pela descontinuidade no sentido de que nos indica o que já não podemos dizer [isto é, baliza o conjunto de possíveis coisas que podem ser ditas e pensadas]. Assim, a descrição de qualquer formação discursiva é uma arqueologia." (http://www.angelfire.com/md2/timewarp/foucault.html). E um outro autor (aliás, difícil de identificar: http://www.stefan-szczelkun.org.uk/phd501.htm) precisa melhor: "One of the institutional sites of a discursive formation is the archive. For Foucault the archive is not just a passive collection of records from the past, it is an active and controlling system of enunciation. The archive gives ever-changing form to the 'great confused murmur' that emanates from the discursive formation. The archive has a set of meanings (a 'form') that changes with the mental frame that we bring to it.
"There is an active relationship between the archive, statements and discursive formations. Foucault describes the archive acting on the statement. Statements are also a dynamic part of communication and will change the archive - both physically, with new requests changing the collection profile, but also changing the conceptual frames through which we can interpret the archive.
"Archives are usually thought of as formal things within an architectural setting but they may also exist in a more diffuse way. Howard Slater describes the common archive as any set of cultural preferences held in common which may or may not take material forms such as record collections. The public considered here bring moving picture statements into complex sets which may be considered as dynamic archives."

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para continuar em próxima postagem =

quinta-feira, 8 de maio de 2008

O Neolítico e as fantasias das origens



O elemento fundador da sociedade ocidental, do ponto de vista da sua ontologia, vem da Grécia clássica e consiste em ter dividido as coisas humanas, o observador, das coisas naturais, aquele que é suposto explicar estas últimas, ou seja, domesticá-las, trazê-las para o lado da cultura.
Essa crença de que existe uma cultura e uma natureza, como realidades partidas embora articuladas fundamenta toda a nossa maneira de estar no mundo e de o explicar, mesmo quando percebemos a ilusão e queremos escapar-lhe: está impressa na própria moldura do nosso discurso.
Correlativas a esta crença são a ideia de origens e a ideia de primitivo, de homem primitivo, se quisermos. Encontrar as origens das coisas é, segundo a nossa fantasia, explicar e compreender a sua razão de ser. Por isso a nossa cultura se instala na ideia de história.
A história é a narrativa de como é que as coisas se tornaram no que são (ou imaginamos serem) hoje. Toda a história, por mais "científica" e "objectiva" (que as pessoas ligam a neutral) que se queira, é sempre uma justificação a posteriori.
Origens, narrativa histórica, e evolução estão pois interligadas ideologicamente.
A noção de um primitivo que era primeiro que tudo um ser natural e se foi tornando "progressivamente" um ser cultural é o "joelho" , a articulação conceptual, de todo este mecanismo explicativo. Não é apenas a ideologia do racismo e da xenofobia: é a ideologia ocidental no seu coração.
Nas origens havia a natureza e havia o homem primitivo, o homem da natureza, o que não fazia mais do que tomar da natureza o que esta lhe dava: o caçador-recolector e, para muitos, o predador, quer dizer, o que só consumia e não produzia (tudo ideias e conceitos que ressumam a ideologia justificativa da nossa própria sociedade).
A história (incluindo a pré-história) é a narração de como desse "éden" ou paraíso o ser humano se foi distanciando dos animais, da bondade natural (que podia incluir alguma rudeza - daqui a oscilação entre o mito do bom e do mau selvagem, duas faces da mesma moeda), de uma certa inocência, etc, e adquirindo a manha e a duplicidade do ser humano civilizado, o ser reflexivo e bipartido (no mínimo), e portanto necessariamente interessado e interesseiro, individualista, etc.
Só para se ter uma ideia da extensão e abrangência desta ideologia, veja-se as ideias de Zizek, nomeadamente sobre os mitos de origens, tal como são resumidas na entrada relativa ao autor (por Matthew Sharpe) da The Internet Encyclopedia of Philosophy, que me permito citar abaixo.
Ver:
http://www.iep.utm.edu/z/zizek.htm
"Fantasy as the Fantasy of Origins
In a way that has drawn some critics (Bellamy, Sharpe) to question how finally political Zizek’s political philosophy is, Zizek’s critique of ideology ultimately turns on a set of fundamental ontological propositions about the necessary limitations of any linguistic or symbolic system. These propositions concern the widely known paradoxes that bedevil any attempt by a semantic system to explain its own limits, and/or how it came into being. If what preceded the system was radically different from what subsequently emerged, how could the system have emerged from it, and how can the system come to terms with it at all? If we name the limits of what the system can understand, don’t we, in that very gesture, presuppose some knowledge of what is beyond these limits, if only enough to say what the system is not? The only manner in which we can explain the origin of language is within language, Zizek notes in "For They Know Not What They Do". Yet we hence presuppose, again in the very act of the explanation, the very thing we were hoping to explain. Similarly, to take the example from political philosophy of Hobbes’ explanation of the origin of sociopolitical order the only way we can explain the origin of the social contract is by presupposing that Hobbes’ wholly presocial men nevertheless possessed in some way the very social abilities to communicate and make pacts that Hobbes’ position is supposed to explain.
For Zizek, fantasy as such is always fundamentally the fantasy of (one’s) origins. In Freud’s “Wolfman” case, to cite the psychoanalytic example Zizek cites in "For They Know Not What They Do", the primal scene of parental coitus is the Wolfman’s attempt to come to terms with his own origin – or to answer the infant’s perennial question “where did I come from?” The problem here is this: who could the spectacle of this primal scene have been staged for or seen by, if it really transpired before the genesis of the subject that it would explain? (...) The only answer is that the Wolfman has imaginatively transposed himself back into the primal scene if only as an impassive object gaze – whose historical occurrence he had yet hoped would explain his origin as an individual.
Zizek’s argument is that, in the same way, political or ideological systems cannot and do not avoid deep inconsistencies. No less than Machiavelli, Zizek is acutely aware that the act that founds a body of Law is never itself legal, according to the very order of Law it sets in place. He cites Bertold Brecht, “what is the robbing of a bank, compared to the founding of a bank?” What fantasy does, in this register, is to try to historically renarrativise the founding political act as if it were or had been legal – an impossible application of the Law before the Law had itself come into being. No less than the Wolfman’s false transposition of himself back into the primal scene that was to explain his origin, Zizek argues that the attempt of any political regime to explain its own origins in a political myth that denies the fundamental, extralegal violence of these origins is fundamentally false. (Zizek uses the example of the liberal myth of primitive accumulation to illustrate his position in "For They Know Not What They Do", but we could cite here Plato’s myth of the reversed cosmos in the Laws and Statesman, or historical cases like the idea of terra nullius in colonial Australia). "
Os sublinhados a azul são meus.
Quer dizer, a explicação das origens, naturalizando-as, é sempre um écrã para disfarçar a ideia de que tais origens nunca existiram (nem num determinado momento nem de forma paulatina), ou seja, são uma fantasia de uma ontologia que julga poder, de dentro de si mesma e do discurso que utiliza, explicar a sua exterioridade.
Deram-se sim, talvez, cadeias complexas de acontecimentos que marcaram rupturas a diversíssimas escalas não coincidentes em tempo e espaço, instalações de ordenamentos e de contra-ordenamentos, isto é, políticas, e que tais políticas, tais confrontações e tais tensões pressupunham desequilíbrios, outras formas de ruptura, sempre "anteriores" e tão diversificadas que não tem sentido tentar colocá-las numa ordem temporal linear e inteligível (única ou múltipla, são variantes do mesmo). Não tem sentido pensá-las nesse quadro conceptual. A história é sempre uma ficção, mesmo que seja uma ficção necessária à nossa "paz de espírito" e à nossa explicação do mundo em termos de imaginação do antecedente, em termos de o pensarmos como algo que ultrapassa a sensação absurda de ele poder ter existido antes da consciência de cada um, que o pensa.

O "Neolítico" é a fantasia da origem da sociedade humana, da passagem de um regime de predação e recolha para um regime de produção e de acumulação, quer dizer, de um sistema de indiferenciação para um sistema de diferenciação. É o começo da história, como o francês Jean Guilaine não deixou de insistir em todos os seus livros.
De certo modo, ao domesticar a natureza, os animais, as plantas, ao começar a produzir, a trabalhar, a acumular riqueza, a conseguir excedentes e a poder dar-se ao luxo de fazer grandes obras e de desenvolver uma ordem e uma hierarquia, o homem distanciou-se do animal. Era o que já diziam os antigos gregos, mas o que também vem na nossa tradição bíblica anterior. De facto, a humanidade, ao tornar-se tal, quer dizer, ao entrar na ordem do chamado "simbólico" (outro conceito a discutir), e portanto dominar a linguagem, ficou também cindida como conta outro mito, o mito de Babel ou da diversidade das línguas.
A linguagem uniu, permitiu sociabilidades, mas dividiu igualmente, e de maneira radical, ao separar os sentidos e ao exigir a tradução. O conceito de tradução é outro ponto fundamental da nossa cultura.
No fundo o "homem civilizado" o que faz é traduzir, traduzir em seu proveito próprio. Traduzir materiais e em geral as realidades da dita natureza em matéria-prima e obra, traduzir espécies selvagens em espécies produtivas, traduzir as igualdades naturais em desigualdades naturalizadas, isto é, aceites como indiscutíveis, traduzir o território em paisagem, traduzir o meio em natureza que ele controla, traduzir a língua do outro em linguagem inteligível, quer dizer, compreensível e domesticável,
traduzir em suma tudo o que era dado, em sinais do que é preciso domar, domesticar. Traduzir finalmente excedentes do grupo em mais-valias de uma elite.
E assim se explica a necessidade da divisão das pessoas em categorias e mais tarde em classes, em incluídos e excluídos, enfim, a heterogeneidade social em termos de hierarquização e de diferenciação funcional. Guilaine tinha razão em dizer que esta é a origem da história: para a nossa ontologia, sem "neolítico" não teria havido acontecimentos, mas apenas natureza, repetição do mesmo ou cadência tão lenta que se não nota a uma escala humana. Portanto, não teria havido propriamente homem (ser humano) como tal.

Não há filosofia, até hoje, que eu conheça - e conheço pouco, ai de mim - que não se reporte mais cedo ou mais tarde a uma espécie de "caixa negra", de um embraiador do que somos. E essa caixa negra, esse embraiador, é a natureza e o homem primitivo vivendo nela.
Se quisermos sobreviver neste mundo terrestre teremos provavelmente que construir uma outra filosofia da natureza e da nossa relação com ela. Teremos que abandonar a mitologia do "neolítico" e toda a sua panóplia de míticas invenções técnicas e mutações epistemológicas.
O Neolítico nunca existiu a não ser na invenção do evolucionismo do séc. XIX, de que estamos eivados, até hoje. É uma fantasia da origem da cultura e da civilização moderna, ocidental e europeia, que depois aliás se tentou aplicar a outros continentes com manifesto mal-estar ou mesmo impossibilidade. Em muitos pontos do mundo (África subsariana, Américas, etc), nem mesmo a imaginação evolucionista utiliza a palavra "Neolítico". O Neolítico é uma narração bíblica, com a sua matriz no Próximo Oriente (terra de origem dos monoteísmos históricos). Ponto.
O processo de relação dos seres humanos com as plantas, com os animais, com seres vivos ou inanimados, com a matéria inerte, esse processo (ou multiplicidade infinda de processos) deve ser descartado das ideias feitas sobre domesticação.
A domesticação é um conceito latino que vem de "domus", casa, como mostrou Philippe Descola e pressupõe uma diferença entre "home" (lar, o espaço doméstico, as zonas envolventes que o ser humano "controla", e não apenas "house" como um lugar de funções) e "wild", algo que o ser humano teme e onde faz incursões, algo que está povoado de perigos e de seres estruturalmente, ontologicamente diferentes de nós.

Ora, os estudos de etologia, de ecologia, de antropologia têm vindo a desmentir essas barreiras e a mostrar o carácter etnocêntrico dessas classificações e conceptualizações. Mas mesmo tentando ultrapassá-las, a matriz do nosso raciocínio continua a ser a mesma: estamos por assim dizer gramaticalizados (como diria Bernard Stiegler) deste modo, e não é a imaginação crítica do pensamento individual que pode sair da matriz que o informa. Só o esforço colectivo de desmistificação, de desvendamento das fantasias. Daí a importância da matriz psicanalítica, na sua vertente verdadeiramente subversiva, isto é, como ferramenta de abertura a novas possíveis formas de "gramaticalização".

Ainda recentemente uns colegas gentilmente me convidaram para participar num grande livro sobre o Neolítico da Europa.
Qual não foi o seu espanto quando lhes disse: percebo por que se aventuram a tal projecto, que é de grande prestígio, e que é fulcral para consolidar a ideia de que existe uma Europa, uma cultura europeia, e que essa cultura e unidade (na heterogeneidade) mergulha as suas próprias raízes na água das origens.
Mas eu não acredito já nisso. E por isso não posso participar, enchendo mapas e tabelas cronológicas com artefactos, tipos de sociedade e outros construtos do meu espírito, e enfaixando tudo numa narrativa do devir, mais ou menos verosímil.
Cansei-me de contar histórias, ou então anseio por novas fantasias.


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Dedico este texto, escrito num rompante, ao Sérgio Rodrigues e à Joana Alves, ambos doutorandos (embora em estádios muito diferentes, um a rematar, a outra em percurso) sobre "Neolítico", da FLUP.
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Foto: Ernesto Timor
Fonte: http://www.ernestotimor.com/pages/
_01_unfixed00.html



sábado, 3 de maio de 2008

A conselho de uma amiga...

... fiquei alertado para uma série de autoras feministas contemporâneas que nunca li, apesar de algumas serem já "clássicas":

MONIQUE WITTIG

BELL HOOKS

SUSAN BORDO

ANDREA DWORKIN

ELAINE SCARRY

Por que é que o pensamento feminista - apesar de ter tão pouco tempo para o estudar - e penso em Judith Butler, Luce Irigaray, Hélène Cixous, Donna Haraway, Julia Kristeva, Michèle Le Doeuff, Elizabeth Grosz - sempre me interessou? É óbvio porquê, mas para a maior parte das pessoas parece que não é, uma vez que não sou mulher, e que se precisasse de me identificar com uma etiqueta (se fosse interpelado nesse sentido, como diria Althusser) o faria como heterossexual.
Obviamente, a grande "revolução" do nosso tempo é o "aparecimento" da "mulher" (passe a generalidade altamente abusiva e perigosa do termo), quer dizer, o facto de algumas mulheres "pensadoras" - e de na vida de todos os dias muitas pessoas, intuitivamente - terem percebido que todo o nosso modo de ser, de viver, de comunicar e de pensar/sentir (a ordem simbólica que nos constitui pela linguagem, se aceitarmos esses termos lacanianos que muitas feministas contestam) é intrinsecamente constituído no masculino. No masculino heterossexual.
A própria reivindicação da "diferença da mulher" põe essa dificuldade de mediação da "mulher", e da sua objectificação por si mesma, bem à vista, como Irigaray mostrou ("An Ethics of Sexual Difference", ed. americana de 1993, mas original francês de 1984).
A mesma atitude de
auto-descentramento que me levou em arqueologia para a chamada (desgraçadamente, mas de modo significativo) "pré-história", a mesma necessidade que me levou a interessar-me pela antropologia (nomeadamente pela convencionalmente designada antropologia social ou cultural), a mesma curiosidade que me despertou sempre a psicanálise, a mesma vontade que sempre tive de forjar um "pensamento crítico", distanciado tanto quanto possível do lugar comum, foi a que me levou a perceber há muito a importância para mim dos estudos feministas, como ser masculino, heterossexual, branco, cristão (ateu, ou agnóstico-cristão), ocidental, etc.
A mesma curisidade imperiosa que me despertou também o marxismo, a crítica da sociedade em que nasci, com o correlativo desgosto das alternativas que se apresentavam: sovietismo, maoismo, etc, etc. Nunca me deixei conquistar - como muitos da minha geração - por estas novas formas de religião.
Durante muito tempo a "pré-história" foi o modo de me tentar aproximar de uma humanidade outra, que não fosse o espelho invertido, ou a imagem embrionária, infantilizada, da humanidade actual. Um modo que eu hoje sei estar ao serviço da manutenção de uma visão desfocada, pelo que é prioritário começar por perceber um pouco melhor as diferentes interpretações, visões, perspectivas, sobre o ser humano na sua incrível diversidade, antes de estar a construir narrativas ingénuas e ridículas sobre o seu passado distante, renovando cosmogonias e outros mitos sem os quais provavelmente não podemos viver, não nos podemos simbolizar. Mas evitando pelo menos os mais caricatos, de tão simples e primários.
Não se trata pois de me constituir à última hora como filósofo ou intelectual que nunca fui nem talvez quis ser. Trata-se de pôr em situação de espanto, de inaudito, aquilo que passa por natural e de já dito, já vivido e já aceite como incontestável. Não pela vontade adolescente de contestar, mas pela necessidade absoluta de me descentrar, não para procurar um novo centro, uma ordem acolhedora, mas para me habituar a viver sem centro, sem convicção fundadora, improvisando.
Isso não é uma atitude de flâneur. Isso dá bastante trabalho.
Trabalho de escrita e de leitura. Trabalho de reconstituição permanente. Trabalho compulsivo, porque cada resultado a que se chega neste rizoma é uma encruzilhada cheia de caminhos: não há princípio nem fim, não há hierarquia, não há ponto final a não ser o que a nossa energia nos dita (e o que a nossa morte - esgotamento dessa energia - nos impõe). Cada resultado é apenas um novo começo, mas um começo que não replica o anterior: há mudança, mas nunca se pode fazer o balanço rígido, tecnocrático, se estamos agora melhor ou pior. Talvez por momentos se entreveja a felicidade na beleza do que se escreve ou se diz, ou na beleza do olhar do(a) outro(a) que nos devolve essa felicidade, esse curto-circuito da comunicação instantânea.
Pormo-nos em causa, ler e estudar, não é fugir à vida de todos os dias e ao contacto com as pessoas. É perceber que esse contacto é fundamental mas de algum modo "secundário" (permita-se o esquematismo), sempre, em relação à necessidade intrínseca (ao desejo, se se quiser) de uma pessoa se constituir e reconstituir a si própria através de um trabalho sério, continuado, que lhe dê alguma credibilidade. Senão fica feito papagaio, figura ridícula e pretensiosa. Falando de tudo, saltitando como um tolo de novidade em novidade, sem nunca viver verdadeiramente nada de espesso, de sólido, de sentido e de incorporado. Sem encontrar a "voz própria", que é sempre uma maneira (salvo raríssimas excepções) de organizar um conjunto de citações. Mas com convicção e prazer, improvisando.
Espanto. Sempre recuperar esse olhar do espanto, que é o olhar da poesia, de toda a arte, que não tem tema, tem atitude, a de olhar para uma coisa qualquer, um bocado de pó no chão, e aquilo deixar de ser um bocado de pó no chão, porque entrou na linguagem, no olhar, se quiserem, na ordem simbólica.
Vimos emergir também no nosso tempo muitas atitudes públicas que lutam pela dignidade dos seres humanos na sua diversidade, e a que pomos apressadamente tabuletas, classificações: gays, lésbicas, trans-sexuais, etc. Quando sabemos que tanta gente teve na sua vida experiências, ou pelo menos sonhos, fantasias, que são tudo menos monoliticamente heterossexuais. A obsessão como o sexo e com o "desempenho" é uma tara actual, aditiva, e entra dentro das doenças da economia libidinal ligadas ao consumo: disse obsessão, não disse práticas do corpo e suas representações, temas que estão numa penumbra imensa e sobre os quais se disse muitas banalidades e estereótipos. Aliás já não se pode ouvir falar de corpo, tanta corporalidade conceptual e imagética já cansa até ao vómito.
Uma pessoa contrapor-se à sociedade da distracção contínua, do "entertainment" e procurar pensar, mesmo que isso não passe de um entretenimento como qualquer outro, é capaz de dar mais felicidade, a prazo, do que derramar-se pura e simplesmente na espuma dos dias e na deriva das propostas superficiais.
Assim, quando uma pessoa se entrega a algo ou a alguém, reconstitui a solenidade de um antigo contrato: uma solenidade que hoje não é rodeada de palmas de pessoas "sérias", mas da risota, que com frequência lembra a brincadeira dos bobos. Não faz mal. Os bobos fazem chacota porque são infelizes. Não é uma brincadeira autêntica, porque dessa temos sempre necessidade: o humor e o riso que desfazem toda a ridícula solenidade do saber.

(Agradeço ao leitor(a) que veja este discurso como um discurso de auto-exaltação e de auto-comprazimento, e que portanto o leia e o desconstrua, isto é, aproveite o que quiser e o que não quiser deite fora. Nada de me monumentalizar que eu não sou património. Obrigado pela compreensão).




quinta-feira, 1 de maio de 2008

Não tenho pretensões a profeta...

... nem procuro aqui deixar fórmulas para salvar o mundo.


Em geral, passo o dia 1 de Maio a trabalhar.
O trabalho, invenção moderna do capitalismo, pode ser também libertador, se conseguirmos, como diz Stiegler, fabricar conceitos.
É preciso pensar na ideologia do marketing e de como ela é destruidora de uma economia libidinal e, portanto, é suicidária.


Este ponto é fundamental. Nenhuma sociedade sobreviveu sem uma "técnica de cuidado de si" (colectivamente e individualmente), sem uma verdadeira economia.
O marketing, no sentido que o autor lhe dá, destruíu qualquer horizonte desse tipo expandindo não apenas a exaustão dos recursos energéticos (energia fóssil, etc) mas sobretudo a exaustão da sua própria energia.
As pessoas estão sem energia libidinal ou com ela à deriva, espalhando-se as depressões e as doenças psíquicas (que não tardam a inscrever-se nos corpos, claro) como sintoma fundamental de um sistema que chegou ao limite. Há que encontrar um novo modo de produção energética da existência, e não apenas da sobrevivência.
É de uma sociedade louca, uma sociedade de mafias, que temos de sair.

Procurar pensar é a minha forma de comemorar o 1º de Maio, que é também o meu dia, trabalhador que sempre fui, filho de trabalhador.

segunda-feira, 28 de abril de 2008

O jogo da presença e da ausência


Na nossa experiência, circulamos permanentemente numa grande gama de situações e sentimentos, e dois pólos extremos dessa gama (entre múltiplos outros) podiam ser os da presença (por exemplo, a realidade estabilizada a tal ponto que permite a contemplação por parte de um sujeito imóvel) e da ausência, que tanto se pode manifestar na nostalgia de algo desejado ou de alguém amado, como no frenesim quotidiano que, acelerado, nos inclui num movimento que embebeda, entontece, e que nos faz esquecer a insuportabilidade da ausência. Pois esse frenesim não é mais que ausência, alucinação, incapacidade de estabilizar minimamente o que nos dá segurança e ancora à realidade.
A presença absoluta seria o que chamo o arquivo. O arquivo é a obsessão dele mesmo, o desejo de completude, a doença de guardar, de fixar, de não deixar escapar nada, de registar, e, sobretudo, de já viver para registar, quando o turista fixa a imagem para depois mostrar que a viveu, ou que viveu a experiência que a imagem sugere, quando na verdade o que viveu foi essa vontade de vir a representar. Ou seja, a chamada "informação" - e toda a vida é um fluxo e permanente criação de "informações" - já seria experienciada em função do arquivo. O arquivo antecipa-se à vida, os momentos vividos servem para ser recordados ou simplesmente para ficarem colocados, fichados, sob a forma de latências, no arquivo.
O arquivo, nas suas múltiplas formas, o registo, indo do museu ao documento guardado no computador, e a sua manipulação para os fins mais diversos, seriam a obsessão central da nossa sociedade. Essa obsessão começa na escrita, na inscrição pública e formal de um sentido sobre um suporte, mas poder-se-ia dizer que remonta a tempos bem anteriores. Digamos que arquivo e arqueologia têm a mesma raiz, são o que estabelece a ordem e a origem, confundidas. Porque algo aconteceu, e ficou registado de tal modo, esse algo faz fé, é trazido à presença, ao presente, para aqui fazer lei: e não é indiferente quem o traz, como o traz, etc. Como nenhum sentido é alguma vez unívoco, ou comummente partilhado de forma igual, toda a memória, nomeadamente colectiva, é sempre uma política, quer dizer, pressupõe intérpretes habilitados pelo seu poder a saber, decidir, o que é pertinente e não é, o que se dissolve e estrutura o social como senso comum, e o que deve ser banido ou condenado: um bem e um mal.
A possibilidade de tornar presente o ausente, de trazer à colacção o arquivado, de re-presentar, é evidentemente uma encenação política. O arquivo é um poço sem fundo, um monumento para também ver de fora e jamais lá penetrar, que está ali em grande parte como uma caixa negra (jamais alguém saberá tudo o que contém, nem mesmo o arquivista compulsivo, alucinado, o louco da memória), um repositório de mortos que se querem como tal, mas que no seu silêncio, na sua ausência, permitem o fluir da vida, a sua contingência - servem-lhe de contraponto. Acreditamos que em qualquer momento podemos tirar desse asilo ou desse túmulo a informação pertinente - e isso dá-nos paz para nos podermos esquecer um pouco, largarmo-nos no mundo como aves, libertos da tirania do passado.
A imaginação de que podemos ressuscitar o morto, reviver o passado, trazer os asilados para a vida, dar às múmias o sopro da existência, fazer do museu uma coisa viva, em suma, reconstituir o passado, confundindo arquivo e vida, tem a ver com uma vertigem patrimonial que se liga à necessidade de sutura, à vontade de recoser o que foi (ou é vivido agora como tendo sido) descosido, interrompido, incompleto. Reconstruir, reviver, recuperar, ir contra o fluxo do tempo: a nível global e a nível individual, ter a ilusão de poder, se não superar a morte, pelo menos adiá-la, ou iludi-la, precisamente, através de cápsulas onde o tempo não exista, ou seja tão lento que esteja perto de um não-tempo anterior, primordial - um tempo mítico, ou uterino.
A maior parte das pessoas atribui à história esta missão: mas no fundo toda a vontade de compreender e de medir o tempo (desde a astronomia à geologia ou à arqueologia) se baseia na mesma vontade: que nos seja dada uma narração, uma narrativa credível de como é que as coisas começaram e por que são como hoje nos aparecem na sua radical estranheza ou arbitrariedade. As pessoas temem essa arbitrariedade, querem leis, querem âncoras, querem explicações. Só os poetas e os artistas se comprazem em "pôr o mundo em estranheza", quer dizer, em admitir a nossa radical impotência para perceber seja o que for, seres humanos que somos num universo que nem conceptualizar conseguimos, porque a totalidade protectora (a que chamávamos Deus) não tem sentido. É demasiado simples para fazer sentido, e de qualquer modo a sua disfunção começou há séculos. Um só descrente, e Deus, de certo modo, estava morto. Mas a descrença generalizou-se, particularmente na nossa sociedade ocidental, e albergou-se a fé (ou o seu oposto, afinal teismo e ateísmo completam-se) apenas na intimidade de cada um, quer dizer, num arquivo pessoal não transmissível nem comunicável, ligado a uma noção de indivíduo e de consciência individual (a uma valorização da interioridade por oposição a uma exterioridade) que é alheia à maior parte dos povos. Esse arquivo, essa memória, essa crença na crença individual, pessoal e intransmissível, são também formas de alucinação, porque a divisão do indivíduo e da pólis, do sagrado e do laico, e mesmo a teoria da divisão dos poderes em que se funda a nossa sociedade é evidentemente também uma ideologia (quer dizer, uma arbitrariedade erigida em incontestabilidade) e um mito. Que nunca pomos em causa e que queremos impor a todo o mundo.
A importância do cinema, que de certo modo inaugurou o século XX, como ilusão do nosso tempo, compreende-se. Com os seus prolongamentos actuais na realidade virtual. Ele permite, no espaço bidimensional do écrã, criar uma tridimensionalidade nova, que nada tem a ver com a perspectiva centrada do quadro ou mesmo da fotografia: ele permite a ilusão absoluta, a presentificação da ausência, ou seja, ver a vida num écrã, e de certo modo penetrar nela, ser parte dela. A narrativa do cinema pode ser reconfortante - conta uma história como se a tivéssemos vivido, como se a estivéssemos a viver agora, como se fosse a nossa história - ou inquietante, na medida em que o cinema joga com o imaginário e pode ser visto como a re-presentação do inconsciente (o arquivo inacessível, imaterial e invisível, finalmente tornado visível, presentificado). Por alguma razão arqueologia, fotografia e psicanálise se desenvolvem todas mais ou menos ao mesmo tempo, a partir basicamente dos sécs. XIX e XX.
Centrada na visão, a nossa sociedade, o espectador da sociedade do espectáculo (tudo é imagem, estamos num mundo pós-textual, numa certa medida) pode agora "pela primeira vez", repetindo o carácter iniciático do rito (ele é sempre repetição e é sempre diferença), ver finalmente o passado. O cinema e a realidade virtual, num certo sentido, são a realização por excelência dos positivistas, dos maníacos do facto, do dado, da prova, do documento, do arquivo, da inscrição, da recuperação do já vivido. O cinema permite-nos ver e participar "em acto" na própria inscrição, naquilo que acontece e que deixa lastro, perdura. Voltamos a ser crianças a a fazermos unidade com o mundo, reconfortados. É a arte do entretenimento, do jogo puro. E, revivendo, pode-se (talvez) fazer o luto, mesmo daquilo que parece ter deixado uma inscrição inapagável, mesmo um horror que transborda para fora do dizível, como o Holocausto, instalando o espanto absoluto. Talvez os espantos se neutralizem uns aos outros...
A nossa sociedade inventou as origens. As origens são a natureza e nela o homem foi colocado como um ser natural que pela cultura, pelo trabalho e pelo engenho, pela experiência e pelo conhecimento, se foi artificializando e impondo à natureza. Ele próprio é atravessado no seu cerne por essa fractura (numa cartografia metafísica com a qual nos damos mal), a do corpo e a da alma. Mas é neste campo de conceitos que o senso comum vive, é deste caldo que ele se alimenta. E muita filosofia repousa aí.
Nas origens havia pois o homem primitivo, o selvagem (bom ou mau, são duas versões do mesmo, como aliás também a natureza pode ser mãe ou madrasta). E essa invenção do primitivo é o motor explicativo, o princípio racional, da nossa cultura ocidental. É a embraiagem para a narrativa da sua própria constituição. Daí que a narrativa das origens, do primitivo, do selvagem, funcionando como o outro de nós (o inculto, o analfabeto, o arcaico, etc) seja fundamental para nos percebermos a nós, para nos representarmos no que temos de presença positiva (o progresso, a civilização, o moderno) e de ausência negativa (a sabedoria da memória que não precisava de arquivo, o saber inscrito no corpo, a espontaneidade natural, enfim, toda a mitologia de um equilíbrio, de uma sabedoria e de uma religiosidade e ritualidade perdidas, de uma comunidade perdida). O conceito de primitivo (e, por extensão, de passado) é o motor central da nossa ideologia: mas nós também queremos pôr no arquivo esse ser pré-arquivístico, que nem escrita usava, e que nós inventámos na natureza como uma compensação para o que imaginámos ter perdido. Daí a pré-história, a arqueologia, que se substituem (mas em muitos casos repetem) as velhas cosmogonias. É desprendendo-nos, mas com mostalgia, dessa primitividade, que adquirimos o que temos hoje, o que somos hoje, incluindo a capacidade de nos pensarmos, de darmos um sentido ao sem-sentido básico do mundo.
Mas os senhores que controlam o arquivo apertam as malhas da vigilância, e o conhecimento, como instrumento do arquivo, sofistica as suas técnicas. O admirável mundo novo já está aí em pleno desenvolvimento.
Mas ele contém um vírus, que por enquanto está contido, mas pode vir a expandir-se. Esse vírus é o do pensamento crítico, que consegue algum recuo e por enquanto só é dirigido a uma elite, a pequena porção de pessoas que vai tentando escapar ao senso comum. A generalização da educação trará também (estarei a ser ingénuo?) a vontade de contraponto, de uma anti-educação que seja a fresta de outros futuros que não aqueles dos planeadores que, invocando princípios aparentemente perfeitos, actuam na verdade para consolidar um mundo de exclusão, de exclusão da maioria como seres humanos e, com muito maior força de razão, um mundo de seres humanos críticos.

A crítica, a distanciação, não é - ou não devia ser - uma decoração, nem um gosto de desconstruir "pós-moderno" (palavra insuportável de tanto usada levianamente) próprio de abastados. Não é uma inutilidade.
Na economia do conhecimento, e em geral na economia da vida e da consciência, muitas coisas estão a ficar fora de controlo. E se isso, cidadãos pacíficos, nos assusta, também nos deve mostrar que nem a história acabou, nem ela vai ser o aperfeiçoamento do sistema em que ninguém verdadeiramente acredita.

Precisamos de um outro jogo, com novos parceiros, com novos horizontes e com uma outra economia de possibilidades. Todos procuramos entrevê-lo.

Mesmo nas classes médias alastra a insatisfação dos jovens. "Algo está a acontecer aqui" que escapa ao controlo do arquivo, aos sistemas de vigilância, ao jogo do gato e do rato. O que está latente ou parece ausente irromperá, caracterizado, como sempre, pela surpresa.
E os que vivem colados às presenças das suas vidas "organizadas" confrontar-se-ão com o espanto à sua porta.



quinta-feira, 24 de abril de 2008

triangulação

Disse-me:
estou preso na minha triangulação:
amo a companheira
desejo a desconhecida
adoro a imagem

e entre as três circula a minha fantasia.

Disse-lhe:
não tens outro remédio senão viver nessa desinquietação, ou estarias morto.
Mas:
não traias a companheira
não iludas a desconhecida
não te vicies na imagem.

Vive com o sofrimento e a alegria possiveis.
Convoca as três para o perímetro ardente da arte. Imola-as aí.

quarta-feira, 23 de abril de 2008

dispositivo




Há muito tempo que me habituei a olhar o mundo como um dispositivo alucinado, uma espécie de permanente surpresa onde o que dantes apartava em duas metades se confundiu.
Eu dantes colocava de um lado a realidade, e de outro a fantasia.
A realidade era relativamente estável, e com ela eu tinha de lidar dia a dia, aprender-lhe as regras para poder sobreviver e afirmar-me neste mundo solar.
A fantasia era incontrolável e servia de complemento, nocturno e lunar, imprescindível à primeira. Nela eu sentia-me mais solto.
Mas cedo principiei a ter a impressão de que tal liberdade era tão fictícia e irreal como a realidade que me impunham como regra.
Comecei então a pensar se uma e outra não fariam parte do mesmo sistema de prestidigitação, do mesmo circo deste mundo sem sentido: duas arbitrariedades que me levavam na sua onda e que me queriam convencer de que eram possuíveis e controláveis por mim. Já entrevia como se pode ser tão ingénuo... e foi então que como numa vertigem percebi que tudo o que digo e faço é uma convenção, ou melhor um embutido de convenções que não tem sustentáculo, fundamento último, de qualquer espécie. A não ser o do escravo que se deseja manter como tal: obediente, dócil a uma ordem impositiva, que me manda obedecer aos seus mandamentos: agora trabalha, agora diverte-te. Agora produz, agora goza. Agora brinca, agora fica sério. Agora faz de conta que és o que os outros querem que sejas, agora faz de conta que és aquilo que tu imaginas que és. E comecei a aborrecer-me deste biombo, desta simplicidade, destes ritmos teatrais tão simples em que vivia e em que me parecia que os outros viviam também.
Não haveria uma terceira via, como em quase tudo?

Eu procurei isso em ti, na tua imagem despudorada, onde projectei o meu desejo de ver uma figura fora do código: uma figura solta, ainda com os cabelos ondulados e longos da antiga fantasia. Uns cabelos que me pudessem acariciar mas também puxar para o universo entre o sonho e a realidade, um universo alucinado sobre a alucinação das loucuras quotidianas.
Eu queria a tua imagem desprovida de qualquer sentimento.
A tua imagem nua, nua não por ter ou não roupas, nua não por estar ou não submetida e escrava, nua apenas por ser crua, violenta. Por me olhar desde um lugar que se podia imaginar como inteiramente desumano, como pós-humano.
Pois não estamos fartos de humanidade até ao vómito?
Pois não estamos de barriga cheia de boas intenções?
Eu queria-te assim, porno-gráfica, como um evento violento, irrompendo sem dúvida de um sistema de significações totalmente codificado, mas ainda relativamente desconhecido para mim. Um dispositivo que eu julgava poder manipular para além das ideias de bem e de mal, de belo ou sublime e de horrível, de atraente e de horripilante. Pois todos esses pólos me pareciam cansados, excitados até às exaustão pela fadiga de séculos e milénios. Cansava-me a poesia do belo e do horrível, esses lugares revisitados sem conta e cheios de excrementos.
Eu queria-te numa série de imagens, numa sucessão de poses, sabendo perfeitamente que o sítio para onde olhavas era uma retina fotográfica, e que esse sentido era a retina masculina. Tu não me pertencias mais do que a peça de carne pendurada no talho. E era precisamente como uma série de peças que eu te queria ver, descomposta, deformada, transfigurada, amoral. Para além ou para aquém de todas as reivindicações de humanidade, de sexualidade, de sensualidade, de erotismo. Tudo palavras horrivelmente impossíveis já de pronunciar, como pedaços de pedra-pomes que quiséssemos desfazer na boca, e nos partissem os dentes. Nem suportava ouvir a palavra amor, pois a sua simples invocação provoca-me uma fúria indescritível. Os biliões e biliões de vezes que foi usada em vão, como as decorações de quartos de criança, numa "bondade" eterna e insuportável. Eu queria de facto ver a crueza do dispositivo mais de perto, encenada numa das suas versões brutais. Só ver. Insisto neste último ponto.
E na verdade tu quase sempre olhavas nesta direcção. Tinhas uma face jovem, mas um enorme à-vontade nas várias figuras do dispositivo, da sucessão de cenas que decerto te mandaram compor: caminhando para cá, magra, com um vestido curto; depois trepando para uma mesa, de costas, e revelando já um pouco das nádegas e da roupa íntima, branca (perna no chão, joelho na mesa; haveria que descrever estes passos com mais minúcia); depois já de novo em pé, em frente à mesa, mas puxando o vestido para cima por forma a ver-se, frontalmente, a parte inferior, transparente, do underwear (esse gesto era "belo" pela expressão cénica de revelação que sugeria): depois de novo sentada na mesa, mas abrindo a roupa à frente, por forma a mostrares, sorrindo (sempre o rosto a concentrar as forças), uma espécie de ferida, ou chaga, com uma auréola rosada (como um morto que ainda orgulhamente ostenta a razão fatal que o atingiu); enfim, é impossível descrever os dezasseis passos desta via sacra em que terminavas em triângulo, oferecendo todo o centro à vista, e com os sapatos de salto alto como único adereço, desmesurados, um de cada lado da foto, numa espécie de apoteose triangular.
Nesse momento era impossível distinguir-te de qualquer ícone. Tanto podias ser uma Madona como um grande elefante pendurado do tecto. Não representavas nada. E nessa total submissão, tinhas a presença e a aura da arte, da grande arte. Isto é possível acontecer, e vem na tradição das primeiras imagens: se a seguir aparecesses morta, ou pendurada no guilho de um talho, também ficavas bem.
Pós-humana, aparição de ti mesma como mais nada, objecto puro, murro na cara dos conceitos. Eis a ética e a estética que acarinhamos.




terça-feira, 1 de abril de 2008

pop





Há alguns anos realizámos aqui no Porto, na minha Faculdade, uma mesa-redonda sobre "cultura light" e publicámos um livro resultante, que se pode obter no DCTP da FLUP.

O seu objectivo era muito parecido com o deste número da Revista de Comunicação e Linguagens, uma das melhores revistas portuguesas, publicada pela Relógio d' Água mas da responsabilidade do Centro de Estudos de Comunicação e Linguagens CECL, ligado à UNL. Tenho muitos números da revista, mas devo dizer, em abono da verdade, que só agora julgo ter compulsado este número 30 (que já é de Outubro de 2001 - dirigido por Francisco Rui Cádima e por Jorge Martins Rosa), onde fui descobrir (entre outros também muito bons, incluindo traduções de célebre autores estrangeiros) um excelente artigo de José Bragança de Miranda, um dos mais interessantes autores portugueses da área das ciências sociais, sempre muito atento às novas "conformações" culturais que se desenham.

O artigo em causa chama-se "Uma arte bem instalada" e está entre as pp. 35 e 45. Conciso, mas incisivo, como muitos dos textos de JBM.
fala-nos do que chama o velho conflito entre matéria e imagem.

Escavar por prazer

12ª mesa-redonda de Primavera
FLUP, Abril 2008 , 10-11

O PRAZER DE ESCAVAR

Por

Vítor Oliveira Jorge (resumo)

__________

Um arqueólogo, como qualquer outro cientista, tem evidentemente as suas motivações pessoais conscientes (discurso identitário “esperado” ou “correcto” de auto-justificação, destinado de antemão a aprovação social) para a profissão que exerce, para a investigação que faz. E também, como acontece em qualquer outra actividade, há motivações inconscientes (eventualmente “recalcadas” quando se trata de se explicar e legitimar em público enquanto “profissional” institucionalizado), que estão ligadas ao desejo e ao prazer que sente em fazer o que faz. Aqui, a este nível, sujeito e objecto de estudo con-fundem-se, furtam-se à ordem asséptica do saber descarnado, deixando a pessoa, na sua especificidade, na sua respiração, na sua performatividade, “vir ao de cima”. Por muito que essa pessoa seja, até ao seu mais íntimo, uma realidade fluida, em devir, e em maior ou menor parte uma “construção social”, quer dizer, uma entidade que incorporou e se integrou na ordem discursiva aceite.
É este lado “recalcado” que me interessa explorar, pois é o menos explícito, ou então aquele que se torna padronizado em arquétipos ou protótipos fáceis, como os de aventureirismo, de descoberta, de “conhecimento do passado para sabermos quem somos no presente e preparar o futuro” e outras banalidades semelhantes, que nos assombram desde sempre no senso comum.
Desde as ocasiões em que fazíamos “buraquinhos na areia”, durante brincadeiras de praia, até àquelas em que com ramos improvisados construíamos “casinhas” para encenar fantasias próprias das crianças, que a vontade de ver para além do mundo aparente, por um lado (o “voyeurismo” da arqueologia), e a vontade de fazer “mundo novo” por outro (a utopia da arquitectura), numa forte relação com o espaço, o corpo, a interacção afectiva com os outros - estão presentes em nós.
Enquanto que a “primeira” modernidade, para vincar a distância sujeito-objecto, criou um regime em que subjectividade e objectividade nos aparecem divididos, a “segunda modernidade” em que vivemos tendeu a diluir essas fronteiras, valorizando a performatividade mesmo das coisas mais inertes. E o sujeito escavador, arqueólogo, que a um certo nível requintou as suas técnicas de análise e de registo, já não tem vergonha ou medo de, num outro plano, se apresentar falando na primeira pessoa, porque é sempre aí que se enuncia (se encena) a “verdade” da improvisação, do im-previsto, a verdadeira criatividade científica, que faz parte da alegria de viver, de fazer, de comunicar, de inovar, de criar mundos. Trata-se de desinibir as forças que retroagirão positivamente sobre uma renovada energia da “produção do saber”, lutando contra todos os obstáculos e contra a burocratização e academismo, de qualquer matiz.





Foto: M. E.

terça-feira, 25 de março de 2008

Representação, performance, experiência

Foto: Martine Estrade. Templo budista. Sri Lanka.


Não sou um filósofo. Não se me pode pedir competência específica nesse domínio, que leva décadas a obter. Sei perfeitamente que o conceito de representação é dos conceitos centrais em filosofia. Porém, como qualquer um, apercebo-me de que não posso pensar no "meu" domínio - o da arqueologia e do património cultural - sem, por exemplo, passar pela discussão da importância que pode ter o conceito de representação.
Representação tem o sufixo re. Parece portanto apontar para uma ideia de anterioridade - apresentação - que seria repetida, replicada, na re- presentação.
Anterioridade e também desvalorização, pelo menos aparente ou potencial, possível: ao representar algo, ao voltar a apresentá-lo, pareço estar a referir-me a uma imagem, figurativa, gráfica, ou mental, que tenta reproduzir um modelo, um protótipo, algo que foi apresentado já. Isto é, a representação parece reportar-se sempre a algo outro. Esse outro, modelo ou essência, aparição primeira, coisa de certo modo transcendente, teria na sua imagem ou re-produção uma mera sombra, um mero simulacro, um mero traço imanente, um sinal.
A problemática, como é sabido, vem dos gregos e concretamente da obra de Platão, mas também de Aristóteles, retomada por autores contemporâneos, como Heidegger, Deleuze, Derrida, e muitos outros, em sentidos diversos, mas que em última análise desembocam numa visão não representacionista da realidade.
Não é meu intento ou pretensão, repito, discuti-la aqui nesse plano, no qual não sou objectivamente competente. O que não significa um desconhecimento, pelo menos absoluto...como talvez se verá.
A re-presentação pode não estar necessariamente conectada com uma ideia de perda (Derrida). A "repetição" nunca o é totalmente: é promotora de diferenças. A diferença pode mesmo advir da pretensa "repetição" ou revisitação de um tema, experiência, ou lugar. O senso comum no-lo indica. Nunca nada reproduz fielmente um modelo, por mais genial ou imperativo que se apresente, por maior que seja a minha vontade de nostalgicamente o restituir à sua origem, ou seja, à sua suposta completude original - isto é, à sua reconstituição verdadeira, à sua "verdade" intrínseca.
Já se vê como o conceito de representação implica o de verdade/fingimento/mentira, semelhança/diferença, o de reconstituição, o de fidelidade, o de original e de cópia, o de realidade ou real e de ficção, o de documento, o de testemunho, o de mimesis, o de presença/ausência, o de invisível/visível, o de imanente/ transcendente, etc., etc. etc.
Demos por exemplo o caso do teatro. Eu tenho um texto, escrito por um dramaturgo, que formou dele e com ele imagens mentais para poder escrever a peça, mas essa peça escrita (e eventualmente publicada, até acompanhada de notas sobre como se deve representar) necessita de um mediador, ou melhor, de um conjunto de mediadores, para que haja de facto teatro, "drama", acção viva sobre o palco.
Claro que eu também posso ler uma peça de teatro, como quem lê um guião de um filme, ou uma pauta de música (tendo competência para isso). Mas as experiências assim produzidas são muito diferentes entre si, dando lugar mesmo a perguntar se serão compagináveis. Mesmo que eu seja um grande compositor, uma coisa é a pauta que produzo, outra a interpretação que dela fazem, mesmo que dirigida por mim, "autor", investido de uma autoridade que tem muito a ver com o nosso peculiar saber ocidental, com a nossa concepção individualista de autor, de artista.
O actor, o encenador, e tantos outros são necessários a que aconteça teatro, drama, acção "envolvente" do espectador, pelo menos na sua forma clássica ocidental. Poder-se-á chamar a essa instância mediadora a do intérprete: a daquele que emite, que refaz. Vale a pena então mantermo-nos no âmbito da representação? Tem esse conceito já sentido?... é que se não tem isso vai também ver-se na psicanálise e em versões novas que podemos dar à actividade humana, ao desejo, ao inconsciente, à relação da transferência, etc. Todos esses pólos se diluem em novas configurações...
Ora, a nossa cultura em geral vive obcecada por esta dupla: a do original (a concepção do autor) e a da interpretação. A segunda não poderia existir sem a primeira, mas o contrário também é verdade, pelo que não há que fazer uma distinção hierárquica, embora se possa discutir a qualidade relativa de cada interpretação. Contra essas hierarquias se ergueu a obra de Deleuze e Guattari, se bem a entendo (não é fácil !!).
Dada a polivalência intrínseca à obra de arte, ninguém se lembraria de hierarquizar essas interpretações em termos de fidelidade a um modelo, em termos de uma sacralização da origem criativa. E, no entanto, toda a nossa cultura tradicionalmente (e no senso comum) está marcada por isso, pela fidelidade ao verbo, à palavra inicial. Poderíamos até dizer à ordem fálica, masculina, do pai criador do universo, de que o artista é uma "mera sombra".
E aqui temos de novo a metafísica da ausência, a nostalgia da perda (que tanto nos perde... mas a verdade é que fomos aleitados por este modo de pensar), como se houvesse algo de irrecuperável e de fundador nesta questão da representação.
Por muito que o "mediador", o performer "acrescente", por muito que reconheçamos que todo o valor está no intérprete que actualiza e revigora a obra, aquilo que foi herdado, que é um "património", algo de inicial, a obra humana, mesmo a obra de arte, ou a grande invenção científica, como a matemática, mais não é para nós habitualmente do que uma sombra ou vestígio daquilo que o Criador inicialmente concebeu.
Sentimo-nos "nada" perante a nossa ignorância, perante a nossa impotência de o igualar, de compreender a totalidade, esquecendo-nos que essa totalidade é de facto uma representação nossa... no sentido já mais específico de construção mental orientada pelo desejo e pela intencionalidade, pela vontade de abranger, de categorizar, que projectámos na ideia de "um todo poderoso e omnisciente", pura projecção do que gostaríamos de ser. Sem nos lembrarmos da insensatez de tal desiderato, porque somos seres históricos e contingentes lançados no mundo, e este é um permanente fluido, uma contingência total.
Não sei se o conceito "metafísico" que Platão exprime não vinha mesmo já de uma tradição pré-socrática, pré-platónica. Quando citamos a célebre frase - dos fragmentos conservados de Heraclito - de que não nos podemos banhar duas vezes no mesmo rio, esquecemo-nos de que há autores que interpretam essa afirmação como a constatação da aparente fluidez da realidade, por detrás da qual estaria a verdade imutável do "logos".
Representação pode também ter um significado de mediação no sentido político-diplomático, quando se fala de “representantes do povo” ou de “representante dos nossos interesses no estrangeiro”. Neste sentido o representante, a representação aponta mais uma vez para uma realidade que é mais importante, ou anterior a ela: está em lugar de algo que é de outra escala, mandatado para tal. Portanto há sempre na ideia de representação, nas suas várias modalidades, uma certa acepção “fraca”, de segundo grau, em relação a uma realidade anterior ou mais abrangente. O mesmo acontece quando se diz de uma amostra que é representativa do todo, ou seja, que na sua finitude substitui, de algum modo, esse “todo” cujos contornos podem ser difíceis, ou mesmo impossíveis de definir (no que implicaria tomar tal representatividade mais como uma hipótese do que como uma certeza).
De qualquer forma, a representação é sempre tomada como um reflexo, como um espelho deformante, como uma imagem empobrecida de uma determinada realidade, de um protótipo: é o que está em vez de. Essa realidade não é necessariamente a do “mundo real”, não implica a crença realista na existência de um mundo que chega até à consciência através da percepção, e que seria mais ou menos passivamente registado ou activamente interpretado pelo sujeito.
Barbara Bolt (“Art Beyond Representation”, London, 2004) descreve-nos esta passagem que se dá do mundo grego, em que ainda predominava a noção de presença, de apresentação, de pensamento e de ser con-fundidos, para, através de Platão, e depois do racionalismo moderno, o mundo se ter tornado cada vez mais num quadro, num duplo, muma mera aparência, conceito tão ligado ao de representação.
E nisto inspira-se em Heidegger para caracterizar uma forma de pensamento “representacionista”, ligada à tecnologia, à ciência, à própria arte.
A realidade é um quadro, quer para ser analisado pelo sujeito como um objecto, com o fim de lhe descobrir as regras de funcionamento, quer para ser observado, contemplado, como a “pintura” presentificada de um conjunto de recursos ao dispor da experiência humana. O mundo é um dado (ou conjunto infinito de dados) que se desdobra perante nós. Abre-se o caminho à importância da visão e da representação gráfica, a uma cartografia que vem até aos actuais computadores e continua em desenvolvimento.
É esta vontade de fixação do mundo (que Heidegger ainda reflecte, apesar da sua posição crítica e de insistir na experiência primordial de relação do ser humano mergulhado no mundo) que Derrida interroga.
A representação é uma tradução, é uma transposição, é uma vontade de tornar presente, e nessas “tentativas” a identidade fixa perde-se, transmuta-se. Bolt (obra citada) chama a atenção para a importância do ensaio de Derrida chamado “Envoi”, que é de facto um texto capital (v. por exemplo transcrito em “Psyche, Inventions of the Other”, Stanford University Press, 2007).
Nele o autor põe em questão a distinção de Heidegger de uma “coisa existente como presença” versus uma “coisa existente como representação”. Já na palavra presente há um “pré” que ela inclui... O que existe na verdade são um conjunto de produções, de presenças e de representações, em mobilidade constante, em improvisação contínua.
E é esta visão que nos permite ultrapassar o ambiente representacionista, fixista, que informa o senso comum e em particular, por exemplo, todo o nosso pensamento histórico, patrimonial e arqueológico.
A improvisação - e é aqui que entra a importância da performance – é simultaneamente presença e representação, mudança, fluxo, vida. Temos de ter um saber que se confunda com a mobilidade e a juventude da vida, que supere o horrível bolor dos academismos.
De um interesse pela fixação e suas re-presentações passamos a um interesse por algo que nunca teve começo nem tem fim, que não teve uma génese.
É a meu ver nesta abertura contra-intuitiva que se encontra o futuro de uma multiplicidade de caminhos, mas que também passam pela habituialmente chamada “teoria arqueológica”, se é que isso tem algum sentido.
Por isso Deleuze (veja-se de novo a síntese de Bolt, no seu capítulo realmente muito útil, “transcending representacionalism”) difere de Derrida em não dar à representação qualquer estatuto, mesmo complexificado.
É preciso destruir o regime académico da representação, valorizando a performance e a experiência, a diagonal do voo, que supera a matriz euclidiana que ainda nos conduz no dia a dia.
Em desequilíbrio, vamos inspirados na obra de arte, na arte do corpo, em que este, libertado tanto quanto for possível de padrões estandardizados, de imagens fixas, de gurus de todo o tipo e de recalcamentos castradores, se lança na aventura erótica do conhecimento rizomático, aberto. Essa a revolução que está por cumprir, entre muitas.
Mas sem a produção de novas subjectividades livres, o sistema reproduz-se e...para pior. Inquietantemente, tende a enquistar-se de forma assustadora. Falo a todas as escalas.
Não é preciso estar muito atento para se ter um pressentimento qualquer.

O cúmulo da hipocrisia, ou então da inocência


Querer mostrar-se aos outros como isento de qualquer perversidade,
isto é,

que se é, de algum modo específico, e como indivíduo,
a própria incorporação da norma geral.


A norma e os seus "desvios" são uma criação (contingente, será preciso acrescentar?) de sistemas de justiça (de um determinado momento histórico da justiça), e não o contrário, quer dizer, a justiça é que, como é óbvio, delimita e marca o que é "crime"
ou não é.
O "crime" (comportamento de desvio em relação à norma e sua produção como tal) alimenta a justiça, porque também como é óbvio se não houvesse "crimes" qualificados como tais não havia aparelho de justiça: ambos estão em sistema, estão casados intimamente, e em contínua "altercação conjugal".

Cada época (as forças no poder de cada época, é óbvio) cria, produz o seu sistema de subjectividades, o seu regime que demarca o que é objectivo, certo e público (correcto, normativo, bom, normal, verdadeiro, científico, divulgável, etc.) e o que é subjectivo (o que é da esfera do desvio, ou da intimidade, da subjectividade, do não comprovável, do privado, do "artístico", e pode até ser "desviante" desde que não prejudique o próximo ou não se note muito publicamente de modo a incomodar a norma).

Esta divisão é o resultado de uma determinada economia política, tão só.
E sempre tensional, senão não havia história.

Hoje o sistema é tolerante para certos "desvios" antes pornográficos, ou obscenos, porque obviamente esses "nichos" (?) são cada vez mais importantes no mercado, o qual necessita da produção e lançamento contínuo de novidades bombásticas, sensacionais.
O mercado alimenta-se de um "novo" que em grande parte é sempre "mais do mesmo", mas mesmo assim tem brechas, é uma avalancha onde algo de novo em relação ao "novo" se vai ("perversamente"...) insinuando, fazendo a norma estar atenta, corrigir-se, avançar, retrair-se, proibir, fechar os olhos, etc.
É um jogo permanente, de interessses poderosíssimos à escala global, onde entram muitas sensibilidades, desde as mais liberais às mais dogmáticas, e de todos os matizes.
O sistema tornou-se, pela sua própria dinâmica, muito rápido, tem dificuldade na estabilização de si mesmo (é a famosa crise dos valores pós-moderna, que alguns ainda andam a querer consertar com normas da sociedade moderna !!), mas mexe contudo os cordelinhos, sempre complexos, no sentido de uma certa norma, que hoje se disputa à escala planetária, claro.
Ou seja, é como um barco em que os passageiros e os tripulantes já não se sentem muito seguros, e o comando também não, mas tem de fingir até ao mergulho final... ou ao happy end do filme (para não ser apocalíptico, parece mal...). Esse fingir nunca parece fingimento, mas convicção inabalável, optimismo de mar livre e sereno. Nestas coisas ou se é profissional ou se sai do jogo.


A "perversidade" (desvio) é apenas um dos modos ou produtos de um trabalho de cartografia de uma economia política das subjectividades, um dos processos de subjectificação, quer dizer, de sujeição.

Por isso há cortejos de indivíduos "desviantes", ansiosos de ocuparem (nem que seja de forma carnavalesca) por momentos o espaço público, o espaço da norma.

Mas muito do que é ensinado hoje em universidades ou está canonizado em museus já foi perverso, desviante, ou mesmo "criminoso"... or próprios campos de batalha ou de extermínio "viram", com o tempo, "património".

O cúmulo da hipocrisia é alguém querer apresentar a norma como auto-justificativa, e apresentar-se como o próprio corpo da norma:
debaixo do fato, como o rei, qualquer norma vai nua.
E nem sempre é bela, ou eficaz, ou bondosa.

Leva sempre qualquer coisinha no bolso de perversidade...é a velha dialéctica do carcereiro e do encarcerado: acaba por haver uma certa mimética entre eles.

Ou do senhor e do escravo: se ninguém quisesse ser escravo, não havia senhores. Pois, mas muitos, quando eram libertados, ficavam desamparados: ficavam desprovidos da norma cá de fora que, intra-muros, não tinham aprendido.
PERTENCIAM A OUTRA ESFERA DA ECONOMIA POLITICA DE PRODUÇÃO DE SUBJECTIVIDADES.
Preferiam continuar a ser escravos, delegar noutros o seu destino, porque tomar nas mãos o "destino próprio" é uma responsabilidade, exige estar dentro da realidade conflitual, quer dizer, jogar com as normas e os desvios e as surpresas que todos temos.
O escravo era feliz, a seu modo, porque não podia conceber (conviver, lidar com) o desvio.

A produção de subjectividades é a principal norma social a medida em que inculca nos indivíduos a ilusão de que o seu desejo é a norma, se confunde com ela... inculca pela acção mesmo, não resulta de nenhum "complot" ou cérebro maquiavélico. Por isso isto tanto interessa, mesmo aos arqueólogos... como se agencia o poder de forma subtil, mesmo sem que haja um centro emissor formalizado (um aparelho de Estado).

ver a este respeito: Micropolitiques, de Suely Rolnik e F. Guattari, Paris, Seuil/Les Empêcheurs de Penser en Rond, 2003.

Suely é Profª. da Pontífícia Universidade Católica de S. Paulo, Brasil.



O cúmulo do ridículo


"As técnicas" habituais das mulheres
para seduzirem os homens;

a obsessão de que a sua imagem (no sentido mais geral - física, mental, etc) se não é tudo, é quase tudo.

Idem para os homens relativamente às mulheres.

Não percebem que são todos marionetas de um sistema geral de produção de mercadorias baseado na sedução, na produção de máquinas desejantes simples e estandardizadas como os produtos dos centros comerciais.


sexta-feira, 21 de março de 2008

breve nota sobre a temporalidade

O meu principal "trabalho" neste momento é pensar, isto é, tentar perceber as coisas que para mim são mais importantes e básicas.
Isso só o consigo fazer em casa e numa certa (se possível absoluta) reclusão.
Preciso em geral de uns dois a três dias para, por momentos liberto dos afazeres "profissionais",
conseguir começar a sentir que consigo pensar.
Posso estar iludido, é claro, é quase certo.
Essa é para mim a tarefa principal do que quer pensar: deixar passar algum tempo sobre as pressões diárias para finalmente começar a ser.
Este "trabalho" dá muito prazer e em geral confunde-se (se não erro) com aquilo a que as pessoas chamam "férias" e para que correm desalmadamente em grande número e com a maior frequência possível.
Mas posso, nisto como em tudo, estar equivocado. Estou com certeza "iludido", no sentido mais geral de que qualquer pensamento, qualquer enunciado, não escapa às regras dos afectos e portanto da subjectividade/objectividade. Desse jogo.


quinta-feira, 20 de março de 2008

tanta coisa

A nossa maneira de pensar/sentir/conceptualizar (mesmo na vida comum) tem horror ao vazio: é classificatória, totalitária, masculina (mesmo quando o não parece) e procede por analogia. Qualquer ferida ou chaga, qualquer abertura, é uma “referência” mais ou menos implícita (um análogo d’) à vagina e deve ser obturada pelo falo. Toda a ordem está fundada num equilíbrio que consiste num pensamento da união, da conjugação, do fechamento, da obturação, da contenção da “hemorragia” (do imprevisível, do derrame) pela ordem do penso, pela estabilização do sentido. O rio, a cheia, o fluido, o côncavo, o oco, ordenada pelo sólido, pela barragem, pela intervenção reguladora, “médica”, pela prótese. A polaridade do masculino e feminino, a união dos dois pólos no hermafrodita, o seu esquecimento no orgasmo. Os próprios “sodomitas” (como antigamente se chamavam) sempre inscreveram os seus corpos nesta regra geral da completude, do acoplamento, da conjugalidade. Não "subverteram" nada: estiveram apenas na margem da ordem, contribuindo para o seu ordenamento como margem, como moldura.
Representacionismo. Logocentrismo, ordem do casal, representação como vontade de recuperação de uma apresentação (como perda), ou ainda possibilidade de uma representação como como nova apresentação: o problema desse prefixo re- que aparece em “representação”.
Platão, Aristóteles, Heidegger, Deleuze, Derrida, Latour – autores que é preciso ler para pensar isto. Transbordante para quem não é filósofo....
Isto tem a ver com a chamada “recuperação do passado”.... com a performance e a encenação... com tudo. Com a poesia, se esta não quiser ser apenas uma decoração, mas um trabalho consequente com a linguagem.
Angústia da falta de tempo.

Fatigue

La textualité, l' argument, le concept - tout ça fatigue.

Le meilleur argument: la poésie;
textualité encore, mais surtout l' annonce, à l'intérieur du texte, de sa propre vacuité, de son indifférence.

La musique, la dance...ce sont suffisantes. Mais il y a malgré nous la nostalgie d' un mot, même celui qui se présente comme (ou qui se sait être) le dernier.


O mais difícil, o mais valioso, o mais adiado, o mais contrariado, o (ainda e sempre) mais subversivo (=mais interessante)






P E N S A R