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domingo, 25 de outubro de 2009

sangue







Uma cabeça emerge.

As polpas refulgem.

O começo é dourado.

Cheio de laivos de sangue
Espalhando-se sobre as polpas.

Envolvido por lábios encarniçados
Em não deixarem sair
O futuro, o que tem de sair

Para que o absurdo mais absurdo
Recomeça.

O devir. Como um caroço
Duro de roer.

Todo apertado pelo desejo
Entre os lábios que já foram sangue
E agora são de novo sangue.








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imagem: proveniente da blogosfera, sabem os deuses onde se gerou!
texto: um dos escribas/encenadores deste teatro de blogue, de seu nome voj, out. 2009

o pêssego




Paul Cézanne (1890)




O pêssego no meio do prato. Com a sua pelagem muito fina, que é afinal a sua epiderme nua. Toca-lhe a luz. Ao longo do dia. Pode avistar-se de longe, na casa, sobre a mesa da cozinha, sobre a mesa da sala, cada vez mais longe, cada vez mais perto. A sua promessa é a polpa, a carne que se contrai e distende entre o caroço duro, desejoso de se concentrar, e a pele nua, desejosa de explodir para fora de si mesma. O pêssego pode concentrar todas as expectativas da casa, de alguém que o pôs no meio de um prato com faca ao lado, da boca, ávida da polpa, que imagina que é para ela que ele ali está, que ele ali foi posto. Tudo converge e tudo diverge em fluxo continuo até à chegada do pintor, que faz da cena uma natureza morta. E aí, o pêssego, já antes tirado da árvore, falece pela segunda vez, e os pêlos crescem nele, invadem o prato, estendem-se sobre a mesa, irradiam na cozinha ou na sala, conforme, e, então sim, a memória surpreende-se pela sua extraordinária capacidade de retenção, pela sua não menos extraordinária capacidade de transfiguração. O pêssego está de novo no meio do prato, intacto, com o seu pêlo curto e luzente, com a sua pele sensual, na cozinha, ou na sala – e também na tela do pintor, que sorri para ele e diz para si mesmo: hoje o pêssego saíu-me bem. E senta-se em frente da obra a ver como a luz, ao longo do tempo, a vai transformando. É neste sistema de transformações que reside algum mistério, a havê-lo.

quinta-feira, 22 de outubro de 2009

exílio






Edward Hopper, Excursion into philosophy,1959




Deixaram-te umas sílabas sobre o peito, e eu agora tento juntá-las sem o tocar, com a delicadeza do recém-chegado que conserva o chapéu na mão, que ainda não pousou a mala. Olho-te. Inundada pela claridade transcendente na distância. Sim, o teu peito nu, o teu peito intocado por mim, todo traçado de sílabas suaves, como se fossem fragmentos de sentido que eu tento compor para chegar, para acabar finalmente por chegar. São vestígios de beijos de outrora, pistas de outras bocas que por aqui passaram, e me fazem hesitar. Há uma depredação na tua nudez, parece-me, mas isso era de esperar, todos nós somos terra retalhada por inúmeros traços, e sinais, e feridas, e alvoroços. Às vezes risos, às vezes exaltações que elevam o peito, que trazem os teus seios acima, magníficos. E no entanto não os toco, como se viesse de um exílio, como se não soubesse sequer o teu nome, como se tivesse medo de te acordar da tua claridade assombrosa, assombrada. Não sei se poderia alguma vez habitar aqui, habitar-te, se me deixarias puxar pelo que ainda te cobre, e ver as sílabas todas. As sílabas vermelhas, o seu odor vindo de dentro. Transportá-las para dentro da boca, compor palavras novas, erguer um tecto nesta planície, chegar finalmente aqui por uma vez. E depois dizer-te parabéns, sem sequer saber se vai haver festa, se virão pessoas, se me sentirei a mais entre tantas bocas ávidas de álcool, do desejo de te marcarem de novas sílabas, de te deixarem palavras escritas sobre o ventre, que me excluem. Não sei. Exilado estou perante um conjunto de sinais. Preso me encontro na minha profunda inexperiência. Sou um predador também, sim, mas rodeado por gaivotas que se podem tornar agressivas nos seus bicos recurvados. Recuo. Pouco a pouco faz-se sombra sobre ti, e os teus seios adormecem em tons que cada vez mais se diluem no negrume. E a minha presença esvai-se também no branco que moldura a cena.


voj porto out 2009

clash

creio que o erro principal de alguns idealistas (no sentido corrente) no que toca às relações inter-individuais foi quererem fazer coincidir nas relações afectivas de dois indivíduos coisas totalmente diferentes umas das outras. o desejo erótico, dito sexual, que pode emergir a qualquer momento por uma multiplicidade de estímulos, e mais cedo ou mais tarde se desvanecer. a paixão, apaixonamento, ou amor romântico, que pode ocorrer como uma espécie de doença do espírito, em que alguém se vê totalmente ao espelho naquela ou naquele em que obcecantemente concentra a sua necessidade de intensificação egotista. o companheirismo, a amizade, a vida em comum, feita de grande respeito e admiração pelo outro, com tudo o que isso tem de sentimento de companhia e também de cedência (toda uma logística, toda uma improvisação) e de recalcamentos do individualismo. a formação de uma "família", nalguns incluindo descendência, o que imediatamente os liga (os prende inelutavelmente) a toda uma genealogia e a toda uma economia.
estas coisas todas juntas nas mesmas pessoas, ou sonhadas pelas mesmas pessoas como ideal de vida, só podem criar frustração, sobretudo numa época em que a individuação dos elementos sociais é uma desindividuação, uma organização individual segundo as directrizes do desejo comandado pelo mercado. Não há freios, não há amarras possíveis para tal mar à deriva. assim, todos os barcos chocam uns contra os outros. só pela leitura e reflexão, e por um fundo de equilíbrio psíquico penosamente recomposto todos os dias, alguns se safam, sobretudo se tiverem uma actividade que os realiza e que lhes permite uma fresta de abertura ao outro como totalmente outro. por alguma razão nos filmes clássicos de bergman os artistas são os "únicos que se "salvam", que mantêm a alegria possível (seria descabido falar de felicidade) no meio da comédia e da tragédia das outras personagens.
claro que no mundo prático, a maior parte das pessoas, possivelmente, há que séculos que superaram todos estes idealismos. toca a gozar, é a lei, não se podendo porém de quando em vez evitar o sofrimento, a sensação do vazio de um investimento feito para nada, ou de que apenas restam fragmentos. porque (julgo) em muitos "hedonistas" há sempre, recalcado, um idealista à espera de encontrar a perfeição, de ultrapassar o "clash" com "a pessoa" que o (a) salvaria. E nessas fantasias vamos-nos mexendo, umas vezes mais entusiasmados, outras mais desistentes.

terça-feira, 13 de outubro de 2009

re-fusão



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Equilibra-te. É o mais importante.
Às vezes tudo o que dissemos fugiu para o fundo.
E as piscinas ficaram vazias, com as suas superfícies
Azuis, de água luzente, reflectindo as lâmpadas.

Não está ninguém nos mármores. Nem uma inscrição.
Mas um passo teu basta-me. Vou ao fundo
Da sombra, aí onde tudo começou, e recomeço.
E as piscinas iluminam-se de nadadoras vibráteis.

Começa a grande dança de lâmpadas nos tectos.
E as multidões avançam às arrecuas para o passado.
Ninguém nos virá ajudar, apenas o equilíbrio
Entre um passo e outro, a sabedoria dos pés nus.

É certo que a febre tolda a testa, esmaga as imagens
Que como loucas lutam para entrarem em cada verso,
Em cada estrofe. As bocas de água estão secas.
Mas as imagens de nadadoras estão quase a chegar à meta.

Em toda a sua energia de luzes, de lâmpadas, de reflexos,
De fatos de água luzente. Vê as gotas caiando do tecto.
Dá o passo. Tudo vai recomeçar. Do fundo da sombra
Caminhamos de novo jovens para nos fundirmos aqui.

Vê a efusão das torrentes. Como as togas se avermelham.






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texto: voj porto out. 2009
FOTO: ERNESTO TIMOR
Site: http://www.ernestotimor.com/

Adoentados...





... aqui em casa, estamos tentando debelar mais este escolho!
Daí a minha pouca actividade neste blogue... até breve! Há novidades na forja, como sempre...
VOJ

quarta-feira, 7 de outubro de 2009

crise teórica da arqueologia: apontamento



Casa del Libro. Madrid. Foto VOJ





A teorização arqueológica em Espanha está muito constrangida por certos parâmetros, como o da crença em paralelos da antropologia cultural, do neo-evolucionionismo, e da vulgata (apresentada como) marxista. Se é certo que, acompanhando a desestabilização geral dos saberes provinda do golpe de "Maio de 68", a crise teórica da arqueologia é notória desde há décadas em toda a parte, em Espanha, país de grande envergadura económica e cultural, a arqueologia não soube ainda perceber a ruptura operada pelo pensamento crítico contemporâneo, com raras excepções, está claro - mas mesmo muito raras. Percorre-se as estantes de livros de arqueologia numa das maiores livrarias de Espanha, a Casa del Libro, na Gran Via, e que se vê? Ou descrições empíricas que têm o seu interesse, é claro (mais houvesse, mas que são os "dados" em si?...), ou obras de etno-arqueologia e de arqueologia da identidade que mostram boa intenção mas horizonte curto, ou livros sobre a origem do Estado sempre na mesma perspectiva pseudo-marxista... ou então manuais práticos, que também, é óbvio, fazem falta. Mas nem um livro que rompa com o status quo, um livro que uma pessoa tenha que comprar!
Refiro-me, evidentemente, à minha esfera de competência, a da chamada pré e proto-hostória. A arqueologia romana e posterior é outro mundo.
Num país onde se traduz (e produz) tanta filosofia, sociologia, antropologia, estudos sobre património, etc, rareiam as obras que de facto incorporem um pensamento irrequieto na arqueologia e de algum modo denunciem, ou exponham, mas não pelo slogan, e antes pela sua própria arquitectura teórica, o impasse interpretativo da arqueologia onde ele se vê melhor - nas "épocas mais recuadas"... é certo que vamos a França e é o mesmo, praticamente (um deserto teórico), e mesmo em Inglaterra uma nova geração de autores não prosseguiu (acho) com todo o vigor a revolução pós-processual que pôs em causa o neo-positivismo e neo-evolucionismo americanos, os quais, em filigrana, ainda estão por detrás de muitas obras que se supõem mais "avançadas"...
Julian Thomas foi um autor que, no Reino Unido, tentou de facto abrir caminhos novos. O seu "Arqueologia e Modernidade" , de 2004 (significativamente não traduzido em Espanha) é uma obra inteligente, uma síntese inspiradora. Estará alguém a seguir o seu caminho, alargando a reflexão para a modernidade tardia? Não descortino, mas pode ser ignorância minha. Se alguém souber, agradeço a informação e a ajuda.

pirâmide







Vejo-te
E o que começa dentro de mim
É imediato

Fachadas que sobem constantemente
E sobre elas trepam
As baterias

Este som é uma doença
Na sua harmonia
Monumental

São fachadas de música
Apoiadas
Na nudez dos teus pés

Baterias fortes
Que enlouquecem no seu álcool
Na sua fúria eléctrica

Passo em alta voltagem
Pela tua imagem, e com um dedo
Acciono as hélices
Da tua cintura

Mexes comigo
Com um poder enorme, enorme,
Subo ao longo de ti a fachada
De uma pirâmide

A uma velocidade
Difícil de conter
É por demais esta exaltação

Que me faz saltar as veias,
Os fios do som, toda a alta voltagem
Da tua aparição

Mulher, guitarra eléctrica
Do tamanho de uma fachada
Música formidável

Pirâmide


Tão vibrante


Mexes comigo
Como um milhão de baterias sobre um deserto
Sobre as fachadas da pirâmide

Sobre-iluminada


Fosforescente



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Imagem : Olga Kurylenko, actriz ucraniana. Créditos fotográficos: Lothard Schmid/Madame Figaro-Getty Images, publicada em yo dona, revista do jornal espanhol El Mundo, 3/10/09, p. 30
www.yodona.com
texto: voj porto out. 2009

sábado, 3 de outubro de 2009

Capito!

Tenho, ao longo de 40 anos, tentado tudo ao meu alcance para federar, para unir, sucessivas vagas de aprendizes de arqueólogos e de investigadores...formando-me a mim próprio ao longo do tempo... GEPP, GEAP, SPAE, ADECAP, e outras instâncias, como sobretudo a do meu próprio local de trabalho, têm sido modos de tentar mudar de mentalidade e de escala, sair deste apertado mundo do "salve-se cada um como puder"...
Reconheço, em balanço de conjunto, que era um idealista ingénuo, e que esse "salve-se quem puder" não só continua como se acentuou profundamente. Não qualifico essa atitude das pessoas, que tem razões estruturais profundas na sociedade em que vivemos, a qual incrementa esse "espírito", nem o censuro. Apenas constato que os meus ideais não correspondem à realidade. E por isso ir-me-ei adaptando, eu também, a este ambiente...sabendo que as pessoas que precisam da minha ajuda continuarão sempre a pedir-me coisas, o que acham muito natural,e que de um modo geral eu continuarei como um lutador sozinho no essencial, o que toda a gente que de mim algum dia dependeu acha muito natural. OK! Capito!
Vivam os fins de semana alargados!

quarta-feira, 30 de setembro de 2009

Você não está no facebook?!...

... então chama-se Robinson Crusoé.
e nem sequer vai aparecer o Sexta-Feira!



procure-me lá!
Conecte-se!

Vitor

domingo, 27 de setembro de 2009

estes acordes

dias em que as saias das raparigas
se erguiam no ar e como balões
se dirigiam para as cores
do arco-íris

dias da alegria, das baterias celestes
sobre a foz dos rios, invisíveis
nas pulsações do sol

dias em que os lábios ávidos
comiam os gelados frescos enquanto subiam
na excitação, na atmosfera irisada

dias em que borboletas saíam
dos calções das raparigas,
e as pernas brilhavam todas

dias em que as garças me saíam
dos versos, e era poderoso, e mandava vir
as trombetas vitoriosas

tocava nas cordas, saía electricidade
sobre a foz. as bandeiras esvoaçavam
e as raparigas subiam e desciam

irisadas de cores da alegria
garças altas como elefantes enfeitados
olhos vertendo azul e esperança.

disse: viva este litoral, esta solidão
cheia de imagens coloridas, viva esta paleta
formidável, esta foz aérea onde desaguam

os rios e todas as alegrias
que se avizinham!
o ar polvilhado de raparigas!

o sabor das vitórias, esta precisão
dos versos que escrevem de pés para o ar,
que inscrevem pássaros no céu

voando para as cores da alegria.

que vislumbram as coxas, as ancas
tão jovens, tão apetecíveis,
sob as saias macias das raparigas no ar



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voj set. 2009
aos sons que o mark knopfler milagrosamente consegue extrair da sua guitarra, e a toda a atmosfera que irriga o cérebro ao ouvi-lo

sábado, 26 de setembro de 2009

desmoronamentos

Para salvar a todo o custo a minha relação com as pessoas, o que sempre me motivou, pois não gosto de viver em tensão negativa com ninguém, e sou "conservador" nos meus afectos, há apenas um limite: é quando alguma dessas pessoas põe em causa, desde a raiz, os meus projectos, a minha legítima liberdade, os mais íntimos desejos, a minha mais profunda fantasia, a minha mais assumida, incorporada, tida por certa, expectactiva em relação a essa pessoa.
Esse limite ultrapassado - uma barreira que, repito, tudo faço para evitar - a minha relação com as pessoas continua formalmente igual. Mas essas pessoas deixaram de facto de contar para mim. Não fazem parte, para sempre, do meu horizonte de desejo. É algo que está muito para além da des-ilusão: atenta aos próprios "princípios" em que uma relação inter-pessoal mais profundamente assenta.
Tal como aquelas falésias que se desmoronam, dentro de nós às vezes desmoronam-se pessoas. As falésias cansam-se de lutar contra a erosão, de resistir desesperadamente para que as coisas não caiam, para que haja estabilidade e paz.
E é irreversível.

quinta-feira, 24 de setembro de 2009

percurso de um lisboeta de nascença em traços breves











Sou agora o professor catedrático em exercício mais antigo da Faculdade de Letras da Universidade do Porto (professor decano).
Licenciei-me em Lisboa em 1972 (24 anos).
Iniciei serviço na Universidade no ano lectivo de 1972/73.
Ingressei na Universidade do Porto como assistente em Setembro de 1974 (26 anos).
Doutorei-me e passei a professor auxiliar em Outubro de 1982 (34 anos).
As funções de professor associado (professor do quadro) vieram em 2004 (36 anos) e em 1989 prestei provas públicas de agregação, que me permitiram concorrer ao cargo de professor catedrático (de nomeação definitiva), do qual tomei posse em 1990 (42 anos).
Foi presidente do Conselho directivo da FLUP que fez a mudança da Faculdade para o seu edifício definitivo em 1995.
Agora, e devido à jubilação e reforma de muitos dos meus colegas, sou o professor decano da FLUP.
Mas por opção raramente ponho gravata e só uso as vestes académicas quando estritamente necessário. Sinto-me melhor com o meu corpo e com o meu pensamento de uma forma mais ligeira e sem recorrer aos símbolos da autoridade universitária (= desejo mal disfarçado de ser considerado por algo que seria "eu" sem tais símbolos, um desejo mítico, ou fantasia muito própria, eu sei...).
Gosto muito da minha profissão de professor, de investigador em tempo parcial, e estou muito grato ao Porto e à sua Universidade por me ter acolhido há quase três décadas e meia.
Acho que com a minha mulher e colega não desmerecemos a confiança que em nós foi aqui depositada. E lá continuamos numa labuta constante, apesar de muitas dificuldades...como todos os restantes colegas, numa Universidade que dá cartas em todo o mundo, e agora a experimentar um novo modelo de gestão.
Sou um decano em blue-jeans, nostálgico dos valores e das promessas dos velhos anos 60, em que formei a minha personalidade, segundo julgo.

quarta-feira, 23 de setembro de 2009

exposição total

percebendo, o que não é muito difícil, que na nossa civilização todos somos uma mercadoria, o que fazem as pessoas que se expõem muito, e tiram daí proveito e lucro? Levar até às últimas consequências, assumindo a hipocrisia da nossa sociedade "transparente", as vantagens dessa exposição. evidentemente que assumem riscos...
por exemplo, a(o)s "artistas" porno. vendem em sites, blogues e o mais que haja e venha, a sua imagem, que é tudo o que têm. Exploração por exploração, através do corpo e das poses ocupam um lugar não dispiciendo no espaço público.
suscitam um desejo que muitos políticos bem cobiçariam... claro que depois vêm sempre os moralistas dizer que a pornografia é uma exploração da pessoa humana (e é uma das suas faces mais visíveis, é óbvio), mas a pergunta é: não está ela, como tantos outros "flagelos" (droga, tráfico de tudo, crime, exclusão, corrupção de toda a espécie) na lógica de um mundo ancorado na mercantilização geral?
não irão muitos desses moralistas compensar a bondade dos seus discursos com a consulta atempada, secreta, dos sites porno? tudo quanto parece e se afirma publicamente como muito recto, e justo, muito "straight", suscita sempre dúvidas e desconfiança... tanta afirmação bondosa, justa, recta, para não dizer justiceira, esconde muita coisa por detrás, ou não fôssemos nós, para podermos ser humanos, trabalhados também por uma dose apreciável de perversidade... assim, quem grita por coisas puras, assépticas, a mim apetecia-me pô-lo(a) num frasco de formol, e este num museu das aberrações.
é mais inocente a exposição total de uma artista porno, nas margens da legalidade, do que a congeminação racional de um gestor de alto nível que todos os meses ganha legal e triunfalmente, em completa discrição, dezenas de milhares de euros em salários e prémios... estas pessoas é que deviam ter vergonha, mas esse é um sentimento com baixa cotação...
ai. tanto cinismo!

terça-feira, 15 de setembro de 2009

Olá







Hoje, se tiverem paciência, verão muitas imagens do deserto de Wadi Rum, no Sul da Jordânia...há horas que carrego fotos, enquanto leio e ouço música, aqui na cabina de comando (?!).
Isto é só um pretexto para mostrar a t-shirt que comprei em Petra e que adoro...

As nossas dicotomias, que impregnam tudo...

Toda a nossa cosmovisão ocidental está ancorada numa divisão entre projecto, lei, logos, e sua aplicação, a praxis. É um mentalismo, um logocentrismo. Por exemplo, no direito, a dicotomia entre a lei geral, o código, e a sua aplicação prática, o veredicto, a execução. Na arquitectura, a distinção entre o projecto, a ideia, e a construção, a obra.
Até na biologia temos esse logocentrismo, ao atribuir-se ao gene, entre outras coisas, e como diz Evelyn Keller, uma "espécie de mentalidade" ("The Century of the Gene", Harvard University Press, 2000 - este livro chegou-me hoje de modo que só pude ainda ler as primeiras 50 páginas - é excelente).
Mas quem desconstruíu bem isto foi Jacques Derrida, questionando a predominância da fala sobre a escrita, entendida a primeira como algo de directo, natural, corpóreo, na comunicação inter-pessoal, e a segunda como algo já reflectido, artificial, secundário em relação à primeira... ora, muitos nao perceberam o que Derrida queria dizer com a noção de que não existe nada fora do texto. Não se referia a texto em sentido estrito, mas a um sentido quase limitado, como diz Barry Smart (in "Teoria Social", ed. por Bryan Turner, Difel, 2002, pp. 411 e 412), que acrescenta (p. 411): " Derrida apresenta a metafísica ocidental como estando suportada por uma série de oposições binárias metafóricas em que é conferido um estatuto de privilégio a um dos elementos.A mais importante na sua elaboração teórica é a oposição entre escrita e fala." Escrita, para Derrida, é o "elemento de indecisão inerente à comunicação" (idem, ibidem). Claro que esta posição, que desconstrói profundissimamente a tradição metafísica ocidental está no pólo oposto de tudo quanto são as visões correntes das teorias da informação e da comunicação, etc.
Derrida é mais actual que nunca. 42 livros do seus cursos inéditos estão previstos serem publicados pela Galilée, para além do primeiro que já saíu...
Voltarei a estes temas, que estou a estudar, claro... é o dos meus maiores prazeres, tão longamente recalcado por burocracias, prazos, tarefas convencionais.

domingo, 13 de setembro de 2009

saber para a felicidade

Desde que me lembro de tentar pensar que não me revejo nas divisões entre disciplinas que o mundo académico-científico instalou e fez proliferar. Nenhum campo me interessava por si, mas como experiência para tentar perceber certas coisas sobre as quais me interrogava, e não tinha ninguém que me respondesse. Fui para história porque tinha de ir para algum curso, mas aí salvou-me o Prof. Jorge de Macedo com a sua cultura muito ampla de carácter filosófico e literário, e o Prof. Orlando Ribeiro, um homem do mundo como poucos Portugal teve. Nem foi mesmo o detalhe ou o pitoresco das coisas que me interessou saber (a erudição), mas apenas me interessava cada experiência na medida em que me abria uma janela de compreensão de um "grande dúvida"... introdução à filosofia, história do cristianismo, história da arte, por exemplo,foram assuntos por que me apaixonei no decorrer do curso, porque correspondiam a questões que se esboçavam, configurações do que me interessava perceber, e que se foi sempre reformulando até agora, claro. Por isso nunca tive aquela postura prática de estudar isto para aquela cadeira, ou de ler isto para aquele trabalho... sim, mas apenas como uma necessidade evidente, tal como comprava um bilhete para viajar de autocarro. Eram instrumentos de que logo me esquecia, muito diferentes das frases e ideias e emoções que de facto me iam consciente e inconscientemente estruturando.
Nunca concebi a história ou a antropologia isoladas, do tipo de produzir uma história disto ou daquilo, ou uma antropologia disto ou daquilo. Isso não significa nada, não acrescenta nada de fundamental, não é fracturante como se diz agora. O academismo é sufocante e sempre foi, para mim. A evitar.Por isso me choca ver a divisão em territórios e observar como das vigias colocadas nas fronteiras desses territórios certas pessoas observam os movimentos daqueles que, como eu, talvez ingenuamente, se sentem à-vontade em muitos campos, não por perceberem muito de cada um deles, mas por não verem os muros e as minas colocadas para sua defesa. Esses guardiões são-me indiferentes. São polícias, e os polícias têm sempre aquela ambiguidade: são criados por nós para nos protegerem dos malfeitores, mas nunca sabemos quando poderão agir por qualquer motivo, consciente ou inconsciente, pelo simples prazer de se afirmarem, de exercerem um poder que pode deslizar para o extravagante ou arbitrário se não nos acautelarmos...
Há muito também que deixei de acreditar no ensino formal tal como sou obrigado a praticá-lo, para muitas pessoas, muitas vezes ainda muito jovens ou pouco motivadas, e circunscritas ao espaço/tempo fracturado das aulas, das salas de aula. O verdadeiro ensino seria algo de vivencial e prático, com depois uma parte para a elaboração conjunta de trabalhos, e onde portanto a ratio professor/aluno teria de ser muito baixa. A transmissão de conhecimentos nunca está desgarrada da experiência de quem os transmite e não deveria haver aquela dicotomia, que o aluno em geral espera, e não aprecia quando é subvertida pelo docente, entre a matéria que quer que o professor debite, e as divagações onde o professor é suposto destapar um pouco do segredo de como chegou a saber o que sabe. Ou seja, a relação professor/aluno estandardizou-se na escola de massas e eu hoje apreciaria um tipo de trabalho em equipa com gente já de um certo arcaboiço e espaço pessoal de manobra para interagirem comigo. Já não posso ver um conjunto de manequins sentados em carteiras à minha frente à espera que eu lhes explique isto e aquilo, quando o mais interessante que eu tenho a transmitir é a minha experiência, não no seu aspecto privado, é claro, mas como "estudante" mais velho.
Enfim, a possibilidade de improvisar sem divagar por banalidades, eis a liberdade de um bom professor, desde que tenha do outro lado bons alunos, e esteja a falar de temas dos quais tem experiência pessoal, por vezes toda uma vida de leituras e de procuras acumulada. Os tais temas que implicam passar por fronteiras minadas, rompendo muros de disciplinas, e pousar em fios eléctricos como se fosse um pássaro inocente, indiferente aos perigos que por todo o lado entravam a nossa liberdade de nos constituirmos como sujeitos activos e, tanto quanto possível, felizes. Este espaço de aventura em que o saber e a vida são uma coisa só, e se vão constituindo sempre com outros, na maior liberdade possível das interacções. Só se é feliz quando se tem um lugar na sociedade activa, um lugar onde nos constituímos com os outros e para os outros, mas não em tipo de obras de caridade, sim na medida exacta em que perseguimos insistentemente o objecto do nosso desejo, um objecto sempre movente e irrequieto. Transmitir e aprender é a mesma coisa, porque só quando comunicamos somos, ou temos a ilusão de ser e de saber alguma coisa que interessa aos outros, esses outros em cuja atenção e curiosidade nos projectamos, compensando temporariamente esta perda, este vazio que cada um de nós constitutivamente é.
Talvez, afinal, mais do que saber (que raio é isso?...) me interesse a sabedoria, essa bagagem para o bem-estar, comigo e com os outros, jamais alcançado, eu sei...
É ambicioso, mas o que não é ambicioso não vale a pena. É mera gestão corrente.

sexta-feira, 11 de setembro de 2009

Gripe A

Há amigos meus, particularmente os que sofrem de uma certa tendência para baixa imunidade, com imenso medo de irem a congressos no estrangeiro por causa da gripe A.
Ora, todos sabemos que nenhum de nós está livre de apanhar esta gripe, e que o mais provável é sermos afectados. Mas pior que tudo é o medo que paralisa, em todos os aspectos da vida. Como disse o Baptista Bastos, tenho medo mas não sou cobarde. O importante, para mim e para os outros que estão à minha volta (conhecidos ou desconhecidos) é estar atento e atacar aos primeiros sintomas. E no caso de pessoas com baixa imunidade, procurarem ter acesso precoce à vacina mal ela esteja disponível, através dos seus respectivos médicos.
Se não for assim, e entrarmos todos em pânico, antes de morrermos de gripe suína morremos de medo. Isso, não !
Há uma vantagem de se ser sexagenário: já se levou, como diz o povo, tanta porrada, tem-se a consciência de que estar vivo é quase um milagre, que já não se tem assim medo de qualquer maneira... há uma distância entre o ataque e nós. E quando a morte aparecer (os seus sinais, o seu prenúncio), o ideal seria dizer: cá vens tu, finalmente, por ti esperei desde sempre. OK, faz o teu trabalho, mas não me faças sofrer muito até perder a consciência e fugir da "porca miséria" deste mundo...
Mas é claro que muito provavelmente uma pessoa se sente sempre tomada pelo pânico à beira do abismo. É só esse momento que se espera seja rápido e fulminante. A nossa morte (como o nosso nascimento) são momentos que nunca podemos viver, ou estamos do lado do nada, ou do lado do mundo, este mundo tão complicado e onde pagamos tão caro, em tensão diária, o conforto tecnológico de que usufruímos...

quinta-feira, 10 de setembro de 2009

bilhete postal *





* à pessoa que como de costume me vai perguntar insistentemente: "em quem estavas a pensar quando escreveste isto?"

imagem: Michele del Campo
site: http://www.micheledelcampo.com/index2.html
texto: voj set. 2009 porto
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Sei que passaste por mim neste verão
E que não te reconheci,
E que nem tu, de costas, poderias ver-me.

E sei que eu próprio passo irreconhecível
De mim mesmo, pela beira dos portos,
Pelos odores de embarque e desembarque,
Toda essa azáfama de cordames e de fronteiras.

Mas a tua imagem persiste
Com a sua nostalgia,
Rodeada de estrelinhas brilhantes
Enquanto os guindastes se erguem
E as obras crescem por toda a parte;

E multidões caminham no mundo
Cada face voltada para o seu destino,
E grandes navios partem para os cruzeiros
Com a proa bem enfiada no mar.

Sei que és aquela fulana
Que escolhe muito bem o que faz
E que me espera há décadas com essa pose
E parece fingir, e parece não ver, o espaço que deixo entreaberto

O espaço entre uma estrofe e outra, entre
Um fôlego e outro, este "entre" em que se morre
Ou se passa despercebido todos os dias, vivendo a miséria quotidiana.

Eis uma espécie de cegueira! Eu a ver-te, a
Topar-te a pose, e no entanto deste lado do ecrã,
Sem nada de importante que te diga, que te atraia,
Que te permita deixares essa mortífera atitude,

Apenas alinhando palavras para irem compondo versos
Como quem tricota uma malha ou tece um pano,
Da esquerda para a direita, de cima para baixo,

Enquanto perto de ti é que está a actividade, o odor intenso
A alcatrão, a casa das máquinas que te trabalham
Como turbinas incessantes, os êmbolos lentos da espera,
A felicidade da manhã no porto das gaivotas.

Estamos destinados a deixar passar os últimos verões
Sem jamais ficarmos lado a lado (não acredito
No face a face, é demasiado assustador) a olhar o mesmo porto,
A embarcar no mesmo navio, com todos os marinheiros
A lançarem-te bocas por causa da pose, a partilhar o mesmo
Convés, sabendo que temos a cabina para desfazer posturas
E nos esquecermos para onde vamos, porque é evidente
Que o que interessa é partir, sentir o cheiro do mar a entontecer
As narinas, a subir por nós acima, a desfazer a atitude,

Enquanto ao longe o mundo industrial continua
Com gente a telefonar urgentemente para toda a gente,
A tentar esquecer-se de que vai morrer sem jamais
Ter uma aventura como nós, em pleno mar,
Com esses teus cabelos, essa tua cintura, esse teu rabinho
A puxarem-me constantemente para o lado do urban chic.

Desde já declaro que és tu e só tu quem procuro desde sempre,
E imagino que poderia ter-nos acontecido, mas deixei escapar
Mais um verão, e decerto tu entregaste a tua pose a outros
Homens e mulheres, embarcaste através de uma porta
Com outro número, não passaste de algo adiado
Que constantemente me tortura, podia até dizer mesmo que me asfixia,
Se não fosse ridículo e não percebesse que de qualquer modo nem tu te apercebes,
Nem jamais te virarás na tua pose perfeita, rodeada
De estrelinhas, de promessas coloridas, de posições sabiamente atrevidas.


Sei demais
Como jamais
Será.

Mas tenho pena.

Por isso te escrevo este bilhete postal
Para que chegue ainda antes do fim do verão.
I am sorry, so sorry.
It's all my fault, my failure,

My dearest one.





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quarta-feira, 9 de setembro de 2009

mirra, o seu vermelho, o seu perfume

a minha língua percorreu-te
de alto a baixo, com a lentidão, finalmente,
de quem escapou a qualquer chamamento.

abanaram as cortinas. subiram globos.
partiram de um varão para o outro as sombras negras
dos pássaros que habitam as alcovas subterrâneas.

a minha língua percorreu-te como um lagarto
que se arrasta há séculos sobre a rocha eterna,
sob um verão parado no meio do seu clarão enorme.

é,aproximei-me da tua cintura nua, nua, como quem
abraça o nervo central de um corpo,
comecei-te pelo meio e subi e desci: tão lento...

e cada verso foi um trajecto de saliva, um suspiro
de papilas tacteando o seu caminho, embriagadas
pela tua seda, pelo teu incenso, pela tua mirra.

oh, o vermelhão vivo da tua mirra!
deixou vermelhos os meus lábios, mas também todas as restantes
pontas,num fogo de extremidades, atiradas contra
o fulvo fim de tarde, o fogo avermelhando
a terra toda, correndo horizontalmente sobre as superfícies de seda
do teu corpo, cuja nudez mais íntima tive por vezes a sensação de [captar:

essa perda de toda a vergonha, essa embriaguês das pernas
voltejando doidas, descrevendo linhas no crepúsculo, luzes,
riscos vermelhos nos meus olhos revirados de prazer.

amar, é fazer brotar a mirra
do mármore de uma cintura.
o vermelho do branco: esse jorro fantástico,
libertação, alívio de perfumes.




voj set. 2009 porto