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segunda-feira, 31 de dezembro de 2007

Transferência


Transferência: algumas notas


Este conceito, um dos mais básicos da psicanálise, deu o mote a este blogue (começado há quase um ano!), pelo menos ao seu título, exprimindo, não tanto um conhecimento, mas mais um desejo de conhecimento. Atrai-nos aquilo que não sabemos, em que suspeitamos poder estar o “segredo” que eventualmente dará sentido a uma série de coisas. Pelo menos temos de tentar, levados por um desejo que nos magnetiza.
Só que neste contexto, mesmo quem teve formação específica, tem dificuldades. A psicanálise é uma nebulosa complexa, em cada autor todos os conceitos estão conectados entre si, sofrem variações ao longo do tempo de investigação e de experiência desse autor, como é de esperar. Portanto, nada é fácil, e muito menos explicar em poucas linhas o conceito de transferência em Lacan, porque ele arrasta toda a sua obra, obra que eu estou longe de compreender.
Tentarei orientar-me nesta nótula pela obra de Darian Leader e Judy Groves mencionada noutra postagem, procurando obviamente, e a todo o custo, quer evitar o plágio (apesar de algumas coisas que vou dizer estarem muito “coladas” ao livro, sendo praticamente, nalguns casos, a tradução de algumas das suas frases, a partir da sua pág. 136 em diante) quer o escrever disparates. Vejamos. Peço desde já aos mais conhecedores que eu que me corrijam. Um blogue é um bloco-notas que, ao ser público, se oferece à critica e à correcção; e só nesse sentido é útil.
Cada um de nós sabe que “transporta” um conhecimento (e um sofrimento, no sentido de toda uma experiência traumática sem a qual não existiria) cujos contornos não domina; um conhecimento e uma experiência que estão apartados de si; quer dizer, o sujeito procura conhecer-se com a ajuda de outro, porque o sujeito sabe ser, para si próprio, uma espécie de “caixa negra”, uma multiplicidade de “eus” à procura não tanto de uma mítica unidade efectiva, uma verdade última de si próprio, mas de uma certa estabilidade emocional, quer dizer, de uma ficção que lhe permita algum equilíbrio. Por outras palavras, que lhe diminua o sofrimento, o mal-estar inerente à existência (podendo ser agravado em certas circunstâncias psíquicas), mas acima de tudo o sujeito deseja estar em diálogo, ter um interlocutor atento.
Ao submeter-se à análise, à experiência da transferência (que envolve basicamente a palavra, a associação livre, e sempre o perigo de uma deriva em que o analisando se pode começar a sentir a perder-se...) o dito analisando investe o analista em “sujeito que é suposto saber”. Não um saber de tipo esotérico, ou desvendador de segredos ou descodificador de sintomas: um saber que em princípio se dá apenas dessa forma simbólica, como pessoa/entidade que se dispõe a escutar, como pólo para quem é possível (é suposto) começar a falar, seguro de que esse analista está atento.
Algo porém na transferência, “o objecto a”, está no pólo oposto do saber. É que, quando começa a falar, o analisando pode sentir-se vitima de um logro, porque o que ele quer é fixar-se em algo de sólido, que escape à deriva do discurso, ao derrame das palavras, que se aproxime de um “inconsciente”. Mas aquilo que diz pode precisamente ter o efeito oposto, e servir, na sua proliferação, de elemento de obstrução desse almejado “desbloqueio”. A linguagem aliena o sujeito de si próprio, insere-o, desde que aprendeu a falar, na ordem simbólica. Por isso a transferência é ambígua. De forma que falar, em vez de representar um “avanço” do “saber”, pode eventualmente redundar em alienação e em separação, entendendo-se por tal uma separação em relação à cadeia de significação, uma aproximação do “objecto a”, uma procura de refúgio na relação fantasiada com esse objecto.
Qual o interesse de tudo isto? Enorme, porque nos mostra a complexidade, a opacidade, a especularidade de tudo, de toda a experiência do vivente. Não há um sentido último em que o sujeito se apoie, como o não há no analista. Há o estabelecimento voluntário e contratualizado de uma situação fora do quotidiano (da enxurrada de palavras que nos faz viver da e na ilusão) para tentar criar uma situação em que o sujeito aprenda a lidar com a sua fantasia, com o abismo que ele próprio é, e com a pergunta que faz a esse abismo, sabendo que tanto a pergunta como o abismo não tem eco nem fundo. Apenas uma pessoa que escuta, e um falante que se escuta.

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Foto: Sophie Pawlak
Fonte: http://www.ma-nouvelle-vie.net/index.php

NECESSIDADE BÁSICA


Este livro pode ser considerado como uma necessidade básica para quem queira entender alguma coisa do ser humano.
Pertence aliás a uma colecção que toda ela é fundamental - e eu ainda não tinha percebido isso antes de me debruçar esta tarde sobre o assunto (o livro foi comprado e foi-me emprestado pelo meu amigo Gonçalo Velho recentemente!) - e que explica os autores e os conceitos por desenhos e texto.
Mas, atenção, estamos perante um livro de primeiríssima qualidade, escrito por um especialista de Lacan. Isto não é para crianças... nem adolescentes! É mesmo muito rigoroso !!!
Há que aliás consultar toda a colecção em www.iconbooks.co.uk
e
http://www.iconbooks.co.uk/
introducingbooks/home.htm


Você não percebe grande coisa de psicanálise? Também eu não.
Você não topa o Lacan? Pois eu lá vou topando pouco a pouco, que o homem não é fácil.
Você quer um primeiro livro para se meter no assunto? Por favor compre este. Entre bem no novo ano.

E veja só a lista de temas da colecção:

Anthropology
Buddha
Chaos
Chomsky
Consciousness
Critical Theory
Cultural Studies
Derrida
Einstein
Empiricism
Ethics
Evolution
Evolutionary Psychology
Foucault
Freud
Genetics
Hinduism
Islam
Jung
Kant
Lacan
Linguistics
Logic
Marxism
Mathematics
Mind and Brain
Modernism
Nietzsche
Philosophy
Plato
Postmodernism
Psychology
Quantum Theory
Romanticism
Sartre
Semiotics
Sociology
Stephen Hawking
Time
Wittgenstein

Clean

Photo: Ernesto Timor
Source: http://www.ernestotimor.com/pages/_01_unfixed00.html



The post-industrial society has created two ways, two opposite and complementary places or destinies “to put order” into the territory and “to get rid” of obsolete objects:
or to recycle them as heritage, as museum (which may be a park or an entire landscape)
or to bury the waste inland or in the sea.

Both are part and parcel of the same:

that which is to be seen, excavated if necessary, and then exposed as a monument;

and that which is the rubbish, the refuse, which is to be hidden in a deep excavated hole, taken out of sight, as the repressed of the production/consumption machine.


Nicole Kidman



Source:
http://www.amazon.co.uk/Nicole-Kidman-David-Thomson/
dp/0747585512/ref=sr_1_1?ie=UTF8&s=books&qid=1199109457&sr=1-1

Nicole Kidman (Paperback)
by David Thomson (Author)

Paperback: 320 pages
Publisher: Bloomsbury Publishing PLC; New Ed edition (3 Sep 2007)
Language English
ISBN-10: 0747585512
ISBN-13: 978-0747585510

“Synopsis
Nicole Kidman, Oscar winner, is more than a movie star. She is the leading female celebrity icon of our age, her face and body appear in the media the world over, and she often commands a salary of over 10 million dollars a picture. However, there is something mysterious and not quite settled about her, which is why David Thomson, one of the world's greatest film critics, knew he had to write about her. Whilst there may (just) be more attractive women on the screen, none has such a talent for transforming herself. This is a biography of a curly-red-haired girl from Australia who has become a world-famous actress. It is a searching treatment of the acting and business career, and a tribute by an admirer to a woman who has it in her to move millions of strangers.”

Exemplo a seguir

Por exemplo, esta universidade irlandesa, com o seu respectivo departamento de arqueologia:
Department of Archaeology,
National University of Ireland, Galway
Co. Galway, Ireland.


dá aos estudantes de doutoramento a possibilidade de terem a sua página na internet e estes aproveitam bem essa oportunidade. Por exemplo:


http://www.nuigalway.ie/archaeology/research_PhD_Hensey.html


Por que é que os nossos estudantes de doutoramento não criam cada um a sua página, ligada às instituições de acolhimento, elemento essencial para - entre outros - se sair do anonimato?
Os da FLUP podem e devem (se me permitem a expressão) contactar nesse sentido o gabinete de informática.

andres calamaro (rock argentino)



Source: http://www.youtube.com/watch?v=ky5BjK6bX0I&feature=related


Já agora, vejam esta:
http://sachara.wordpress.com/category/zizek/

de:

Sachara Lacanian Psychoanalysis
theoretical psychoanalysis weblog for asia

domingo, 30 de dezembro de 2007

Deriva, ou estratégia?


De que é que eu ando à procura, afinal? É uma pergunta que legitimamente me fazem alguns indivíduos, e que naturalmente eu faço a mim próprio, como qualquer pessoa que se habituou de certo modo a confundir a própria vida diária com um balanço constante dela. Uma necessidade de encontrar uma coerência retrospectiva.
E as pessoas fazem-me essa pergunta porque, à primeira vista, as minhas leituras são compulsivas e orientam-se em muitos domínios, desde aquele a que profissionalmente estou ligado, em que doutorei, até muitos outros que sempre me interessaram e cujo "aprofundamento" fui adiando, por imposições de tempo.
Não abordarei agora aqui especialmente, para não complicar, a questão da minha actividade poética. Há inúmeros investigadores que têm uma actividade "artística" paralela e isso não parece levantar problema (também o facto de se não o levantar é significativo, e tem evidentemente a ver com uma visão lúdica e menorizada da arte, mas isso fica para depois).


A questão é, pois: a que título me interessaram aqueles variados assuntos? Para satisfazer uma curiosidade, que muitos dizem ser "natural", constitutiva do seu humano? Não acredito nisso.

Por outro lado, não seria mais cómodo e sobretudo produtivo prosseguir o estudo, a pesquisa, num só domínio com que me familiarizei, e em que portanto à partida supostamente estou mais habilitado a dar contributos, a fazer avanços, a transmitir conhecimentos, e até a proteger-me de inevitáveis erros que surgirão se me aventurar a fazer incursões noutros campos?...

Esta questão põem-ma às vezes pessoas que estão muito próximas até (amigos e família), e que pensam que há aqui um processo de desencanto e fuga: a arqueologia em si não me satisfaria o suficiente; aliás não há grandes (nem pequenas, diga-se) condições para a fazer em Portugal c0mo uma actividade de interesse.
De modo que os espíritos menos rotineiros (entre os quais tomo a liberdade, ou assumo a responsabilidade pela pretensão, de me incluir) compensar-se-iam nesse processo de deriva e de libertação de constrangimento, de escape.


Ora bem, o conhecimento mudou muito nas últimas décadas, e os compartimentos em que nos especializámos, de facto, implodiram. É a famosa interdisciplinaridade, e mesmo transdisciplinaridade, de que há muito se fala, mas pouco se pratica, porque implica dominar bem mais do que um campo, e sobretudo trabalhar em equipa, em rede, percebendo pelo menos como fazer as pontes com as equipas participantes.
E isso já representa um esforço muito grande e um enorme investimento em tempo e dinheiro, dada a miséria logística da maior parte das nossas instituições.

Quer dizer, para fazer bem qualquer coisa, é necessário transgredir as fronteiras dessa "coisa", dessa disciplina, a que dizem que nos dedicámos, a que nos colaram como etiqueta. Para sermos "disciplinados" temos sobretudo de ser indisciplinados também... neste mundo de paradoxos.

Refere-se que estamos numa sociedade (e num regime de vivência, de experiência, e de conhecimento) líquida, multipolar, em que nada se deixa concrecionar durante muito tempo, em que há uma crise de valores, uma transição paradigmática, uma profunda indeterminação quanto ao futuro. Como o dinheiro e as pessoas, tudo só tem algum valor e estatuto (só rende, só ganha) se circular, se for nómada. E às vezes com grande rapidez. O capitalismo mais feroz tomou conta do planeta. E o terrorismo é a sua face oposta e complementar. Não dá para estar optimista.

Claro que isto (esta instabilidade e hipocrisia de fundo) promove e legitima, se não se tiver cuidado, toda a casta de superficialidades e de "falas-barato" que sabemos pulularem e poluírem o ambiente. Ainda ontem o Pacheco Pereira, numa crónica do Público, se referia ao mundo dos blogues como um universo da superficialidade... e com razão, na generalidade... mas nem toda a gente tem o espaço público de que ele dispõe para se exprimir!


Ao nível pessoal, e agora que está a acabar o ano convém olhar para trás (observando um processo que aliás já se havia intensificado em mim em 2006), e verificar que para além das actividades arqueológicas e poéticas habituais, participei este ano em algumas reuniões, com comunicação, de áreas em que estou ainda, e estarei decerto para o resto da vida, em processo de estudo.
Atrevimento, sem dúvida, e risco, mas... quem não arrisca não petisca. E aqui há uma nova atitude, que julgo não ser leviana, nem superficial, nem de ânimo leve. Mas ter profundas motivações e repercussões úteis (fulcrais mesmo) no meu próprio trabalho.


De facto, em Março fui a um colóquio internacional sobre o corpo e a textualidade (Barcelona - texto entregue para publicação mas versão mais extensa já publicada em Portugal); em Junho, participei na minha faculdade num encontro semelhante, mas em torno do teatro (texto entregue); e, em Novembro, noutro sobre a questão (infinita) da família (aguardo prazo para preparação e entrega de texto). Aprendi imensíssimo em todos. Não sou a mesma pessoa que era há dois anos!
Indico isto porque ir a colóquios e falar, sobretudo para sujeitos que tenham algum dom de palavra, pode não ser difícil... a questão (o sofrimento e a insatisfação) é quando chega o momento de se pôr tudo por escrito...
é preciso muita força de vontade, que para mim - como se dizia dantes - é uma forma de educação.

Todavia, já na comunicação apresentada ao TAG (Theorethical Archaeology Group Conference) de 2006, em Exeter (ver postagens anteriores), e entretanto publicada, eu tinha abordado o problema do conhecimento e da interacção pessoal como uma metáfora desse conhecimento, dessa abordagem do outro.
Tratava-se de uma sessão tendente a desmistificar um dos muitos lugares-comuns da arqueologia (e não só): o de que existe uma entidade separada, que designam "cultura material", e que seria suposto ser a nossa especialidade. Ora, tal conceito é absurdo.

E a questão de fundo é: não foi sempre isso que fiz como arqueólogo?... tentar perceber o Outro, o ser humano?... e não é isso que faz qualquer ciência social, desde que o regime que as criou emergiu, juntamente com a emergência do próprio humanismo moderno (fenómeno histórico tão bem observado por Foucault)?

Como escapar a essas interrogações? Continuar a pôr pontos no mapa, a bater sola no terreno, e a recolher cacos e pedras? Nunca me entusiasmei muito com isso, como se andasse a colectar conchas na praia, ou fósseis nas falésias.
Agora, fazer uma escavação como deve ser, com tempo, meios e em equipa, isso gostava e gosto... não negando a paixão de escavar (arqueologicamente) a que aludia há umas postagens atrás. O observador frio e racional, distanciado, não existe, é um mito, mas também um autêntico aborto que só produz abortos ou banalidades conceptuais - passe a violência da expressão.


Os "grandes problemas" (justificação retrospectiva típica) que, inconsciente ou subconscientemente, me levaram para a arqueologia, foram os das míticas "origens": a origem do "homem", da "arte", da sociedade, da complexidade psíquica e da afectividade - quer dizer, todos os problemas que os cientistas sociais estudam também.
Só que na época em que "escolhi" o meu curso não havia praticamente ciência sociais em Portugal. Havia sim uma estúpida guerra colonial para onde estaria destinado a ir malhar com os ossos se não tivesse sido assistente universitário (havia outras soluções, é claro, mais drásticas, sobretudo para quem não era filho de pai rico).
..

Ora, o que fui este ano em Dezembro fazer ao TAG de York? Organizar outra sessão sobre a arqueologia e os regimes da visão no contexto pós-moderno em que nos encontramos, e sobre cujo livro estou a trabalhar. Não tive aliás um único dia de férias de natal (dá-me aliás gozo fugir dos rituais colectivos... em pré-história e antropologia estudamos já muito disso), porque já dentro de dias vou tamnbém tentar explicar em Madrid, num congresso de arquitectos, por que é que não acredito na ideia de "paisagem cultural".

Sucintamente, o que vou dizer baseia-se na mesma ideia filosófica pressuposta na expressão "cultura material", de existência dois níveis sobrepostos, o de uma natureza (o material, a paisagem) à qual se sobreporia uma realidade humana, regida por regras diferentes, uma espécie de manto diáfano, que seria a cultura.
Esta dicotomia é constitutiva da nossa cultura ocidental, mas perfeitamente opaca para um australino, amazónico ou africano ainda não totalmente "aculturado" pelo "espírito europeu", como numerosos autores vêm demonstrando pelo seu próprio trabalho de campo.



Qual é, então, afinal, o meu problema, que também se relaciona com o "mote psicanalista" que dá nome a este blogue? O problema de relação inter-pessoal, da transferência, da tradução, das forças que movem a vida e a criatividade/improvisação, e nos impelem uns para os outros, e todos para o conhecimento, para o desvelamento de algo que a princípio nos parece enigmático, confuso, ininteligível.

Esse problema não se resolve apenas pela "racionalidade" do cognitivismo (castradora ilusão) nem pela "espontaneidade" (permita-se-me o esquematismo caricatural a palavra), dessa filosofia que procura ligar de novo o pensamento à vida, e que é (julgo) a inspiração da fenomenologia.


Não é fácil, não tenho solução, nem espero encontrá-la. Leio, farto-me de ler, aprendo com muitos, não acredito em nenhum (no sentido de andar a procurar gurus).
Espero sim delimitar melhor o meu desconhcimento, que é isso em que consiste conhecer: ver a distância (parte d)os desertos que é preciso atravessar, aventurar-se neles, orientar-se por pequenos indícios, numa solidão quase total (quem nos poderia realmente orientar não tem tempo, isso é outro mito inocente; apenas conseguimos apanhar umas dicas que procuramos depois explorar... quem tem valor nem para si tem tempo, quanto mais... é raríssimo!).


Uma palavra/conceito operatório central é, para mim, o de performance. Quer no sentido individual, quer colectivo, interactivo. Quer no sentido psicológico, ou sociológico, quer no sentido artístico, aquele que deriva da implosão do teatro, do drama tradicional.
A performance, o ritual, o teatro, o interaccionismo social, a inspiração psicanalítica, e a arte (nomeadamente o cinema como o de David Lynch e as artes performativas em geral, particularmente a dança), os media e a comunicação, é por aí que vou, tentando estabelecer links, que até não são difíceis de encontrar.
Mas é preciso gastar muito dinheiro em livros (isto em Portugal não vai com bibliotecas, nem com edições poruguesas, é uma penúria), passar horas em livrarias (sentado no chão, nas que não têm bancos ou sofás), fazer muitos cruzamentos, andar a apanhar aviões low cost para de vez em quando ir ao estrangeiro, suportar o calvário em que se transformaram os aeroportos (excepto o do Porto, ah tripeiros!) e ir encontrando, por detrás das aparências fascinantes, o que a cada um de nós nos interessa.

E depois vir para casa e com aborrecimento da família e amigos ler muito. Estudar intransigentemente apesar dos milhares de mensagens de boas festas (e até insultos nalguns desabafos de anónimos neste blogue... que pachorra que é preciso ter para com os infelizes) que uma pessoa se vê compelida a receber e a enviar.

Resistir a certas tentaçõesa consumistas ou aventureiristas... usar muito a internet e escolher cirurgicamente aqueles entretenimentos de qualidade, aquelas fugas, aquelas pessoas a quem vale a pena consagrar um pouco de tempo.
Mas sempre muito controladamente, com certa frustração assumida. Voltar sempre intransigentemente, como um velho militante, à tarimba.
E felizes daqueles como eu que assim alcançam satisfação apesar deste país, deste mundo e deste ambiente todo. Pode ficar-se paranóico ao ver certas figuras públicas recorrentes no televisor, e isso é mau para a saúde.

Enquanto pessoas como eu trabalham e se realizam minimamente, esquecem os telejornais e o que se passa, excepto no que é obrigatório. E vivem num país de sonho, que eles construitam.
Eu vivo, na minha fantasia (não tenho dinheiro para mais), algures entre Paris, Londres, Veneza, Florença... onde de longe em longe vou quando posso, para, como todo o português, e desde há muitos séculos, trazer um bocadinnho da civilização a que pertenço, a que quero desesperadamente pertencer.


E se pudesse ia mais ao Norte de África, e ia à Índia, e ia a certas universidades americanas passar um ano sabático. Fica para depois da minha morte, mas vai-me aguentando em vida. É utilíssimo sonhar.
E ter uma estratégia. Se possível afável, educada. Mas de uma intransigência total.
Ah, e gostava de ir ao Brasil (embora não para me meter na confusão de S. Paulo, por caridade...), mas nunca ninguém me convidou... mas não estou nada ressentido com o mundo nem com ninguém.
Feliz e Próspero Ano Novo, repito como papagaio, já que me lembrei dos brasis...
____________
Foto: Anja Friers
Fonte: http://www.anja-frers.de/

APELO

A Eduarda tem 29 anos e uma Leucemia Mielóide Aguda - LMA. Para a vencer, precisa urgentemente de um transplante de medula óssea. Infelizmente, os familiares não são compatíveis! É por isso que a Eduarda precisa de si. Não custa nada, só lhe pedimos a sua solidariedade e que se inscreva no Banco de Dadores de Medula Óssea.

CEDACE, Registo Português de Dadores de Medula Óssea Hospital Pulido Valente

Alameda das Linhas de Torres, 117

1769-001 LISBOA

Tel. 21 750 41 00

Fax. 21 750 41 41

Centro de Histocompatibilidade do Centro

Pcta Prof. Mota Pinto - Edf.São Jerónimo, 4º Apartado 9041

3001-301 Coimbra

Tel: 239480700/719

Centro de Histocompatibilidade do Norte

R.Roberto Frias - Pavilhão Maria Fernanda

4200-467 Porto

Tel. 22 51 9102 ou 22 557 3470

From Marcus Brittain

Dear Colleagues,

I am pleased to inform you that ARCHAEOLOGY AND THE MEDIA,
edited by Timothy Clack and Marcus Brittain, has recently been
published (Left Coast Press, 2007, Hardback 978-1-59874-233-6,
Paperback 978-1-59874-234-3). Under 5 different themes, its contents are:

Preface Chapter 1. "Introduction: Archaeology and the Media", by Marcus
Brittain & Timothy Clack (pp. 11-65)

PART I. Archaeology's Reception of the Media Chapter 2. "An Archaeological
Fashion Show: How Archaeologists Dress and How they are Portrayed in the
Media", by Cornelius Holtorf (pp.69-88) Chapter 3. "Not Archaeology and the
Media", by Peter Fowler (pp.89-107)

PART II. Translating Archaeological Narratives Chapter 4. "A Short History
of Archaeological Communication", by Karol Kulik (pp. 111-124) Chapter 5.
"In the Camera's Lens: An Interview with Brian Fagan and Francis Pryor", by
Marcus Brittain and Timothy Clack (pp. 125-134) Chapter 6. "Darkness
Disseminated: Lennart Larsen's Images as Photojournalism, Pop Archaeology,
and Works of Art", by Christine Finn (pp. 135-150)

PART III. Has the Media Changed Archaeology? Chapter 7. "Archaeology and
the German Press", by Marion Benz and Anna Katrien Liedmeier (pp. 153-174)
Chapter 8. "Great War, Great Story: A Personal View of Media and Great War
Archaeology", by Jon Price (pp. 175-184)

PART IV. Visual Archaeology Chapter 9. "Screening Biases: Archaeology,
Television, and the Banal", by Timothy Taylor (pp. 187-200) Chapter 10. "
'Worldwonders' and 'Wonderworlds': A Festival of Archaeological Film", by
Tom Stern (pp. 201-220) Chapter 11. "Faking It: Why the Truth is so
Important for TV Archaeology", by Angela Piccini (pp. 221-236) Chapter 12.
"The Iconography of Exhumation: Representations of Mass Graves from the
Spanish Civil War", by Layla Renshaw (pp. 237-251)

PART V. Archaeology, the Media, and the Digital Future Chapter 13. "The
Past as Playground: The Ancient World in Video Game Representation", By
Andrew Gardner (pp. 255-272) Chapter 14. "Digital Media, Agile Design, and
the Politics of Archaeological Authorship", by Michael Shanks (pp. 273-289)

Index


From back cover:

"Archaeology fascinates the public. As a result, archaeologists deal with
media and media issues much more regularly than colleagues in other
academic disciplines. Archaeologists need mass media to communicate their
research to the public who read, support and, ultimately, fund their work.
Media logic has often coloured how archaeologists do that work and report
their findings. In this volume, a group of distinguished archaeologists,
many with media-backgrounds, address the wide range of questions in this
intersection of fields. They explore the crucial question: what are the
long-term implications of the increasing exposure through - and reliance
upon - media forms for the practice of archaeology? An array of media forms
are covered including television, film, photography, the popular press,
art, video games, radio and digital media. The volume will be of interest
to public archaeologists, public historians, communication researchers, and
their students."

Sincerely,
Marcus Brittain

***************************
Cambridge Archaeological Unit,
Department of Archaeology,
University of Cambridge,
Downing Street,
Cambridge,
CB2 3DZ

Johnny Flynn - Tickle Me Pink



Source: http://br.youtube.com/watch?v=rpRAHj4UmEw

The Black Cab Sessions. Chapter One: Johnny Flynn



Source: http://br.youtube.com/watch?v=L7-e9DFQb6M

Gosto muito deste autor, ou a atracção do barroco (e da sua ambiguidade...)

Este livro, que anda em torno de Nietzche, foi publicado pela Vega, e é de 1993.
Não sei se esta colecção ("Passagens"), dirigida por outro excelente autor (José Bragança de Miranda) ainda continua, mas está à venda (por exemplo, numa das melhores livrarias do país - pelo menos para assuntos de arte e de filosofia da arte, a de Serralves - livros da Verso e da Zone Books vêem-se lá com frequência, por exemplo...).
O último capítulo interessou-me muito: intitula-se "Formas do barroco na filosofia contemporânea". Sempre intui que a revalorização do barroco tinha muito a ver com os tempos de hoje. Como? Depois de ler este capítulo (que sigo nas notas seguintes) entendo melhor.
Características do barroco (Marques inspira-se aqui em Benjamin) que também se notam na pós-modernidade:
- Perda da teleologia, ou seja, de "uma causalidade final que oriente a acção em geral" (op. cit., p. 128)
- imanência rigorosa, ou seja, "(...) descentramento e a irradiação de acções, não a partir de um centro, fora de cada um dos sujeitos agentes mas, ao contrário, a partir de cada um deles." (ib, p. 129). A lógica barroca é "claramente anti-emanentista": não há "uma origem, mas origens imaginadas: caja sujeito, ele próprio suposto ser fonte de acção" (p. 129).
- desaparecimento da diferença entre aparência e ser (p. 128), que "só tem sentido numa lógica da transcendência, em que para lá do aqui visível e compreensível houvesse uma razão que a justificasse." (p. 130).
- fraccionamento e proliferação de signos em geral (p. 128), ligados à proliferação das "supostas origens", "dos pontos de vista", das "representações" (p.130).
E acrescenta o autor (p. 131):
" A perda de transcendência e de sensibilidade escatológica, a multiplicação das perspectivas, ligada à fragmentação do tecido tecnológico, parecem ser na realidade limites, mas também pontos de partida, para a errância cultural e a auto-reflexão do homem contemporâneo."
Refere depois Nietzsche e o seu "panperspectivismo" (ib.)...
Mas também o "carácter complexo e antitético que o próprio Barroco essencialmente é" (ib.), ao paradoxalmente se ligar ao que o autor designa (lembrando a componente mística e teológica da "alma barroca" - ib.):
- a nostalgia da origem, sempre presente segundo Benjamin no drama barroco (ib.)
- a vertigem, a visão mística da totalidade e da mimesis universal, contada no modo da alegoria, da "proliferação semiótica sem fim" ((p. 133) (diferente da "obtida no drama, a partir do puro jogo e da ilusão mais pura que o ser" - pp. 132 e 133).
Em autores como Heidegger ou Benjamin encontram-se, para Marques (p. 133), essas categorias da "emanação", da "mimesis" universal e da "origem", "categorias de uma tradição que prefere o registo esotérico ao registo crítico, imanentista e possivelmente dissolvente" de Nietzsche. As ambiguidades do barroco ("imanência e proliferação dos signos", "desdobramento de perspectivas", mas também "nostalgia da origem" e "vertigem da totalidade", estão presentes em Leibniz (p. 134), sobre o qual, como é sabido, Deleuze escreveu.
Para Marques (ib.) - e peço desculpa destas contínuas citações, mas este pequeno e incisivo texto foi para mim muito importante - muitas filosofias, hoje, que se excluem mutuamente, que são antagónicas, reúnem-se, porém, na "forma alegórica" e no "fascínio pelo jogo dos signos".
Um autor, um livro, e um texto que recomendo vivamente!


Quotation - and some notes in English and Portuguese

About the film Erasehead, Todd McGowan writes very interesting things in his book "The Impossible Lynch" (New York, Columbia University Press, 2007, chap. One: "Sacrificing One's Head for an Eraser", pp. 26-48). Obviously, we do not need to agree with his psychoanalythical, Lacaninan interpretation. But it gives us interesting clues to think about the film, about "fantasmatic fulfillment". For instance: 

the film "(...) evinces a full commitement to fantasy in its denouement, and this full commitment exposes both fantasy's liberating possibilities and its steep costs."

Este filme e este livro é para mim fundamental para entender este extraordinário artista contemporâneo, talvez o maior cineasta, hoje, o que levou o cinema até às suas autênticas possibilidades de nos transportar para o interior da fantasia, mas no sentido oposto ao "entertainment" vulgar de Hollywood, que nos cola à fantasia. Pelo contrário, a figura principal do filme está sempre dentro da fantasia mas vive-a como sofrimento, como vazio, como privação de uma falta fundamental, por assim dizer "originária", constituinte da própria realidade de ele (de se) ser. Vive-a porque a linguagem cinematográfica de Lynch a escreve ou inscreve assim, numa utilização genial de cada elemento da matéria fílmica, do tempo à luz, para dar esta incomodade radical de estar vivo, dentro de uma ordem simbólica.
Lynch mostra-nos que o cinema  - e a sua libertação da narrativa "literária" que conforma a maior parte dos filmes que vemos, das "histórias" que nos entretêm - está agora a começar, e de certa forma a ser pensado, como uma arte que conjuga várias artes (pintura, teatro, música, fotografia, etc) para a criação de universos que são próximos aos do nosso inconsciente, ou como queiram chamar-lhe, isto é, que se aproximam de uma espécie de "denúncia" do que de mais íntimo cada um de nós "transporta", isto é, faz e refaz incessantemente, fora das explicações "racionalistas" (reducionistas, para não dizer outra coisa) de muitos psicólogos e outros castradores daquilo que é a imensidade do enigma humano, a sua fascinação, diferente de um ser para o outro.

Eraserhead



Source: http://br.youtube.com/watch?v=cX_FNAN6EGI&feature=related

Eraserhead



A short on Eraserhead which actually features more talk about the actual movie from David Lynch than the DVD has.


Source: http://br.youtube.com/watch?v=9kJEQeE8opA

David Lynch - Eraserhead



A five min teaser to one of the most original films ever.

Source: http://br.youtube.com/watch?v=VBMQtkrJgJY

Eraserhead de David Lynch finalmente no Porto - no cinema do Campo Alegre só por mais uns dias!



Source: http://br.youtube.com/watch?v=twR7brgBXoE

sábado, 29 de dezembro de 2007

Comunicado da Direcção da APA

"COMUNICADO DA DIRECÇÃO DA ASSOCIAÇÃO PROFISSIONAL DE ARQUEÓLOGOS


"A direcção da Associação Profissional de Arqueólogos (APA) teve conhecimento que não vão ser renovados os contratos de avença dos arqueólogos que exercem funções nesse regime no IGESPAR. Esta situação é extremamente grave já que são estes arqueólogos que
asseguram, desde a criação do IPA em 1997, a maior parte da intervenção operacional do Ministério da Cultura no âmbito do património arqueológico.

Com a cessação destes vínculos laborais põe-se em causa:

- a continuidade do trabalho das Extensões Territoriais do ex- IPA, que garantem o processo de licenciamento, fiscalização e aprovação de trabalhos arqueológicos, a maioria dos quais executados como medida preventiva em obras públicas e privadas;

- a capacidade de resposta do Ministério da Cultura nos processos de Avaliação de Impacte Ambiental e nas comissões de acompanhamento de elaboração de Instrumentos de Planeamento e Gestão do Território;

- a actualização e gestão do sistema de informação Endovélico, inventário georreferenciado de todo o património arqueológico em Portugal e instrumento fundamental da Carta Arqueológica Nacional;

- o funcionamento regular das actividades do Parque
Arqueológico do Vale do Côa, bem como o projecto do Museu do Côa, repetidamente afirmado como uma das prioridades do Ministério da Cultura.

Com esta situação, a Direcção da APA teme que possa haver graves perturbações do sector de construção pública e privada que está dependente da realização de trabalhos arqueológicos, e que se comprometa o cumprimento das obrigações do Estado face ao património arqueológico, conforme definido na legislação nacional e nas directivas comunitárias que o Estado Português ratificou.

Estranhamos que sejam dispensados os trabalhadores que têm sido agentes da profunda transformação positiva que teve a actividade arqueológica em Portugal desde a eclosão do “dossier Côa”, e receamos
que se possa retroceder significativamente nas políticas de protecção e valorização do importante património arqueológico português.

A Direcção da APA vem assim manifestar o seu profundo repúdio pela decisão tomada pelo Ministério da Cultura e exigir dos responsáveis políticos uma rápida e eficaz resolução dos problemas decorrentes
desta situação.

A Direcção da Associação Profissional de Arqueólogos

29 de Dezembro de 2007"

sexta-feira, 28 de dezembro de 2007

Benazir Bhutto Assassination



Source: http://www.youtube.com/watch?v=zX3XxD5TxRc

Benazir Bhutto


"Benazir Bhutto June 21, 1953 – December 27, 2007) was a Pakistani politician who chaired the Pakistan Peoples Party (PPP), a centre-left political party in Pakistan affiliated to the Socialist International. Bhutto was the first woman elected to lead a Muslim state, having been twice elected Prime Minister of Pakistan. She was sworn in for the first time in 1988 at the age of 35, but was removed from office 20 months later under the order of then-president Ghulam Ishaq Khan on grounds of alleged corruption. In 1993 Bhutto was re-elected but was again removed in 1996 on similar charges, this time by President Farooq Leghari.
Bhutto went into self-imposed exile in Dubai in 1998, where she remained until she returned to Pakistan on 18 October 2007, after reaching an understanding with President Musharraf by which she was granted amnesty and all corruption charges were withdrawn.
She was the eldest child of former prime minister Zulfikar Ali Bhutto, a Pakistani of Sindhi descent, and Begum Nusrat Bhutto, a Pakistani of Iranian-Kurdish descent. Her paternal grandfather was Sir Shah Nawaz Bhutto, who came to Larkana Sindh before partition from his native town of Bhatto Kalan, which was situated in the Indian state of Haryana.
She was assassinated on 27 December 2007, by two gunmen as she was entering her SUV after a gathering of the Pakistan People's Party. Shortly thereafter, a suicide bomber exploded in the crowd, killing 14 people and injuring many others. On December 28, a member of Al-Qaeda was believed to have masterminded the attack.


Source: http://en.wikipedia.org/wiki/Benazir_Bhutto

Viver como máquinas, conviver com máquinas







Fonte da imagem: http://en.wikipedia.org/
wiki/Image:Duck_of_Vaucanson.jpg

__________________

A máquina - essa "externalidade", e que pode fazer as coisas por nós, diferente do instrumento, que era um prolongamento de nós, do braço por exemplo - é, toda a gente o sabe, o paradigma da modernidade, a sua metafísica, a sua teologia.

A máquina por excelência é pois o autómato: o que teoricamente nos substituiria por completo, perfazendo (muito melhor que nós, dizem os fascinados por ele) todas as tarefas com muito maior rapidez, eficiência, e até inteligência: de facto, esta não teria de ter uma base orgânica.
E quanto a biografia, cuidado com as precipitações...há que ver se um computador altamente sofisticado não tem toda uma história e não pode gerar uma espécie de "auto-reflexão" sobre esse historial. Não será isto com que sonham os pesquisadores da inteligência artificial?
Nada de criar uma teologia do humano, como se fôssemos algo assim tão diferentes.
Claro que os adoradores das máquinas (um dos muitos cultos contemporâneos, e dos mais rentáveis) procuram imitá-las, tendo-se a si próprios tornado há muito máquinas também, ou fazendo esforços desesperados por isso.
Anonimato, relação máquina a máquina, provimento de serviços por comandos automáticos - eis o paradigma.
Ideal. Perfeito, limpo, sem atrito nem ruído. Civilizado.
Permite poupar imenso em pessoal.

Cruzar dados, ordenar, arrumar, classificar, vigiar, controlar - eliminar o segredo, transformar a privacidade numa espécie de paródia de si própria: a repetição do seu (dela privacidade, sacralizada) direito é o sintoma da sua não existência.

Tudo isto permite-nos poupar imenso em sentimentos.
E gastar imenso em psiquiatras (e outros médicos, porque o stress resultante de irmos atrás das máquinas tem consequências orgânicas de todos conhecidas). Felizes aqueles especialistas de curar a "psique" alheia, que (apesar de terem de aturar muitos malucos, certamente) devem ouvir umas histórias picantes, e no fim, maquinalmente, ver a sua continha de banco sempre a subir. E com toda a experiência alcançada, é ainda possível, se se for inteligente, escrever uns livros interessantes, que serão avidamente procurados nas livrarias por sujeitos em défice emocional (haverá uma estante para senhoras... já há). É negócio que nunca falha.
Tudo isto não é nostalgia da pré-história, nem vontade de voltar a um mundo anterior ao de hoje. Sofreu-se horrivelmente no passado (os gritos chegam até aqui) e as máquinas dão-nos muito jeito.


Como dizia uma vendedora do meu primeiro computador Mac quando tive de o substituir por outro, após ter pago na altura, tudo somado ao fim de uns anos, para aí uns 700 contos ao banco em prestações e juros (incluindo impressora, e adentro daqueles descontos para educação, etc.):
"Não pense mais nisso - "isso" era a pena que eu tinha de abandonar o computador a que já me tinha afeiçoado, e também o dinheiro que eu ia gastar com o computador seguinte - nem ligue a ter de deitar fora o computador que já não lhe serve: pense no que ele entretanto lhe permitiu fazer."
E eu pensei que devia ter realizado coisas extraordinárias para naquela altura ter pago tantas centenas de contos.
Senti-me importante, ou talvez ridículo: deveria ter escrito coisas mais importantes, por tanto dinheiro. Mas enfim...

A afectividade ainda podia ser salva:
- ou se houvesse um mercado para resgate das máquinas obsoletas; por pouco que nos dessem, sentíamo-nos menos culpados por ter de pagar tanto;
- ou se houvesse um museu onde as meter (ganhavam nova função); mas o mundo produz muito mais objectos para obsolescência rápida do que museus; de forma que a alternativa é lixo. Estamos a acumular imenso lixo e imenso património e não se vê onde isto vai dar...
- ou se tivesse espaço pessoal para fazer um museu meu, com tudo o que já consumi, no género daqueles gabinetes de curiosidades ou daqueles móveis para pôr as pratas da família, que havia dantes.


Porém, perante estas impossibilidades, vejo uma solução clarificar-se no horizonte.
Telefonar para empresa de mudanças e mandá-los deitar tudo quanto já não sirva para o lixo. O único (...) problema é ter tempo para proceder a essa difícil classificação, porque o servir e não servir (voltamos ao mesmo) têm contornos indecisos.
Isso é tema magno, para outras postagens...

Já estou a imaginar o telefonema, em voz gravada de menina de atendimento (não sei se é esta a expressão técnica, e não quero ofender nenhuma "operadora"):


"- Bom dia. Reciclagens e Mudanças. Se for para máquinas, prima a tecla um.
- Máquinas. Se for para computadores, prima a tecla três.

- Computadores: diga o nome, morada, etc., e o dia em que quer que vamos buscar a sua casa.
- Operação concluída. Toque na tecla x.
- Êxito, Sr. Vítor Jorge. Iremos buscá-lo no dia x às tantas horas."


Buscá-lo?! Deixa ver...
Ai, bolas, enganei-me no código! Era uma agência funerária, e fui dar o meu nome.
Agora virão buscar-me como cadáver ainda vivo?!
Não haverá máquinas para resolver estes casos?


Claro que sim, esteja perfeitamente tranquilo. O sistema é reversível, existe sempre a possiblidade automática de auto-correcção. Era o que faltava.



Que bom.


"Vamos já tomar conta disso e corrigir a encomenda, substituindo por uma nova, que passa a ter o código (...).

Um bom reveillon, Sr. Vítor Jorge."


Também para si.

Ai, bolas, desculpe, enganei-me de novo; esqueci-me de que era uma gravação.
Mas você não me ouve, dá o mesmo.
Silêncio.

"Sr. Vítor Jorge, para sua segurança, informamos que esta conversa foi inteiramente gravada".

Three interesting books

Paperback: 120 pages
Publisher: Stanford University Press (31 Jan 2004)
Language English
ISBN-10: 0804747385
ISBN-13: 978-0804747387
Synopsis
In "The Open", contemporary Italian philosopher Giorgio Agamben considers the ways in which the "human" has been thought of as either a distinct and superior type of animal, or a kind of being that is essentially different from animal altogether.
Source:
http://www.amazon.co.uk/Open-Man-Animal-Crossing-Aesthetics/
dp/0804747385/ref=sr_1_1?ie=UTF8&s=books&qid=1198844607&sr=1-1


Paperback: 400 pages
Publisher: Stanford University Press (31 Aug 2005)
Language English
ISBN-10: 0804742448
ISBN-13: 978-0804742443
Synopsis
Using the philosophy of Jean-Luc Nancy as an anchoring point, Jacques Derrida in this book conducts a profound review of the philosophy of the sense of touch, from Plato and Aristotle to Jean-Luc Nancy, whose ground-breaking book Corpus he discusses in detail. Emmanuel Levinas, Maurice Merleau-Ponty, Edmund Husserl, Didier Franck, Martin Heidegger, Francoise Dastur, and Jean-Louis Chretien are discussed, as are Rene Descartes, Diderot, Maine de Biran, Felix Ravaisson, Immanuel Kant, Sigmund Freud, and others. The scope of Derrida's deliberations makes this book a virtual encyclopedia of the philosophy of touch (and the body). Derrida gives special consideration to the thinking of touch in Christianity and, in discussing Jean-Luc Nancy's essay "Deconstruction of Christianity," devotes a section of the book to the sense of touch in the Gospels. Another section concentrates on "the flesh," as treated by Merleau-Ponty and others in his wake. Derrida's critique of intuitionism, notably in the phenomenological tradition, is one of the guiding threads of the book. On Touching includes a wealth of notes that provide an extremely useful bibliographical resource. Personal and detached all at once, this book, one of the first published in English translation after Jacques Derrida's death, serves as a useful and poignant retrospective on the work of the philosopher. A tribute by Jean-Luc Nancy, written a day after Jacques Derrida's death, is an added feature.
Source:
http://www.amazon.co.uk/Touching-Jean-Luc-Meridian-Crossing-Aesthetics/
dp/0804742448/ref=sr_1_1?ie=UTF8&s=books&qid=1198844785&sr=1-1



Paperback: 272 pages
Publisher: Routledge (10 Feb 2000)
Language English
ISBN-10: 0415908809
ISBN-13: 978-0415908801
Book Description
Vital Signs offers a radical new understanding of the role of psychoanalytic theory in contemporary French thought. Drawing on the work of Lacan, Kristeva, Foucault, and lesser-known thinkers Eugenie Lemoine-Luccioni and Catherine Millot, Shepherdson argues that we have misinterpreted the nature/culture distinction in relation to psychoanalysis.

Synopsis
Vital Signs offers a radical new understanding of the role psychoanalytic theory in contemporary French thought. Drawing on Lacan, Kristeva and Foucault among others the author bridges the gap between theory and clinical practice.

Source: http://www.amazon.co.uk/Vital-Signs-Nature-Culture-Psychoanalysis/
dp/0415908809/ref=sr_1_1?ie=UTF8&s=books&qid=1198845165&sr=1-1

circo





há dias em que o corpo se tem de erguer
fincando bem um braço na base da manhã.

contra o ar, contra as palavras, contra a inércia
dos móveis, o corpo tem de se erguer, potente.

contra a complacência, contra a gravidade.
subir da manhã até à noite pelas cordas,
pelos trapézios da alegria.

até à hora de acender as velas, de abrir a boca
para tentar apanhar-te em movimento.
ao encontro do teu hálito como um sólido.

e ainda que o toque dos teus cabelos seja apenas
um breve momento, subir e descer por ele
com o corpo todo esticado.

sentir as razões das horas lentas
trepar-me pelo peito; lançar-me com jeito
para o outro lado da cúpula.

ver acender e apagar continuamente as luzes.
apartar o teu corpo dos adereços,
como quem separa a clara da gema.

e com aquele gesto bem treinado, dominar
a manhã com o corpo todo fincado,
subir pelas horas, cruzar-te toda de espadas.

e ressuscitar-te na luz das espáduas;
lançando à minha frente o sexo como um pássaro
em busca da tua sucção, do teu trapézio forte.

abrir em cima de cada vela, de cada trampolim,
os augúrios do dia feliz, apesar de tudo.
fazer entumescer os pássaros até à dor.

há dias em que o tecto do circo
tem de ser feito de falos azuis, pénis felizes
em perfeito equilíbrio, segurando a noite,
a atenção do público, as tuas palmas.

esta arquitectura, esta reacção contra todas
as mordaças das horas, das cordas que se nos enovelam,
das écharpes pendentes.

erguer as forças com toda a força.
acima das cabeças das pessoas.
abrir bem as pernas sobre os pavores
da doença, cravar cada prego no seu sítio.

fundo. até os olhos não poderem mais.
preenchendo impulsos primários.
subir pelas cordas dos genitais.



voj 2007







Fotos: Matt Haber
Fonte: http://www.matthaber.com/

Já que o Baudrillard anda tão na baila neste blogue...


... aqui vai um sublinhado que fiz neste livrinho (publicado por Éditions Grasset & Fasquelle em 1983 - temas do mesmo: o êxtase e a inércia; figuras do trans-político; as estratégias irónicas; o objecto e o seu destino; para um princípio do mal) em 1991 (p. 8):

"Nous chercherons qualque chose de plus rapide que la communication: le défi, le duel. La communication est trop lente, elle est un effet de lenteur, elle passe par le contact et la parole. Le regard va plus vite, il est le médium des media, le plus rapide. Tout doit se jouer instantanément. On ne communique jamais. Dans l' aller et retour de la communication, l' instantanéité du regard, de la lumière, de la sédution est déjà perdue.
Mais aussi, contre l' accélération des reseaux et des circuits, nous chercherons la lenteur - pas la lenteur nostalgique de l' esprit, mas l' immobilité insoluble, le plus lent que le lent: l' inertie et le silence. L' inertie insoluble par l 'éffort, le silence insoluble par le dialogue. Il y a un secret là aussi."


Bons tempos!

quinta-feira, 27 de dezembro de 2007

Memória, identidade, Memento

"Lenny, you can't trust a man's life to your little notes and pictures.
- Why not?
- Because your notes could be unreliable.
- Memory's unreliable.
- Oh, please.
- No, really. Memory's not perfect, it's not even that good. Ask the police. Eyewitness testimony is unreliable. The cops don't catch a killer by sitting around remembering stuff. They collect facts and draw conclusions.
- That's not what I'm saying.
- Facts, not memories. That's how you investigate. I know, it's what I used to do. Memory can change the shape of a room, it can change the colour of a car. And memories can be distorted. They're an interpretation, not a record. They're irrelevant if you have the facts."

Christopher Nolan, Memento (2000)

Courbet em Paris

Gustave Courbet, "L'Origine du Monde" (1866)

Gustave Courbet
Paris Galeries nationales du Grand Palais du 13 octobre au 28 janvier 2008

Avant d’être présentée en 2008 au Metropolitan Museum de New-York et au Musée Fabre de Montpellier, l’exposition consacrée à Gustave Courbet (1819-1877) que le public pourra découvrir au Grand Palais à partir du 13 octobre, fait écho à la dernière grande rétrospective organisée à Paris il y a déjà trente ans. La publication en 1992 de la correspondance de l’artiste et l’étude des rapports entre son oeuvre et la photographie ont permis depuis d’enrichir de manière significative la connaissance de celui qui apparaît aujourd’hui comme l’un des artistes majeurs du XIXe siècle. Cent vingt peintures – dont l’Atelier d’artiste et l’Enterrement à Ornans exceptionnellement déplacés depuis le Musée d’Orsay – une trentaine d’œuvres graphiques et une soixantaine de photographies permettront des rapprochements et des confrontations qui ne manqueront pas d’enrichir notre connaissance du peintre de la Cribleuse de blé du Musée de Nantes et de la Rencontre (le célèbre Bonjour Monsieur Courbet) conservée au musée récemment rénové de Montpellier. Avec Jules Vallés, la postérité a retenu de Courbet l’artiste révolutionnaire, le communard accusé d’avoir fait abattre la Colonne Vendôme, celui « qui a traversé les grands courants, plongé dans l’océan des foules et entendu battre comme des coups de canon le coeur d’un peuple. » mais celui qui mourut dans son exil suisse fut aussi un fondateur d’école qui a ouvert à la peinture de nouveaux horizons.

Né à Ornans, dans le département du Doubs, en juin 1819, entré au petit séminaire à onze ans, il ne s’intéresse qu’au dessin, tout en subissant l’influence de son grand père maternel, nostalgique des idéaux républicains de 1793. Collégien à Besançon où il loge dans une chambre de la maison natale de Victor Hugo, il néglige les études et, monté à Paris pour y faire son droit, il choisit finalement de se consacrer à la peinture. Il ne fera jamais le voyage de Rome, pèlerinage obligé de tout artiste depuis deux siècles, mais il travaille en plein air à Fontainebleau et se rend aux Pays-Bas, « voyage indispensable pour un artiste, au point que trois années de travail ne pourraient le remplacer. » Inspiré par Van Ostade et négligeant les sujets mythologiques religieux et historiques chers aux artistes contemporains, il se distingue en cherchant la matière de ses toiles dans la réalité quotidienne de la vie provinciale. L’Enterrement à Ornans ou les Casseurs de pierre présentés au salon de 1850-1851 lui valent les foudres de la critique, qui se déchaîne contre la « trivialité » de cette peinture, que l’on soupçonne à tort d’être inspirée par le socialiste Proudhon. C’est pire avec les Baigneuses présentées l’année suivante et il lui faut le soutien du collectionneur montpélliérain Alfred Bruyas – qui lui permet de découvrir la Méditerranée – pour poursuivre sur le chemin qu’il s’est tracé. 1855 voit la naissance de l’école « réaliste » illustrée par l’Atelier du peintre. La côte normande ou les paysages forestiers lui fournissent une nouvelle source d’inspiration et il bénéficie, à la fin du Second Empire, d’une reconnaissance quasi officielle, même s’il refuse – pour ne pas compromettre sa réputation d’artiste contestataire – la Légion d’Honneur qui lui est alors offerte. Il sera membre de la Commune et c’est sur sa recommandation que sera abattue la colonne Vendôme. Emprisonné pendant six mois, il s’exile en Suisse en 1873 pour y mourir quatre ans plus tard, après avoir été condamné à payer les frais de la reconstruction du monument détruit. La victoire des républicains entraînera sa rapide réhabilitation et justice sera ainsi rendue au maître d’Ornans. La postérité donnera raison à Eugène Fromentin qui écrivait de lui en 1870 « qu’il sera salué de tous les côtés et rallié quand même à l’aristocratie du talent, dont il fait partie, malgré lui. »

source du texte: www.clio.fr

Amy Winehouse -You Know I'm No Good



Source: http://www.youtube.com/watch?v=HFVM5pVTwkM&feature=related

Amy Winehouse - "Rehab" Live on David Letterman



Source: http://www.youtube.com/watch?v=IlRF43-xaYc&feature=related

Amy Winehouse Back to Black



Source: http://www.youtube.com/watch?v=aygAu1x2uQo&feature=related

Ocupação

Que fazer com um "dia livre"?
Temos dificuldade de viver o mundo sem o polvilhar de tarefas e ocupações.
Procuramos a todo o custo esquecer que nada é real, que tudo é uma ilusão.
Queremos (julgamos) compreender. Temos dificuldade em aceitar que somos uma ficção.
Habitamos o vazio, e todos o intuímos desde cedo: por isso desde cedo se encarregaram de nos ensinar a fazer coisas, de nos distribuir tarefas, de nos ocupar.
Temos de estar ocupados para não nos ocuparmos no que seria a "verdadeira" Ocupação?
Talvez a verdadeira ocupação (??) pudesse ser pensar nisto (cito o Baudrillard em inglês, "Impossible Exchange", Londres, Verso, 2001, p. 11 - só se entende bem lendo o livro todo, que também existe em francês, como foi dito há dias neste blogue):
"The illusion of having "overcome" this uncertainty is a mere phantasm of the understanding - a phantasm which lurks behind all value systems and representations of an objective world, including the traditional philosophical question: "Why is there Something rather than Nothing? Whereas the true question should, rather, be: "Why is there Nothing than Something?"
Não posso transcrever mais, nem alongar-me em comentários, que exigiriam muito tempo.
Para fugir ao mais importante (e disfarçar a nossa ignorância, pois...) temos todos os dias boas desculpas, fornecidas de bandeja pela realidade, nas suas múltiplas formas.

O alvo a abater

"É pois aí, na falta de realidade, que é preciso fazer pontaria à ordem."

Baudrillard, Jean (1991) Simulacros e Simulações. Lisboa: Relógio d'Água

quarta-feira, 26 de dezembro de 2007

The European Archaeological Heritage Prize 2008


The European Archaeological Heritage Prize 2008

CALL FOR NOMINATIONS
The European Association of Archaeologists instituted the European Archaeological Heritage Prize in 1999.
An independent committee awards the prize annually to an individual, institution or government (local or regional) for an outstanding contribution to the protection and presentation of the European archaeological heritage. In principle, this can be any contribution that is outstanding and of European scope or importance, it does not have to be a scientific contribution. The prize for 2008 will be awarded during the Annual Meeting
of the EAA in Valletta, Malta, on Wednesday, 17 September 2008.
The EAA Committee for the European Archaeological Heritage Prize consists of: Anastasia Tourta (Greece), Jürgen Kunow (Germany), Paula Purhonen (Finland), Romuald Schild (Poland) and Willem Willems (the Netherlands; chairperson).
Previous winners of the award include: Manuel Carrilho (Minister of Culture, Portugal, 1999), Margareta Biörnstad (State Antiquarian of Sweden, 2000), Otto Braasch (Germany, 2001), Henry Cleere (United Kingdom 2002), Viktor Trifonov (Russia, 2003), Illicit Antiquities Research Centre (IARC)(Europe, 2004), Kristian Kristiansen (Denmark/ Sweden, 2005), John Coles ( United Kingdom 2006), Siegmar von Schnurbein (Germany, 2007).

The Committee will discuss all serious proposals for the award. Nominations may be made by any of the following:
• Members of the Association (all grades of membership)
• Professors and heads of departments of archaeology in European universities and institutes
• Directors of governmental heritage management organisations and agencies in European countries (members of the Council of Europe)
• Non-governmental archaeological, heritage and professional organisations in European countries

Timetable
You are invited to nominate a person, institution or government (local or regional).
Nominations, with full citations, should be sent to the EAA Secretariat, c/o Institute of Archaeology CAS, Letenská 4, 118 01 Praha 1, Czech Republic or by email to: eaa@arup.cas.cz
THE CLOSING DATE FOR RECEIPT OF PROPOSALS IS 1 MAY 2008


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O Motel dos Mistérios (de Macauley)



Li isto há muitos anos. Muito antes de pensar sequer que poderia vir a ser arqueólogo. Mas ainda hoje isto serve para mim como a melhor caricatura da arqueologia. Tenho esta história sempre presente. Aproveito e partilho:
http://www.utexas.edu/courses/swaffar/f04tc/pdf/Macaulay-Motel.pdf

Lacan e Heidegger



Fonte: Heideggeriana

A heideggeriana online é uma excelente site. Foi lá que encontrei esta pérola da Elisabeth Roudinesco: http://www.heideggeriana.com.ar/comentarios/roudinesco.htm
Trata-se de uma reflexão com tons biográficos da relação entre Lacan e Heidegger. P*ara os que se interessam é a não perder.

"THE AWARENESS TRAP" - Composição Coreográfica




Einzimmerwohnung 2005 Sílvia Pinto Coelho

WORKSHOP com
SÍLVIA PINTO COELHO
"THE AWARENESS TRAP"
Composição Coreográfica



Datas | 16 a 19 de Janeiro 2008
Horário | 15h - 19h
Dia 19 - apresentação informal - 18h00
Local | Fábrica (espaço Mau Artista e Teatro do Frio)
Rua da Alegria, 341 - Porto
Público-alvo | Adultos com experiência, ou estudos em artes performativas, nível aberto.
N.º limite de inscrições | 12

Inscrição | 60,00 Euros
Amigos e associados NEC | 42,00 Euros (desconto de 30%)



Sílvia Pinto Coelho

(1975) coreógrafa e intérprete de dança contemporânea, frequenta o mestrado de Cultura Contemporânea e Novas Tecnologias (FCSH). Formada em Antropologia (FCSH) e Dança (ESD). Fez o curso de Intérpretes de Dança Contemporânea do Fórum Dança e aulas de técnicas de corpo, de dança, de improvisação e de composição, em Portugal, Alemanha, Holanda, Itália, Roménia e Inglaterra. Interessa-se particularmente por processos de improvisação e de composição no âmbito dos quais pensa desenvolver a sua tese de mestrado. Foi membro fundador da produtora Pele Filmes, onde colaborou com Hugo Vieira da Silva em trabalhos de produção, argumento e documentário. Colaborou enquanto intérprete com Paulo Henrique, Peter Michael Dietz, Paulo Castro e Jack Shamblin. Enquanto coreógrafa, criou: Insectos, Porto, 1997; Corar, Coimbra, Almada, 1999; Instalação para tanque circular, Centa, 1999; Capítulo da Indiferença ou algo semelhante (com o apoio do IPAE/MC), Lisboa, 2000; Kula, Berlin e Leipzig, 2004, com Anka Baier e Gyuri Barkoczi; Einzimmerwohnung, 2005, Lousã, Vila Real, Berlim, Almada e Madrid. Em 2007 desenvolveu o Projecto 2007 com Rafael Alvarez e Nuno Cera que estreou em Berlim com a peça Süβ e o vídeo-dança Der traum.

Prepara um novo projecto para 2008.
The awareness trap*


A pretexto da “armadilha da consciência”, neste workshop proporcionaremos a composição de cenas a solo ou em grupo, abordando a noção de ridículo como gradiente de seriedade que emprestamos ao que produzimos. Quanto, de tudo o que libertamos ou constrangemos a trabalhar, é uma resposta directa ao narcisismo e a jogos de pertença ou exclusão de grupos identitários? Seja para assumir desde logo um certo individualismo do acto criativo enquanto afirmação do ego, ou para jogar jogos de manipulação de grupo, iremos trabalhar sobre as fronteiras do corpo e do espaço, sobre a partilha com e a invasão do outro. Começando por fazer um aquecimento com noções de contacto-improvisação, e lançando desafios que nos aproximem destes temas, iremos jogar, discutir, improvisar e compor movimento ou cenas. No final, será feita uma apresentação informal dos trabalhos.

* Schur, Edwin (1976): “The awareness trap, self-absorption instead of social change”


Organização | NEC
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Trabalho é trabalho, conhaque é conhaque, ou a miséria da nossa comezinha "ordem simbólica" (no sentido de Lacan)


Foto: Natasha Gudermane ("A man's fate")
Fonte: http://photo.net/photos/gudermane


A maior parte das pessoas conformou-se com a distinção entre o trabalho e o lazer.

O trabalho é em geral conotado com uma obrigação necessária à sobrevivência - é chato. Isola cada um nas suas responsablidades profissionais, mas suas tarefas.
O lazer é conotado com outra obrigação, assumida ou implícita - a da pessoa se distrair e de estar com os outros.

Mas a maior parte das distracções deixa sabor a pouco. E a maior parte das pessoas não se revela no seu interesse, não se empenha nos outros, tem medo, não toma a iniciativa de sair do seu pequeno círculo, encapsula-se.
Então o lazer torna-se um frete ainda maior que o trabalho, a verdadeira socialização só se dá em pequenas capelinhas, e a pessoa anseia por regressar ao dito "trabalho" onde apesar de tudo está distraído e é útil, quando não consegue ser mesmo algo criativo. Pelo menos queima energias, e às vezes entusiasma-se, imagine-se!


Quando descubro alguma ideia que julgo interessante, ou quero transmitir uma experiência que sinto inusitada, procuro a figura do interlocutor. Um interlocutor (abstracção) é a "coisa mais importante" que podemos ter na vida, porque a relação que com ele(a) se estabelece em princípio não conhece as barreiras do trabalho e do lazer, da amizade, da afectividade, do desejo, da sexualidade (obsessão contemporânea... como problema - estamos na cultura do orgasmo, o que é péssimo para o prazer que de facto dá, como toda a gente adulta sabe).

Quer dizer, ultrapassa os mecanismos da frustração que se geram nessas compartimentações, nessas camisas de forças, nessas institucionalizações da vida classificada, arquivada.
O(a) interlocutor(a) ideal seria(m) a(s) pessoa(s) com a qual (as quais) idealmente posso (poderia) fluir de um tipo de relação (não) classificada para outro, isto é, posso (poderia) sentir essa disponibilidade no(a) outro(a) relativamente a mim.

O que eu espero é a ausência de barreiras, é poder prosseguir um caminho como quem percorre uma praia sem ter de estar sempre a mirar a areia, no medo de se espetar numa agulha infectada (infelizmente a realidade está cheia de agulhas infectadas).

A disponibilidade real para o outro não conhece classificações, nem barreiras. Por isso muito do que se escreve sobre a amizade, o amor, etc., são em geral banalidades ou tretas.
O que eu (cada um de nós) quero (quereria) era encontrar no outro o meu desejo de mim, ou seja, a receptividade absoluta, o encaixe perfeito: a expectativa de um mim que eu próprio desconheço, e que esse olhar "apaixonado" (intensamente interessado) do outro me devolveria, me revelaria. O que eu quero é ver-me num espelho antes do "espelho inicial" me ter cindido em (pelo menos) dois.

Como sei que existem milhares, se não milhões, de potenciais interlocutores no mundo, que não me conhecem e que não conheço, necessito de "me publicar", de me tornar "figura pública", não sobretudo por vaidade ou narcisismo primário (credo!), mas pela vontade de chegar até essas redes de inter-relação verdadeiramente densas de sentido, de sentido emocional e intelectual (malditas dicotomias).

Questão de escala: o que eu procuro, ao fugir dos encontrozinhos, das amizadezinhas, das cumplicidadezinhas, das famíliazinhas, das emoçõeszinhas... é, como todos os que se identificam com esta sensação de ansiedade pela grandeza, pela completude, um mundo em que não haja contemplações para com a mediania, o entretenimento vulgar, a pendular movimentação, quotidiana,
entre o trabalho e o conhaque.

E depois temos as inevitáveis e omnipresentes pequenas seduções ensaiadas, o consumismo do outro,
o mascar e deitar fora, a mania que muitas mulheres (agora?) têm de que basta um piscar de olhos e lá vai o macho atrás... oh, meu deus, que penúria, que miséria! Um macho era bom para puxar carroças no tempo em que elas existiam, minhas!
Sejam mais subtis, por amor de deus! Deixem de estar obcecadas pela imagem, por esses tiques ridículos da chamada "feminilidade".
Vocês atraiem muito mais sendo apenas pessoas interessantes, não precisam sequer de ser giras.
Ainda não perceberam, vocês que acham a maior parte dos homens brutos e se acham a vós próprias muito subtis?
A não ser que queiram apenas encontrar "machos" e resolver problemas de "higiene sexual", como qualquer necessidade fisiológica urgente. Estão no vosso direito, boa curtição.
Nós, os convencionalmente classificados homens heterossexuais (...), também estamos a fazer a nossa revolução silenciosa, o nosso processo de nos autonomizarmos do vosso poder ancestral!
É um mito a superioridade universal masculina, nós homens estamos presos de imensos fantasmas que frequentemente vocês desconhecem.
A obsessão por exemplo da virilidade (vista como função maquínica, como desempenho perfeito), a preocupação, inoculada pela medicina, da "disfunção eréctil", por exemplo. Tal expressão, na sua obscenidade, diz tudo. Isso é que é pornográfico no sentido pejorativo, e não uma pessoa excitar-se com uma imagem que lhe dá gozo, sem prejudicar ninguém. Que enorme hipocrisia rodeia todos estes temas, que fazem a riqueza (não humana, financeira) dos psiquiatras, sexólogos, etc!

Às vezes transmito uma ideia a uma pessoa e essa pessoa não percebe que lhe estou a fazer uma declaração de amor
.
É como se as coisas fossem sapatos numa sapataria, tudo arrumadinho, tudo consoante o modelo, tudo conforme, tudo de acordo com as caixinhas (ou caixões?) em que repousam, à espera do consumidor, do momento próprio. Porque há um momento próprio para tudo: trabalho é trabalho, conhaque é conhaque.
Que miséria, que cansaço!

(Apetecia-me dizer um impropério popular, mas contenho-me).